Pedro Bandeira, de 84 anos, estreia na literatura para adultos
O autor de best-sellers infantojuvenis põe Sherlock Holmes para descobrir se Capitu, a intrigante personagem de Machado de Assis, é mesmo adúltera
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Aos 84 anos de idade e 43 desde a publicação do primeiro livro, “O dinossauro que fazia au-au”, Pedro Bandeira está, novamente, estreando. “Sherlock Holmes investiga: A traição de Capitu” (Rocco) é a primeira obra do escritor paulista dedicada ao leitor adulto. O sonho acalentado há duas décadas é sinônimo de liberdade para o autor.
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“Sou escritor para adolescente, trabalho com escolas. Tem países que não têm esse negócio de adoção de literatura, mas como aqui nossas famílias leem pouco, ou a escola manda o aluno ler ou ele não lê nada. Minha preocupação é com o letramento dos brasileiros. Todos os meus livros têm final feliz. É obrigatório. Como os alunos estão aprendendo a viver, têm de saber que mesmo que errem, terão a chance de um final feliz. Então, não posso falar muito de violência, sexo explícito. Já para adultos, posso fazer a crítica social que quiser”, afirma.
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Seu romance inaugural para o público adulto não tem nada explícito. Mas traz referências históricas e alguma sutileza que poderão não fazer sentido para adolescentes. Com o estilo leve que marca sua trajetória, Bandeira se apossa de dois ícones – o maior dos detetives e o mais célebre dos escritores brasileiros – para levar o leitor a refletir.
Na Inglaterra que acabou de chegar ao século 20, Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro, o Dr. John Watson, leem, juntos, “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis. A dupla vai investigar o maior mistério da literatura do Brasil: Capitu traiu ou não Bentinho com Escobar, o melhor amigo dele?
A maneira como Bandeira construiu a história é engenhosa. Os capítulos são intercalados. Um deles trata de “Dom Casmurro”. No seguinte, a dupla sai pelo mundo investigando casos – alguns com pessoas célebres. Cada investigação é independente. “As aventuras servem como intervalo para o leitor, para ver, de novo, Sherlock em ação.”
Entre os personagens desses os “contos” estão a rainha Vitória, Freud e o dramaturgo George Bernard Shaw. “Essa intervenção dos personagens corresponde com a vida deles, foi tudo pesquisado”, explica Bandeira.
Já a parte dedicada a Machado, Bentinho, Capitu e Escobar ocorre na sala de casa, na Baker Street, 221B, ao longo de vários anos. Ali, com Sherlock e Watson refestelados, cada qual em uma poltrona, os dois leem o livro. É o próprio Bentinho, o narrador do romance, quem conta para a dupla cada passagem de sua história e como o ciúme doentio destruiu seu casamento.
Tudo, absolutamente tudo o que vem da boca deste e de outros personagens de “Dom Casmurro” foi tirado do romance de Machado. “Não mexo em nada. Só coloquei o Sherlock e o Watson no meio dos interrogatórios porque quero fazer com que o leitor pense também”, continua Bandeira.
Watson, o 'escada'
A interação funciona porque o autor fez um Watson bastante obtuso. Ainda que com boas intenções, o personagem é um tanto reacionário, misógino, contraponto ao brilhante Sherlock. “Eu precisava disso porque o Watson é como o ‘escada’ em teatro. Uma pessoa pouco culta, que não entende as coisas, para que eu pudesse fazer piadas, pois o livro tem humor.”
A nova obra não é a primeira de Bandeira no universo do detetive criado por Conan Doyle. Ele foi coautor de “Melodia mortal: Sherlock Holmes investiga as mortes de gênios da música” (2017). Esse livro foi concebido pelo infectologista Guido Carlos Levi, a quem “A traição de Capitu” é dedicado.
“Ele é meu amigo irmão, grande entendedor de música clássica. Começou a investigar a morte de compositores famosos. Combinamos que eu faria a parte de Sherlock, investigando as histórias”, explica. Algumas dessas histórias foram levadas para o novo livro.
Bandeira costuma ler Machado de Assis como “um evangélico lê a Bíblia”. “Ele é o melhor escritor do mundo no fim do século 19. Cria um narrador em primeira pessoa genial que precisa do leitor para ser entendido. É fantástico como realmente colocou pistas dos dois lados. Você fica sempre em dúvida (quanto à traição de Capitu).”
Planos
Depois deste primeiro livro, Bandeira sonha em finalizar a história que tem na cabeça há mais de 20 anos. Segundo ele, a narrativa é mais pesada, com protagonista mulher. Ela é tímida, neurótica e deslocada de seu meio.
“Tenho a história inteira, mas tenho que ter como contá-la. Quero que o leitor tire suas próprias conclusões. Vou mostrar para o Machado que não é só ele quem sabe fazer isso. Eu também, mas não igual ao bruxinho. Pois como ele, nunca haverá outro”, finaliza.
Campeão de vendas
Pedro Bandeira é autor conhecido de várias gerações graças à coleção “Os Karas”. A célebre série infantojuvenil reúne os volumes “A droga da obediência” (1984), “Pântano de sangue” (1987), “Anjo da morte” (1988), “A droga do amor” (1994), “Droga de americana!” (1999) e “A droga da amizade” (2014).
Sua obra, com dezenas de títulos para crianças e adolescentes, soma 33 milhões de exemplares vendidos. “Os números dos escritores (adotados nos colégios) são sempre grandes, pois se compra muito livro para escolas públicas, às vezes 1 milhão, 500 mil”, comenta o escritor.
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“SHERLOCK HOLMES INVESTIGA: A TRAIÇÃO DE CAPITU”
. De Pedro Bandeira
. Rocco
. 304 páginas
. R$ 69,90 (livro)
. R$ 34,90 (e-book)