LITERATURA

‘A festa’ de Ivan Angelo não tem data para acabar

Romance celebrado pela ousadia narrativa ganha edição especial de 50 anos que será lançada pelo autor mineiro no projeto "Letra em cena" na próxima terça-feira em BH

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“Eu não quero morrer”, pede uma das personagens de “A festa”. Cinquenta anos depois do lançamento, o romance atende ao pedido de uma de suas criações. Ousado, incisivo, divertido, o livro mais celebrado da carreira do escritor mineiro Ivan Angelo está mais vivo do que nunca. É o que comprova a leitura da edição especial de 50 anos, que acaba de ser lançada pela Arquipélago Editorial.

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“Achei a edição linda, caprichada, um trabalho excepcional dos editores, o Tito Montenegro e o Luís Henrique Pellanda. O corpo do romance foi tratado com respeito artesanal”, afirma Ivan Angelo, 90 anos, em entrevista ao Pensar. Ele conversará com os leitores de Belo Horizonte, cenário principal do romance, em edição especial de 10 anos do projeto Letra em Cena, no Centro Cultural Unimed BH-Minas, na próxima terça-feira (20/10). “Creio que se pode esperar uma visão fresca do que fomos e do que nos tornamos, uma visão pessoal do que é construir um livro, não apenas escrever”, antecipa.

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Radicado em São Paulo, o mineiro de Barbacena começou a escrever “A festa” no início dos anos 1960, quando ainda morava em BH e começava a carreira como jornalista. O projeto inicial era de um livro de contos que se transformava num romance pela mágica do autor, lembra Ivan Angelo. “Aí, no meio desse processo, veio o golpe de Estado em 1964, vieram os militares com suas censuras e proibições e prisões, e naquele clima eu parei o livro”, recorda. “Como escrever nesse climão?”

Em 1973, já na equipe do Jornal da Tarde, em São Paulo, Ivan Angelo decidiu retomar o romance, incluindo o que chama de “todas as impossibilidades da sociedade brasileira do período, tomando todo o cuidado na escrita para driblar a censura”. As restrições, felizmente, não foram suficientes para frear a imaginação do escritor. Muito pelo contrário. Cada capítulo de “A festa” é uma surpresa pela alternância de vozes e estilos narrativos. A vasta galeria de personagens inclui um autor a comentar os processos e impasses de criação do próprio romance. “Este é não é um livro sobre uma geração, é sobre várias gerações que um dia se encontram no 1970 brasileiro”, confessa o personagem-escritor.

Responsável pela preparação e edição do lançamento da Arquipélago, o escritor Luís Henrique Pellanda acredita que o livro de Ivan Angelo “conseguiu preservar todo o frescor de sua forma fragmentada e cinematográfica, divertida e experimental, meio século depois de sua concepção”. Neste Pensar, Ivan conta como surgiu “A festa” e comenta a nova edição. Já o escritor Rodrigo Lacerda, autor de um alentado e iluminador posfácio, analisa aspectos deste romance de 1976 que se recusa a morrer.

Vamos para a festa?

Entrevista/Ivan Angelo (escritor)

“O romance falou por muita gente sem fazer comício”

O que achou da nova edição?

Achei a edição linda, caprichada, um trabalho excepcional dos editores, o Tito Montenegro e o Luís Henrique Pellanda. O corpo do romance tratado com respeito artesanal. Soluções gráficas procurando respeitar as ideias criativas das primeiras impressões. Informações muito ricas marcando a carreira crítica feliz do livro. E, principalmente, um minucioso e aprofundado ensaio crítico escrito especialmente para esta edição comemorativa pelo premiado escritor, tradutor e editor Rodrigo Lacerda. Ele garante que, cinquenta anos passados, o livro se lê muito bem, com prazer e preservada surpresa.

Sentiu vontade de fazer alguma alteração ou acréscimo à primeira edição?

Não tive nenhuma tentação de fazer alterações ou acréscimos. Fiz correções pequenas, tira um palavrão aqui, uma palavrinha ali, bota uma vírgula, ajeita uma frase mais adiante, coisinhas assim. Já fiz intervenções radicais num outro livro, que resultou em uma experiência muito estimulante, um conto que ficou se chamando “Entrevero do autor com seu conto”. Está no livro “A face horrível” (1986). Mas aqui, n’A festa’, não, não mudei nada nem senti necessidade.

Quando você olha para “A festa” 50 anos depois, o que mais o surpreende: aquilo que envelheceu ou o que continua reconhecível no Brasil?

Ao contrário do que acontece com as pessoas, o país não muda, tudo parece a mesma coisa. Isso não chega a me surpreender. Veja a política. O Brasil não amadureceu politicamente. Os velhos líderes envelheceram, as mensagens perderam significados, ficaram as palavras, mas elas parecem vazias, retóricas, foi-se a vibração. Despolitizados, os ouvidos não compreendem o que é soberania, solidariedade, direitos, desigualdade. Segurança virou matar bandido pobre. Mudam as tecnologias, as roupas, as aparências, os cortes de cabelo, mas o Brasil tem a mesma velha alma desigual.

O romance começou a ser concebido antes do golpe de 1964 e só chegou às livrarias em 1976. Como a experiência de viver e escrever durante a ditadura alterou o projeto inicial do livro?


É, eu comecei a escrever o livro em 1963. Escrevi uns três dos contos que iam compor o corpo do romance enquanto trabalhava no jornal, acho que era o Correio de Minas, na época, e numa repartição pública que funcionava no edifício Acaiaca. O projeto inicial era quase o mesmo: um livro de contos que se transformava num romance pela mágica do autor. O título era o mesmo, a ideia era reunir todos os personagens dos contos numa grande festa de aniversário de trinta anos, junto com outras pessoas que nem tinham aparecido nas histórias, e terminar com uma grande narrativa de como aquela festa tinha modificado as vidas e os destinos. Aí, no meio desse processo, veio o golpe de Estado de 64, vieram os militares com suas censuras e proibições e prisões, e naquele clima eu parei o livro. Fui tocando minha vida na cidade, o Correio de Minas fechou, fui para o Diário de Minas, comecei a trabalhar também numa bela agência de propaganda, a Asa Publicidade, e no final de 65 recebi um convite para ir para São Paulo, trabalhar num jornal que ia ser criado, o Jornal da Tarde. Deixei “A festa” para lá. Em 68, veio o golpe que radicalizou o Golpe e os militares tiraram a máscara de vez. Torturavam e matavam os resistentes abertamente. Como escrever nesse climão? Censura braba nos jornais, nas revistas, nos livros, na música popular, no teatro... Só em 1973, depois de questionamentos e conversas sobre o que fazer, decidi retomar o romance, incluindo todas as impossibilidades da sociedade brasileira do período, tomando todo o cuidado na escrita para driblar a censura. Modifiquei um pouco o projeto, incluí os nordestinos da seca de 1970, tirei a festa, acentuei as impossibilidades, o clima, destaquei a voz do escritor e toquei o texto, pronto em 1975, recusado por duas editoras no mesmo ano e editado em 1976.

Em plena abertura “lenta, gradual e segura” do governo Geisel, que clima político e cultural cercou o lançamento de “A festa”?

Como eu disse, duas editoras, ambas do Rio, recusaram-se a publicar. Uma delas, a Nórdica, uma boa editora, por sinal, devolveu o texto com um bilhete: “gostei do autor, não posso publicar”. Uma coisa assim, não guardei o bilhete. Um pequeno editor de São Paulo, o Wladyr Nader, da Vertente Editora, decidiu publicar. O livro causou impacto imediato, sucesso de vendas. Diziam: vai ser recolhido pela censura, vão apreender, estão apreendendo no Rio Grande do Sul... Não aconteceu. Muitas editoras involuntariamente praticavam a autocensura, com medo de que o livro publicado desagradasse às autoridades e acabasse sendo apreendido. Prejuízo total. O meu livro saiu naquele momento em que a linha dura do Exército tinha perdido força com as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho sob tortura, em 1976, no DOI-Codi de São Paulo. A imprensa cultural gostou de festejar aquele livro de assunto tão delicado para o momento. O prêmio Jabuti reforçou as vendas, e o livro seguiu.

Você lembra como leitores, críticos e colegas interpretaram o livro no lançamento em 1976? Houve leituras que o surpreenderam ou incomodaram?

Ah, foi uma enxurrada de cartas, bilhetes, telefonemas, convites resenhas, críticas, uma coisa muito calorosa. Como se aquele romance tivesse falado por muita gente, e de forma correta, sem fazer comício, centrando o recado dele na literatura mesmo, na busca de qualidade literária, de criatividade. Esta edição comemorativa que estamos lançando traz duas dessas cartas da época, do escritor Caio Fernando Abreu e do agitador cultural Ezequiel Neves. Sobre leituras equivocadas eu soube de uma, por carta, que não saiu nos jornais, interpretando o livro como uma espécie de romance de formação, tipo “O encontro marcado”, do Fernando Sabino, e não é nada disso.

Você disse, em entrevista neste Pensar, que “A festa” é um “jogo de armar”. O que foi mais desafiador na armação deste jogo?

Em primeiro lugar, depois de escolhido o caminho o desafio era não deixar o leitor escapar, por preguiça, comodismo ou impaciência. Ir mantendo esse leitor curioso sobre no que aquilo ia dar, começando por classificar o gênero como “romance: contos”, fazendo-o pensar que aquilo poderia ser um livro de contos, mas não era bem assim. Ao mesmo tempo, levá-lo a ir curtindo a história de cada personagem, com mudanças de estilo e narrativa para cada personagem, até o leitor perceber que os personagens iam se misturando. Naquela entrevista que foi citada, eu disse “jogo de armar” com boa intenção, que era levar o leitor a ajudar a montar a história que existia além das histórias.

Até que ponto o jornalismo forneceu ferramentas para construir a linguagem de “A festa”?

A linguagem jornalística só ajudou nos momentos em que faço pastiche de notícias de jornal, principalmente no primeiro conto, “Documentário”, que deflagra toda a história. A linguagem artística que mais contribuiu para a construção do livro creio que foi o cinema. Uma boa crítica da época até chamou o livro de “cinematográfico”.

A festa anunciada pelo título não é narrada diretamente, conhecemos sobretudo o antes e o depois. Desde o início decidiu que a descrição da festa não entraria no livro? Por quê?

Não, não. Lá no princípio ia ter festa, sim. Uma festa sem narrativa na terceira pessoa, só o burburinho, o movimento, as falas, as cenas, como um grande travelling cinematográfico no meio de uma festa, como Fellini faz em “A trapaça”. No próprio livro eu explico como ia ser, assumindo o personagem do Escritor. Acabei retirando essa parte do texto, a parte da festa em si, porque achei que ia ficar um sofá incômodo no meio da sala. Exigia maestria narrativa, muita habilidade para manter o interesse pelos acontecimentos sem uma terceira pessoa narradora, aquele efeito de câmera passeando entre os convidados e a obrigação de ter um foco narrativo. Não confiei no resultado e retirei, mas fiz questão de mostrar ao leitor que aquilo era um fracasso.

Belo Horizonte surge no livro como uma cidade concreta e, ao mesmo tempo como retrato do Brasil. Quais aspectos da capital mineira dos anos 1960 e 1970 foram decisivos para a construção?

Busquei a cidade um pouco mais fundo do que isso, bem antes desses anos, fui aos anos 30, 40, 50. Porque há personagens que vivem seu primeiro amor nos anos 30, há outros nos anos 40 do pré e do pós-guerra mundial, que são os personagens do conto “Corrupção”, pais do rapaz que vai dar a festa, e os anos 50 também estão presentes, quando acontecem os primeiros embates da sociedade mineira com a personagem Andreia. No episódio “Antes da festa” há finalmente as impossibilidades surgidas naquele 1964, que eu chamo no subtítulo de “vítimas dos anos 60”. Tudo desagua no dia da festa, em 30 de março de 1970. Entre os aspectos da capital mineira que foram essenciais para eu situar as ações em BH eu destacaria o tamanho da cidade, nem pequena nem grande demais naquele 1970, destaco também a posição geográfica que tornou BH passagem do grande fluxo migratório de nordestinos fugidos da seca daqueles anos. Destaco também a natureza de uma sociedade que se abre para fechar e a grande atividade de bares e restaurantes que anima a vida da cidade desde os seus começos. Por fim, destaco a vida entre cosmopolita e provinciana, que levou um amigo nosso da época, o Ezequiel Neves, a chamar BH de “swinging London do terceiro mundo”.

Em determinado trecho do livro você menciona um “mistério mineiro” Quais são esses mistérios?

Difícil definir. Um jeito meio Carlos Drummond de Andrade de ser fechado e ao mesmo tempo abrir intimidades numa confidência. Depende de para quem e com que intenção. Um jeito de seduzir e enredar os de fora numa armadilha de encantos e doçura, como uma flor carnívora. Um jeito de quem sabe onde está o ouro, mas deixa lá por enquanto. O brasileiro percebe que mineiro tem umjeito que é seu, por isso foi sendo elaborada uma opinião comum sobre ele, que acaba sendo um preconceito, suave que seja. Mineiro é esperto, mineiro é desconfiado, mineiro escorrega pra cima, mineiro dá volta pra chegar primeiro, e por aí vai. Acaba sendo preconceito, é ou não é? Suave, mas é. O mistério mineiro não se explica, senão deixa de ser mistério. Decifra-me ou te devoro, propunha a esfinge aos decifradores, que eram sempre devorados...


Acho que não. Os indiferentes são os indiferentes de sempre, os solidários são os que se envolvem por simpatia ou por senso de justiça, os direitaços dedos-duros são os imutáveis de sempre, as vítimas continuam vítimas, revoltadas ou não. Os que transitam e evoluem são os solidários, os que têm compaixão ou alguma consciência política. Entre eles, minha simpatia vai para o estudante Carlos e o jornalista Samuel, que se comovem e atuam diante do sofrimento alheio.

Se escrevesse hoje um novo capítulo chamado “Depois da festa”, o que incluiria?

Acho que já escrevi, quase cinquenta anos depois de “A festa”. “Vida ao vivo”, meu romance de 2023, é a fala de um personagem que não foi convidado para a festa, um magnata das comunicações que viveu aquilo tudo daquela ditadura sem dar um pio. É a grande fala da grande direita poderosa e aproveitadora, que abriga com conforto distraído torturadores e corruptos. E, no entanto, é inteligente, brilhante, lido, informado, bom de humor, de fala rica e colorida. É um grande adversário para uma vítima igualmente sagaz e vingativa que se põe no seu caminho. Gostei muito de escrever esse romance, tão criativo quanto “A festa”, mais feroz, talvez, e tão divertido quanto. Trata de um assunto que não está em “A festa”: a impunidade. E a punição.

“Eu queria falar especificamente de pessoas, com suas histórias, envolvidas nos fatos e clima de 1970”

Ivan Angelo, em “A festa”

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“A festa – edição especial 50 anos”
• De Ivan Angelo
• Posfácio de Rodrigo Lacerda
• Arquipélago Editorial
• 296 páginas
• R$ 89,90

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