“Um Brasil a ser conhecido.” É assim que o coordenador Cardes Amâncio define a temática da 9ª Mostra Cinema dos Quilombos, que o Cine Santa Tereza abriga a partir desta quarta-feira (21/10), com produções que expõem parte de um Brasil muitas vezes renegado.


“O cinema dos Quilombos nos fornece a possibilidade, junto com outras artes, de conhecer um Brasil organizado, perseverante e que defende seu território. Algo não amplamente registrado em livros didáticos, no cinema e em programas de TV”, afirma o coordenador do ciclo.


A programação é organizada em sessões que reúnem entre dois e quatro curtas documentais cada uma. O único longa-metragem na mostra é “Benvindos” (2025), de Luana Cabral. No documentário, moradores do Quilombo do Retiro, em Espírito Santo, têm que escolher uma nova diretora para a Associação dos Herdeiros para continuar a luta pela preservação. A sessão será às 19h de sexta (23/10).


Os títulos da mostra abordam aspectos como a percepção dos quilombolas sobre os próprios quilombos, experimentando seu território e a forma de organizar suas imagens, e temas religiosos, com registros de celebrações como o Congado e a festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.


“Temos quilombolas filmando pela primeira vez, com a chegada das câmeras a esses lugares, e realizando a escuta dos mais velhos. É uma democratização do acesso e da possibilidade de fazer filmes, algo que já foi um privilégio de classe”, diz Cardes Amâncio.


A abertura, nesta quarta (21/10), às 17h, traz os curtas “Mãe do Ouro” (2025), “A história do Maculelê” (2026), “De barriga pra cima” (2026) e “Vão das almas” (2023). O último conta com comentários da diretora Edileuza Penha, que acompanhou a história do Quilombo Kalunga, em Goiás, na qual a profecia de Matinta corta o vilarejo-fantasma do Vão de Almas.


“Os cinemas são espaços de troca, de encontro, de conversas. Vamos receber diversos realizadores de quilombos próximos a BH e de longe, como de Goiás. É a celebração de um cinema produzido em todo o território e os realizadores podem trocar ideias, processos criativos e quais são os próximos passos”, diz o coordenador.


Dos 18 filmes a serem exibidos, 14 contam com debate após a sessão, com diretores e equipes de produção. “É maravilhoso poder contar com o Cine Santa Tereza, o Sesc Palladium [que recebeu edições anteriores] e outros espaços da cidade que oferecem programações gratuitas e diferenciadas do cinema comercial. Eles são trincheiras do cinema nacional e abrem um espaço que não seria encontrado em outro lugar”, diz Amâncio.

Para além dos espaços culturais da capital, a mostra já realizou edições nos Quilombo dos Marques, no Vale do Mucuri, Quilombo Manzo e Quilombo do Açude em BH. O festival também promove oficinas sobre produção cinematográfica nos quilombos.


O curta “Nove águas” (2019), de Gabriel Martins, com o Quilombo dos Marques, é um desses resultados”, cita o coordenador. Nesta edição, o curta “Kutala - herdeiros ancestrais” (2025), dirigido por Fábio Martins e o Quilombo Manzo, é resultado desse trabalho.


“Uma matriarca do quilombo conversa com os netos e bisnetos, e eles falam sobre as relações com a mata sagrada, próxima ao quilombo, em um processo de retomada de um território que um dia pertenceu a eles”, conta o coordenador.


9ª MOSTRA CINEMA DOS QUILOMBOS
Desta quarta-feira (21/10) a sábado (24/10) no Cine Santa Tereza (Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza). Ingressos gratuitos disponíveis no Sympla. 50% reservados para retirada 30 minutos antes das sessões, na bilheteria do cinema.

*Estagiário sob supervisão da editora Silvana Arantes

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