De tênis coloridos, camisa cor de abóbora e cabelo desgrenhado, Ronnie Wood parece mesmo um garoto -apelido que ganhou quando entrou no já fundado Rolling Stones, em 1975. Quem ousaria dizer-lhe o contrário? "Me sinto energizado e nada cansado, estou sempre pronto para a festa", diz o guitarrista, durante uma pausa no ensaio com a banda em um estúdio na Vila Madalena, na capital paulista.
Ronnie, o garoto de 79 anos, está em Sampal para apresentação de sua turnê solo. O show celebra o álbum "Fearless", compilado lançado em 2025 com canções que costuram mais de seis décadas de carreira do artista como parte dos Stones, além de seus anos como integrante do grupo The Faces, projetos solo, parcerias com Jeff Beck e Rod Stewart e mais quatro faixas inéditas.
"As músicas que tocamos no show são novas para alguns públicos. Podem ser velhas para nós", diz Wood. A coletânea e a apresentação contam com clássicos como "Miss you" e "Hey negrita", faixa que mostra como a guitarra de Wood sempre teve suingue e protagonismo.
"Com os Stones, a gente já tocou para umas quatro gerações, e hoje só quero fazer as pessoas felizes, ainda mais nesse mundo em que vivemos. A minha festa é no palco", diz. "Estou limpo há 16 anos, sem fumar há 11. Não sinto falta do tempo das drogas. Me sinto grato por estar vivo, me sinto melhor agora."
Nos últimos dez anos, Wood enfrentou duas vezes o câncer, mas nem a doença o tirou da estrada. A segunda vez coincidiu com a pandemia, e só assim para o artista ficar em casa.
"Não estamos fazendo shows com os Stones, nem estamos pensando em sair em turnê", diz. "Então pensei: quero manter a forma, manter os dedos e a voz funcionando, então essa era a oportunidade ideal para juntar a minha banda ideal."
Leia Mais
Fazendo jus à sua guitarra de sustentação (Wood foi baixista ao lado de Rod Stewart nos anos 1960), o artista montou seu grupo. Reuniu os parceiros do início de carreira Andy Newmark, ex-baterista do Sly and the Family Stone, e Willie Weeks, baixista que tocou por anos com Aretha Franklin.
No palco, Wood também conta com a participação de Imelda May. A cantora irlandesa conheceu o Stone quando tinha 16 anos.
"Eu era apaixonada por música e já frequentava alguns clubes e casas de show de Dublin -entrava nos bares escondida", conta ela. "Numa dessas ocasiões, o Ronnie estava hospedado em um hotel por perto e veio fazer uma jam session, tocamos algumas músicas juntos. Eu fiquei emocionada."
O reencontro só veio a acontecer décadas depois, quando May já havia trilhado uma carreira que a levara a tocar ao lado do antigo parceiro musical de Wood, Jeff Beck, que fez as apresentações oficiais entre ela e Wood. "Ele saiu correndo pela sala dizendo para todo mundo: 'Você é a garota daquele clube de blues! Eu descobri você quando você só tinha 16 anos!' E, desde então, somos grandes amigos."
A amizade vingou graças à melomania compartilhada pelos dois, uma paixão que mantém a dupla incansável na labuta. "A gente já sabe o que vai tocar, mas gostamos de mexer nos detalhes", conta May. "Eu falo para Ronnie que poderíamos fazer essa turnê sem ensaiar, mas não fazemos esses ensaios pelos outros -fazemos por nós mesmos, porque sempre tem coisinhas aqui e ali que vão funcionar melhor para nós."
Por isso, os ensaios têm cara de show. Deslizes e vacilos não entram na conta, detalhes só ficam evidentes para iniciados. "É preciso se manter ativo, ensaiando", conta Wood. "A gente só ajusta alguns elementos, mas é algo que faz muita diferença quando tudo se junta."
Há também na banda uma busca pelo novo, já que quatro das faixas do disco são inéditas. Uma delas, "Take It easy", é um dos grandes sucessos do rocksteady, gênero antecessor do reggae. "A música jamaicana é muito importante para o ritmo, e conheci gente como Jimmy Cliff e Bob Marley, aprendi um pouco com eles ao longo dos anos -Keith e eu fomos muito inspirados pelos músicos jamaicanos", afirma Wood.
Rod Stewart
Vindo de um álbum recém-lançado dos Stones, "Foreign tongues", o guitarrista não descarta novidades para 2027. "Rod [Stewart] e eu temos músicas que estão em banho-maria há anos, e estamos começando a ajustá-las, estamos trabalhando nas faixas que têm mais potencial", diz Wood. "Ele acabou de anunciar que vai fazer a última turnê, mas tenho certeza de que vamos trabalhar nessas músicas no ano que vem."
Ao contrário do amigo, Wood não parece estar disposto a abandonar os palcos. Enquanto seus dedos puderem se manter vivos na "arte da tecelagem" -termo que Keith Richards cunhou para definir a seção de guitarras dos Stones-, Wood estará costurando clássicos.
"Minha música tem influência do blues, do reggae, do soul e até de música clássica", ele afirma. "Chuck Berry dizia que a gente não faz nada que Mozart já não tenha feito."
RONNIE WOOD
Show domingo (1º/11), a partir das 18h, no Espaço Unimed, Rua Tagipuru, 795, São Paulo. Preço a partir de R$ 476, à venda na plataforma Eventim.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
