Pitty volta com um admirável disco novo
Sexto álbum de inéditas da baiana traz 13 faixas em que ela incorpora a sonoridade dos primeiros trabalhos, acrescida de novos elementos, com resultado coeso
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Pitty tem dito de forma reiterada, sobre seu novo álbum de inéditas, o primeiro desde “Matriz” (2019), lançado na última sexta-feira (16/10), que sente como se fosse seu debute fonográfico. É sintomático que ele traga apenas seu nome como título.
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Com efeito, “Pitty” aponta para seu primeiro trabalho, “Admirável chip novo” (2003), na medida em que retoma com mais ênfase o punk, o hardcore e o rock pesado dos anos 1990, entre o metal, o stoner e o grunge, que moldaram a sonoridade daquela estreia.
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O novo trabalho da cantora e compositora baiana, contudo, não soa meramente revisionista ou deslocado no tempo, porque se abre a outros gêneros. Trata-se de um trabalho que revela a maturidade de quem estabeleceu uma estética e, sem deixar de tê-la como esteio, se permite explorar outros terrenos, mantendo a coesão.
“Sobremesa”, o single que prenunciou o lançamento do álbum, abre a sequência de 13 faixas sem firulas. Ancorada em um riff de guitarra pegajoso, é uma música mais castiça, por assim dizer.
A segunda faixa, “Armadura”, no entanto, já explicita o que talvez seja a característica mais marcante deste que é o sexto título de estúdio de Pitty: o flerte com a pista de dança. Sem perder o peso e a agressividade, o disco traz músicas que podem evocar tanto as discotecas dos anos 1970 quanto o rock com mais apelo aos quadris de bandas como Strokes ou The Hives.
Além de “Armadura”, as levadas dançantes conduzem de forma mais acentuada as faixas “Pileque de poeta”, “Sobriedade seletiva” e “Madame”.
COZINHA PULSANTE
A cozinha é determinante para esse tempero. Se é a guitarra de Martin Mendonça, fiel escudeiro de Pitty desde os primeiros passos, que segura o peso, são o baixo de Paulo Kishimoto e a bateria de Nico que garantem a pulsação.
Mas não é só graças a essa vocação para a pista que o novo álbum avança em relação ao que Pitty apresentou no início de sua caminhada fonográfica. A terceira faixa, “Desobediente”, traz um toque oriental na abertura, que prepara terreno para uma das cadências mais pesadas do repertório.
Já a música “Não à deriva” é a que mantém maior fidelidade ao punk rock e ao hardcore. Enérgica e acelerada, ela estabelece uma dinâmica de morde e assopra com a faixa seguinte, “Caminhada”, que é uma balada de tons épicos, um respiro no meio da pauleira, que deixa de lado a contundência para privilegiar uma melodia mais sinuosa.
“Amiga”, a oitava faixa do disco, inicia com um violão que traz ecos do flamenco, no melhor estilo Gipsy Kings, que dita o ritmo do bom e velho rock'n'roll que se segue.
Já “Álbum de casamento”, que surge no terço final do álbum, é um blues denso, pesado e classudo, que poderia estar na trilha sonora de algum filme de Tarantino.
“Nó”, que fecha o repertório, dialoga com o tom mais pop e radiofônico de trabalhos como “Anacrônico” (2005) e “Chiaroscuro” (2009), que sucederam “Admirável chip novo”. “Prazer, universo” rivaliza com “Desobediente” na disputa pelo posto de mais pesada de “Pitty”, fazendo vir à lembrança o som de bandas como Helmet, Filter ou Prong.
PRODUÇÃO ESMERADA
Há que se dar o crédito pelos bons resultados alcançados no disco à produção certeira da própria artista, ao lado de Rafael Ramos, outro parceiro com quem caminha desde os primórdios da carreira. Os dois contam com as adesões precisas de Nave, em “Desobediente”, e Felipe Vassão, em “Pileque de poeta” e “Sobriedade seletiva”. O modo como este novo trabalho começou a tomar forma também explica essa sensação de estreia que Pitty alardeia.
O álbum nasceu depois de um período de pausa, escuta e reorganização, a partir de uma inspiração que, conforme diz, não foi racionalizada: as ideias foram surgindo, e ela voltou a criar sozinha com o violão, como nos primeiros anos, quando compunha no quarto de sua casa, em Salvador.
Desta vez, porém, o processo avançou para além das letras e melodias. Em seu estúdio, a artista experimentou arranjos, criou riffs e pré-produziu demos, construindo a identidade musical das canções, antes da gravação definitiva.
Pitty tem dito em entrevistas que compôs todas as músicas do novo álbum num período de dois meses, em um fluxo criativo incessante e que, por isso, ele é um retrato fiel de seu atual momento de vida.
Ela conta que fez o disco “sem saber que estava fazendo”, meio inconscientemente, e que isso é o que o diferencia de trabalhos anteriores, para os quais revisitava escritos e reunia ideias que haviam ficado guardadas. De fato, “Pitty” exala urgência, ao mesmo tempo em que mostra uma abertura para novos horizontes.
ÍNTIMO E UNIVERSAL
Nesse tempo que ficou sem lançar disco, Pitty viveu muitas e fortes emoções. Ela passou, em 2024, por uma cirurgia de emergência cuja causa não foi revelada; divorciou-se do baterista do NX Zero, Daniel Weksler, após 19 anos de relação e 15 de casamento; encarou o luto pela perda da mãe, com quem teve uma relação conturbada durante a juventude; fez dois anos de terapia; e viu florescer um novo momento de sua sexualidade. Em termos de temática, seu novo álbum condensa toda essa vivência.
As letras das músicas refletem, de forma direta ou indireta, os acontecimentos dos últimos anos e os pensamentos do momento presente. A cantora avalia o trabalho como visceral, sem filtros, mas afirma que ele se dirige ao coletivo.
“PITTY”
• 13 faixas
• Deckdisc
• Disponível nas plataformas
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