LITERATURA

Leitura selecionada: 'A festa' – edição especial 50 anos

Leia trechos do livro de Ivan Angelo, romance que marcou a literatura brasileira na década de 1970 e ganha edição especial aos 50 anos

Publicidade
Carregando...

Ivan Angelo

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Avenida Olegário Maciel, 52, apartamento 26
21h03

Envolvida pela água quente, que corta seus pequenos seios pela metade — na superfície, dois botões marronzinhos e tesos — Andreia se excita com as coisas que deveriam acontecer dentro de poucas horas e com a agradável ousadia da água, possuindo a delicadamente. O complicado mecanismo de suas certezas — ela, oferta irrecusável, prêmio, maravilha — já havia elaborado o papel que passaria a representar: esposa. Ela, a fascinante e inalcançável criação dos anos 50, concederia a um homem o privilégio de possuir sua intimidade, seus medos mais secretos, aos 37 anos de esquivanças.

Andreia amparava-se na semelhança entre eles, na timidez sexual dele e nas tentativas que faziam juntos para superar o problema de cada um. Ela sentia, nos toques dele, o amadurecimento do seu orgasmo e pressentia que o alcançaria quando conseguisse manter a ereção dele na hora de ser penetrada.

Era pouco para mudar uma vida, mas algumas vidas mudam com o vento. No seu banho de noiva, Andreia embala-se ao vento.

Leia: ‘A festa’ de Ivan Angelo não tem data para acabar

Leia: Por que 'A festa', de Ivan Angelo, é um marco na literatura brasileira

Leia: Livro "XXXV" é um ‘presente do acaso’ para os leitores de Silviano Santiago


Redação do Correio de Minas Gerais
23h31

— Como é, meu filho? Já estou indo.

— Espera, Haroldo, estamos fechando. Só falta a chamada dos nordestinos.

— O Estado passou a matéria para nós?

— Passou. Também, com aquele choro.

— Notícia do Samuel?

— Nenhuma. Muito estranho, isso.

— Será que aconteceu alguma coisa mesmo? Vai ver, a desculpa que a gente deu para o Estado passar a matéria para nós acaba sendo verdade.

Ênio dá três pancadinhas na mesa.

— Sabe que estou mesmo ficando preocupado com o garoto? Não, estou mesmo. Eu até já mandei o Euclides passar lá depois que o jornal rodar. Aí ele telefona para a gente.

— É, faz isso. E vê se fecha, pô. Não gosto de chegar tarde em festa. Acaba não sobrando mulher.

Praça da Estação
22h54

Samuel ouve o choro constante de uma criança dentro do cercado. Não sabe por que está tão irritado agora e por que essa irritação cresce com aquele choro. O pai do menino o acalma com um tapa.

Samuel vai ao bar, compra um litro de leite, pão, biscoitos, volta depressa ao cercado, chama o pai, a criança, a mãe, dá-lhes tudo. Outros precisavam, pedem — pelo amor do Santíssimo, meu senhorzinho — ele volta, compra mais, dá; as pessoas que olhavam imitam Samuel, alegremente descobrindo para que estavam ali; o homem do bar se espanta satisfeito com aquele movimento inesperado; uma revolta cristã e irmanada que ninguém pode impedir, todos despertos naquele apressado fazer o bem, solidários, quem dá aos pobres empresta a Deus; Fé, Esperança e Caridade; Deus te dê em dobro tudo o que me desejares.

(Anotação do escritor: Atravessamos o cordão de isolamento. A polícia nem ligou porque Pena Forte e Valdiki estavam dando show de bicha e parecia que aquele bando de veados não ia atrapalhar nada. Fomos falar com o líder dos retirantes, Marcionílio. Para nós era folclore, um programa nessa cidade de merda, porque o homem tinha o encanto de ter sido cangaceiro. Marcionílio estava sendo entrevistado pelo Samuel Fereszin, do Correio, conhecido nosso.

Ouvimos falar da fome (“Meu pai contou que na grande seca de 87 foram mortos dois bandidos assaltantes e comidos pelo povo em Jacaré dos Homens.”),

da felicidade (“Aquela dona que ali está, dona Lália, está aliviada porque vendeu a filha de 14 anos, nessa viagem mesmo, a um fazendeiro do Sul da Bahia. A filha agora tem onde comer e dormir, melhor do que nós.”),

de revolta (“Quando o vento sopra, o capim abaixa; quando o capim pega fogo, queima a mata toda.”),

do latifúndio (“Lá? Terra tem muita, dono mesmo tem pouco. Quando ele vê que a chuva não vem, que não vai ter colheita, manda todo empregado embora. E ele tá errado? Tá certo. Errado é ele ser dono de tanta terra.”),

de religião (“Deus? Eu nunca ouvi falar de coisa boa que ele fez, garantido que foi ele, a não ser muito antigamente.”),

de coragem (“Estou com muito medo, mas se não tiver outro jeito eu misturo com um pouco de coragem.”),
da morte (“Tem gente que morre menos e gente que morre mais. Quem morre mais, desaparece; quem morre menos, fica exemplo.”).

Dentro de um táxi
0h03

tanto de saber o que fazer ah mas não sei jorge se estou certa tentando fazer você ficar menos egoísta menos voltado para si mesmo gostar um pouco mais dos outros de mim do que de você mesmo ver se você ainda tem jeito salvação porque eu já estou me cansando e o pessoal só te aceita por minha causa não sei até quando quanto vou aguentar já ando cansada de

(Anotação do escritor:

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Um desperdício deixar passar este momento sem tentar captar o sentido dele, ao menos um esboço que mostre a alguém: era assim, naquele tempo. Era assim que as pessoas se destruíam, que as consciências aceitavam, que os homens se diluíam entre o medo e o dever, que os escritores procuravam esquecer ou não conseguiriam escrever nada. Sim, eu creio que é isso e que é uma luz e que estou certo. Algumas das minhas histórias podem esperar uma década para serem escritas.)

Tópicos relacionados:

crianca filho livro

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay