Benito di Paula criou o seu próprio samba, romântico como ele só
Cantor, compositor e autor de 'Retalhos de cetim', morto aos 84 anos, deixa o legado de seu batuque peculiar nas teclas do piano
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Benito di Paula rivalizou com Roberto Carlos nos anos 1970. Com seu “sambão-joia”, fez frente ao Rei nas lojas de disco ao lançar o hit “Retalhos de cetim”, que o tornou conhecido em todo o Brasil. Na verdade, suas composições ganharam a voz de Roberto, caso de “Amanheceu” (1975). Tachado de 'brega', Benito fez muito sucesso, era artista popular, mas amargou o ostracismo.
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“Não sei o que aconteceu. De repente ninguém me quis mais, a televisão não me chamou mais, parecia que todo mundo morreu”, contou ele ao G1, em 2009. Passou 13 anos sem gravar novidades, mas ressurgiu em 2009 com CD e DVD registrados ao vivo no Rio de Janeiro. O repertório trazia os sucessos “Charlie Brown” e “Mulher brasileira”, além de “Me dê motivo”, de Tim Maia.
Aos 74 anos, o cantor, compositor e pianista morreu neste domingo (18/10), em São Paulo, onde estava internado para tratar um câncer de próstata.
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Nos anos 1970, o popularíssimo e romântico “sambão-joia” de Benito e da dupla Antonio Carlos e Jocafi, entre outros, era considerado “despolitizado” pela crítica, diante da engajada MPB setentista do auge da ditadura militar.
O musicista Adelcio Camilo Machado, autor da dissertação “Quem te viu, quem te vê: o samba pede passagem para a década de 1970”, apresentada na Unicamp, destacou a importância deste samba romantizado, colocado à margem da “linha evolutiva da música brasileira”, anota Maria Alice da Cruz em artigo em publicação daquela universidade.
Teorias à parte, Benito exibia orgulho de sua trajetória. Em entrevista ao Estado de Minas em 2013, lembrou que mereceu homenagem de Luiz Gonzaga na canção “Chapéu de couro e gratidão” (1977). Como é bonito Benito/ Quem é poeta e que ver/ Como é bonito Benito/ Poetas como você”, cantava o Lua.
“Nem com os Beatles isso ocorreu. Sou mais importante do que eles”, brincou Benito di Paula em entrevista à repórter Ana Clara Brant. Aos 71 anos, não escondia a mágoa pela discriminação que sofreu.
“Ninguém pode discriminar ninguém. Mas tem uma canalhada que não está nem aí. E até alguns artistas são assim. Você já viu algum colega elogiar o outro? Estou sempre falando bem de Gonzagão, Tom Jobim, Chico Buarque. Faço questão mesmo. Tem uma turma aí que fala mal de mim, antes mesmo de me conhecer. Um bando de covardes. Isso é sacanagem”, declarou. E exigiu respeito.
“Todo artista que tem público é popular. Tem artista mais popular do que os Rolling Stones ou do que os Beatles? Não importa se é classe A, B ou Z, ou se é Chico Buarque, Noel Rosa ou Roberto Carlos. Ninguém é menos artista do que o outro só porque canta para a elite. Isso é uma grande bobagem”, desabafou.
Oriundo de família cigana, contou que o DNA gitano está no sangue (adorava viajar para fazer shows) e na música. O menino Uday Vellozo (seu nome de batismo) foi influenciado pelo pai, ferroviário que tocava acordeom, violão de sete cordas e cavaquinho.
Autodidata, aprendeu a gostar de canções ouvidas com a família humilde. Ouvia Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa e Nelson Gonçalves.
Nascido em Nova Friburgo, gostava de contar que o pai criou a primeira escola de samba desta cidade fluminense, a Unidos da Saudade. Aliás, em 2025 ficou muito emocionado ao ganhar homenagem da escola paulistana da Vila Pompeia, que levou para a pista o enredo "Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do jeito que a vida quer".
Nos anos 1960, já como Benito di Paula, trabalhava em bares e boates do Rio de Janeiro. Certa vez, contou que o primeiro álbum, de 1971, teve problemas com a censura, porque uma das faixas era a versão de “Apesar de você”, de Chico Buarque.
Sambeiro pianeiro
Mas ele foi em frente. Mudou-se para São Paulo, dedicou-se ao piano, apostou no samba romântico, estourou com "Retalhos de cetim". O crítico Mauro Ferreira lembrou, no obituário publicado no G1, que ele se autointitulava “sambeiro pianeiro” e não se comparava a bambas como Paulinho da Viola e Martinho da Vila, por exemplo.
De acordo com Mauro, sua batucada peculiar, marcada pelo toque percussivo no piano, “antecipou o pagode paulista que seria propagado nos anos 1990 por grupos como Raça Negra e arranjos cheios de teclados”.
Aliás, Benito não gostava do rótulo “samba-joia”. Ao EM, definiu seu estilo como latino-americano. “Meu negócio é cubano, chá-chá-chá, bolero.Tenho, sim, influência do samba de Ataulfo Alves, mas acho que fui muito associado a isso porque montei várias rodas de samba em São Paulo”, explicou.
Gravou dezenas de LPs e viveu o auge da carreira na década de 1970. Seu rico legado vai de “Retalhos de cetim” (1973) a “Charlie Brown” (1974), “Beleza que é você, mulher” (1974), “Bandeira do samba” (1975), “Como dizia o mestre” (1975), “Vai ficar na saudade” (1975), “Tudo está no seu lugar” (1976) e “Do jeito que a vida quer” (1976), passando por “Assobiar e chupar cana” (1977) e “Proteção às borboletas” (1977).
Mais recentemente, o filho dele, Rodrigo Vellozo, abraçou a missão de retomar a carreira do pai. Os dois subiram ao palco várias vezes. Benito comentava que o retorno se devia à insistência da família. “Fiquei muitos anos sem gravar e voltei a fazer trabalho ao vivo porque meus filhos insistiram. Ninguém liga para a cultura neste país”, afirmou ao EM. Em BH, os dois cantaram no Palácio das Artes, entre outros palcos.
Quando Benito fez 80 anos, a dupla lançou o CD “Infalível zen”, com 12 faixas. O show tinha dois pianos, um para o pai, outro para o filho. “Fiquei provocando meu pai para compor, além de também resgatar algumas coisas que ele compôs e não tinha gravado ainda. Pesquisei toda a obra dele”, comentou Rodrigo, em 2021.
“São inéditas, antigas ou recentes. Também temos parcerias com nomes da música contemporânea de São Paulo, música instrumental dele no piano”, revelou.
Durante a pandemia, Benito decidiu mudar o visual. Tirou cabelo e barba, mas logo voltou atrás. “Parecia uma bola sete”, dizia, divertido.
Benito 85
Neste 2026, o cantor, compositor e pianista era o centro do projeto “Benito 85”, com shows e disco comemorativos de seus 85 anos, que seriam completados em novembro. Ao lado de Benito, que festejava também sete décadas de carreira, estavam o filho Rodrigo, o percussionista Fumaça e destaques paulistas da MPB contemporânea, Thiago França e Rodrigo Campos.
O repertório traz releituras de “Retalhos de cetim”, “Do jeito que a vida quer”, “Charlie Brown”, “Proteção às borboletas”, “Ah! como eu amei”, “Amigo do Sol, amigo da Lua”, “Violão não se empresta a ninguém” e “Tudo está no seu lugar”. Em julho, Benito e companheiros subiram ao palco da Casa Natura Musical, na capital paulista, com um convidado especial: Zeca Baleiro.
“Meu amigo e ídolo genial Benito di Paula se foi. Dia triste para a música brasileira. Mais um pedaço bonito e inspirador do Brasil que se vai. Obrigado, parceiro querido, por tanta beleza”, despediu-se Zeca, em mensagem publicada em seu perfil no Instagram.
“Te amo, papai!, obrigado”, postou Rodrigo Vellozo em seu perfil, recebendo o carinho de Maria Rita, Teresa Cristina, Mariana Aydar, Juçara Marçal, Rômulo Froes, Mumuzinho e Fafá de Belém, entre outros artistas.
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