CINEMA NACIONAL

"Feito pipa", que tentará o Oscar 2027 para o Brasil, estreia nos cinemas

Longa de Allan Deberton mostra o interior nordestino pela perspectiva de uma criança e uma idosa que abraçam a ideia de viver com liberdade

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 Por um lado, a memória e o esquecimento. Por outro, a liberdade e a falta dela. Essas dualidades estão no cerne de “Feito pipa”, longa de Allan Deberton escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027 e que chega nesta quinta-feira (5/11) aos cinemas. A estreia mundial foi em fevereiro, no Festival de Berlim, onde conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem.

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Escrito por André Araújo, o roteiro acompanha Gugu (Yuri Gomes), criança queer que adora futebol e que mora com a avó, Dilma (Teca Pereira), professora aposentada afetuosa e cheia de vida, que o cria com liberdade e respeito. Ela, no entanto, é acometida pelo Alzheimer. À medida em que sua memória vai se deteriorando, Gugu tem que encarar a possibilidade de morar com o pai homofóbico, Batista (Lázaro Ramos).

O território em que “Feito pipa” foi filmado – Quixadá, no interior do Ceará – também é um personagem. A paisagem gira em torno de uma cidade submersa por uma represa que, com a seca, começa a reaparecer, trazendo lembranças traumáticas que emergem, enquanto a memória de Dilma naufraga.


Deberton destaca que o cenário não está ali apenas para servir de fundo à narrativa; ele participa ativamente da construção dramática e emocional da história. André Araújo conta que conhecer a cidade de São Rafael, no Rio Grande do Norte, que foi inundada e reapareceu após um longo período de estiagem, foi a primeira inspiração para a escrita do roteiro.

“Visitei as ruínas e vi a imagem da igreja submersa, isso me impactou muito. A história nasceu dessa inquietação provocada por aquela paisagem”, diz. Outra motivação foi o desejo de contar uma história sobre uma infância queer no interior do Ceará, sua terra natal.


“CRIANÇA COMPLEXA”


“Gugu é uma criança complexa, que sonha em ser jogador de futebol, mas que canta, dança, tem uma pulsão grande de vida. Ele representa a liberdade, o amor, o afeto”, afirma. O roteirista diz que, por meio desse personagem e da paisagem, quis desfazer uma imagem estereotipada que ainda se tem do sertão nordestino. “Quis mostrar o meu ponto de vista sobre esse lugar, apresentar para o mundo o meu sertão.”

Ele observa, ainda, que a liberdade é representada não só por Gugu, mas também por Dilma, uma personagem que, segundo afirma Araújo, não pode ser rotulada somente pela idade ou pela doença.

Deberton faz coro: “Dilma é uma mulher vaidosa, divertida, apaixonada pela vida, que gosta de dançar, de namorar, de se arrumar. Muitas vezes, personagens idosos aparecem no audiovisual apenas a partir de suas fragilidades”, comenta. “São dois personagens que gritam pela liberdade, representam o desejo de viver, de construir suas próprias histórias além das normatividades”, observa o roteirista.

Além de Berlim, “Feito pipa” já conquistou prêmios em diversos outros festivais de que participou, em Guadalajara (México), em Kiev (Ucrânia), em Atlanta (EUA), em São Paulo e em Gramado, onde venceu nas categorias Melhor Direção; Melhor Atriz (Teca Pereira); Melhor Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos); e Melhor Filme pelo Júri Popular, além de uma menção honrosa para Yuri Gomes, que também foi escolhido Melhor Ator no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia.

Para Deberton, tais premiações dizem respeito não somente a “Feito pipa”; elas são resultado da potência do audiovisual brasileiro na atualidade. “Temos visto um cinema muito diverso, com novos realizadores, novos atores, contando cada vez mais com a experiência e a criatividade dos profissionais da área. 'Feito pipa' é um filme feito no interior do Ceará, então tem a mão de obra local, tem os talentos do Brasil adentro”, diz.

Em sua avaliação, “é uma história emocionante e delicada, que carrega um sentimento de brasilidade, mostrando um país colorido e musical, com energia, com vivacidade, que faz com que todos nós nos identifiquemos”.

O diretor avalia que “as pessoas se comovem e se importam com aqueles personagens, porque são situações que estão no cotidiano desse Brasil profundo”. Ele destaca, ainda, o fato de públicos de diferentes lugares se conectarem emocionalmente com a história. “O filme fala de uma família do interior do Ceará, mas aborda sentimentos universais”, diz.

CAMPANHA AO OSCAR

O diretor Allan Deberton diz que, desde que “Feito pipa” foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme Internacional, está em curso uma campanha para que ele seja visto pelo maior número possível de votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele afirma que o simples fato de ser um aspirante à disputa já é gratificante.

“É uma troca com a indústria, uma oportunidade de saber como funciona o processo do Oscar, que tanto tem atraído a atenção dos brasileiros, com uma torcida e uma adesão comparáveis ao que acontece com o futebol ou o carnaval”, diz.

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“FEITO PIPA”
(Brasil, 2026, 93 min.). Direção: Allan Deberton. Com Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. Estreia nesta quinta-feira (5/11) em salas das redes Cineart, Cinemark, Cinépolis e no Cine Belas Artes.

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