ARTES VISUAIS

Nuno Ramos questiona conduta da esquerda na exposição "Jolly chimp"

Criada para a galeria do Centro Cultural Unimed-BH Minas, mostra que une filmes de Glauber e réplicas de macaquinhos mecânicos será aberta nesta terça (20/10)

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Lançados com três anos de diferença, “Deus e o diabo na terra do sol” (1964) e “Terra em transe” (1967), obras-primas de Glauber Rocha (1939-1981), estão na base da nova exposição de Nuno Ramos. Com abertura para o público nesta terça-feira (20/10), na galeria do Centro Cultural Unimed-BH, a instalação “Jolly Chimp” busca refletir o momento em que vivemos.

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Em prateleiras que ocupam o espaço expositivo, o visitante vai encontrar um macaquinho (o chamado Jolly Chimp, clássico brinquedo mecânico que, quando acionado, bate pratos repetidamente) entre dois monitores de vídeo. Cada um exibe um trecho dos filmes de Glauber. São 18 prateleiras – então, 18 macaquinhos e 36 monitores.


“Os dois filmes têm uma frase em comum: ‘A culpa não é do povo’”, comenta o artista paulistano. Em “Deus e o diabo”, ela é dita pelo Cego Júlio, o narrador (Roque Santos), para Antônio das Mortes, o matador (Maurício do Valle). Já em “Terra em frase” a mesma frase sai da boca da revolucionária Sara (Glauce Rocha) em conversa com o cínico jornalista Paulo Martins (Jardel Filho).


O primeiro longa, lançado na época do golpe militar, tem um sentido mais libertário, pois trata da luta social e política do povo oprimido do sertão nordestino. Já o segundo filme foi como uma resposta diante da derrocada da esquerda e o avanço do autoritarismo no Brasil.


Cada frase dura, em looping, nove segundos. Nuno criou um mecanismo que faz com que cada macaquinho toque os pratos durante o mesmo período de tempo. Bem alto, vale dizer. “É uma espécie de orquestração. Às vezes, é só um; às vezes, dois; às vezes, todos juntos. Ainda mais nesse momento que vivemos, se torna ensurdecedor. Acho que é também um trabalho muito crítico com a esquerda. Onde está o povo? Onde é que foi parar o projeto? Como a gente se separou tanto dele?”, questiona o artista.


“TRABALHO ESQUISITO”

A instalação foi criada já pensando na galeria. A sequência orquestrada por Nuno dura 20 minutos – ficará ligada sempre que houver visitantes no espaço. “Pensei na sala, toda branca, de teto baixo, que tem um quê de laboratório. Então ficou um trabalho muito esquisito”, comenta Nuno, que vê um “signo um pouco maligno” no macaquinho.


“O cego está dizendo para o matador não matar o povo, porque a culpa não é dele. O macaco parece que está numa posição sardônica, algo como ‘quem acredita nisso’?”


A exposição mais recente do artista em BH foi “Los pasos perdidos”. Realizada no primeiro semestre de 2025 na Albuquerque Contemporânea, a mostra reuniu sete pinturas, desenhos e instalações que refletiam sobre apagamento e memória.


Para realizar o trabalho atual, Nuno importou um exemplar do brinquedo musical. Os demais foram reproduzidos em Belo Horizonte. Sobre inaugurar justamente agora a instalação, ele comenta: “Adiamos um pouco (a mostra) e ela foi parar no momento entre os dois turnos (da eleição), onde está essa loucura. Acho bem interessante para sentir um trabalho que não é simples de interpretar. Ele é até um pouco sem horizonte, crítico com essa época”, diz.


“JOLLY CHIMP”
Exposição de Nuno Ramos na galeria do Centro Cultural Unimed-BH Minas, Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Visitação a partir desta terça (20/10). Terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h. Entrada franca. Até 3 de janeiro

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