Peça 'O belo indiferente' revela a violência do silêncio masculino
Baseada em texto de Jean Cocteau, montagem faz curta temporada no Teatro Marília e marca a despedida de Joselma Luchini dos palcos
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O poeta e romancista francês Jean Cocteau (1889-1963) escreveu a peça “Le bel indifférent” para ser estrelada por sua grande amiga Edith Piaf (1915-1963). Em 1940, a cantora estreou no Théâtre des Bouffes-Parisiens. Anos depois, a atriz mineira Joselma Luchini encontrou o texto e, encantada, produziu o monólogo “O belo indiferente”, baseado na obra de Cocteau. Dirigida por Jair Raso, ela se apresenta desta sexta-feira a domingo (9 a 11/10), no Teatro Marília, ao lado de Vinícius Di Castro.
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Enquanto espera o marido, a protagonista reflete sobre os dois. Na montagem mineira, a narrativa ganha nuances atuais: relacionamento abusivo, violência psicológica e indiferença como uma forma de manipulação.
A figura masculina não tem falas, mas sua presença em cena é marcante. “Violência se dá com o silêncio, com a falta de comunicação. É tão atual, incrível isso. Como pode um texto de 1940 ser tão atual?”, diz Joselma Luchini.
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No final da peça, o diretor Jair Raso propõe bate-papo à plateia. As mulheres se identificam com a trama, comentam sobre violências sofridas por elas ou suas mães, conta Joselma. E destaca a importância da trama, apesar das dificuldades para manter uma peça, com falta de financiamento e de público.
“Esta roupagem moderna é muito valiosa. Sabemos que as pessoas gostam mais de comédias e de se divertir, mas vale a pena fazer o ‘Belo indiferente’. É importante para as mulheres. Este é o valor e uma das funções do teatro: mostrar, deixar as pessoas sentirem, se envolverem, pensarem sobre a vida e caminhos a seguir”, afirma.
Maria da Penha
Neste 2026, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos, o cenário é preocupante no Brasil. De janeiro a julho, 848 mulheres foram vítimas de feminicídio, de acordo com o governo federal. Embora mulheres tenham sido eleitas no último domingo, há parlamentares propagando o antifeminismo. Nesse contexto, Joselma quer levar o espetáculo para além dos palcos, com sessões para educadoras, por exemplo.
“Onde podemos montar tudo maravilhoso, como no Teatro Marília, nós montamos. Onde não dá, levamos somente o texto, que já é suficiente para envolver a plateia. Faz parte do teatro estar pronto para qualquer ambiente, ir aonde o povo está”, afirma a atriz. Ela conta que fez contato com deputadas defensoras dos direitos das mulheres para levar sua peça até comunidades.
O cenário da montagem, criado pelo diretor, retrata a violência. Panos presos por correntes e desenhos de rinocerontes aprisionados estão ao fundo do palco. Joselma diz que isso representa a linha tênue entre civilização e animalidade do ser humano.
“Qualquer coisa pode fazer a gente virar um bicho tão feroz quanto o rinoceronte. Jair buscou muito falar sobre o homem, sobre o que diferencia a gente dos animais”, afirma.
A temporada se encerra no domingo (11/10), quando se completam 63 anos da morte de Jean Cocteau. Edith Piaf morreu um dia antes, em 10 de outubro de 1963. Há quem acredite que o poeta se foi após saber do falecimento da amiga.
“Ele teve uma inspiração maravilhosa escrevendo o texto para Edith Piaf. A cantora tinha mania de pedir que fizessem músicas para ela. Mas Cocteau disse: ‘Música não, vou te dar um texto’. Então, fez este espetáculo, que ela apresentou como atriz em 1940”, explica.
Encerramento
O dia 11 de outubro ainda ganha mais um significado, pois Joselma Luchini pretende encerrar sua carreira no teatro neste final de semana.
“Dei a minha contribuição. Escrevi peças, já trabalhei com teatro infantil, trabalho com teatro há 48 anos. É muito tempo, está na hora. Se encerrar minha carreira no domingo, vai ser um encerramento bonito”, afirma.
“O BELO INDIFERENTE”
Peça de Jean Cocteau, adaptada e dirigida por Jair Raso. Com Joselma Luchini e Vinícius Di Castro. Nesta sexta e sábado (9 e 10/10), às 20h; domingo (11/10), às 19h. Teatro Marília (Avenida Prof. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia). Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia), à venda na plataforma Sympla e na bilheteria.
OUTRAS ATRAÇÕES
>>> FESTIVAL DE PRIMAVERA
Sábado (10/10), a Praça da Filarmônica (Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto) recebe a segunda edição do Festival de Primavera, das 12h às 19h. O evento gratuito reúne gastronomia e música, com apresentações do violinista Damian Zantedeschi e da banda de sopro Charanga Pop. Barracas oferecerão vinhos, sushis, pães, queijos, flores, bebidas não alcoólicas, drinques e cervejas artesanais.
>>> FARTURA BH
Com a temática “Volta às origens: comidas do Brasil”, o Festival Fartura BH vai tomar conta da Praça José Mendes Júnior, ao lado do Palácio da Liberdade, neste sábado (10/10), das 12h às 22h, e domingo (11/10), das 10h às 20h. Cada uma das cinco regiões brasileiras estará representada por um chef, um produtor e manifestação artística. O público encontrará pratos dos restaurantes Maturi, Bitaca do Norte, Sea Restaurant, Carimbó, Maria do Didi, Trintaeum, Bar Padrin e Soberana Gourmet, além da Márcio Brito Confeitaria e Alento Sorvetes Artesanais. Entrada franca.
* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria
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