Slayer: o impacto e o legado dos 40 anos de ‘Reign in blood’
Músicos mineiros exaltam a influência do terceiro disco dabanda norte-americana de thrash para a história do metal
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Os menos de 30 minutos encapsulados nas dez faixas de "Reign in blood" completam exatos 40 anos nesta quarta-feira (7/10). Terceiro disco de estúdio do Slayer e primeiro da banda norte-americana a chegar ao chart US Billboard 200 (na 94ª posição), o rebento atravessou quatro décadas influenciando gerações do metal, incluindo em Minas Gerais.
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Que o diga Daniel Tulher, de 31 anos. Baixista e vocalista do Payback, banda de thrash metal surgida no início da década passada, ele conta que a agressividade sonora do disco gravado por Tom Araya (baixo e vocal), Kerry King (guitarra), Jeff Hanneman (guitarra) e Dave Lombardo (bateria) e produzido por Rick Rubin (e pelos quatro integrantes) sempre o inspirou durante o processo de composição de suas canções.
"A 'Angel of death' foi a que mais me marcou e mais me moldou como músico. Principalmente naquele breakdown (se referindo à mudança de andamento da faixa, que se torna mais cadenciada no minuto 1:38); pega todo mundo de surpresa", diz. "Fui arrebatado. Até hoje, boa parte do que faço tem influência do Slayer e dessa música. Aquilo moldou o thrash. Nunca mais o metal foi o mesmo depois do riff dessa música."
Vocalista e compositor do Drowned, banda de death/thrash metal nascida no fim dos anos 1990, Fernando Lima, de 50 anos, também enfatiza o impacto que "Reign in blood" teve em sua vida e em sua carreira.
"Meu primeiro contato com esse disco foi na casa de amigos, em 1987 ou 1988. Ouvi o álbum e pirei; gravei em uma fita k7 e a escutei até estourar. Depois comprei o vinil. Um discaço, sempre o escuto", relata o cantor. "É um trabalho intenso, agressivo, porrada; não abaixa a guarda nem um minuto. As bandas de thrash e death sempre beberam da fonte do estilão do Slayer", arremata.
Já a baixista do grupo de death metal Divine Death (nascido em 1990) e de thrash/death Sübversa (2026), Mallu Handrady, de 50 anos, afirma ter sofrido um "choque imediato" quando ouviu pela primeira vez aquela bolacha "rápida e brutal". "Eu estava iniciando na guitarra, já com pretensão de tocar em banda de metal extremo, e 'Reign in blood' foi de extrema importância, uma grande inspiração para que eu pudesse ter confiança e estar pronta para enfrentar qualquer desafio no metal extremo."
Lançamento no Brasil
Vocalista e compositor do The Mist e ex-integrante do Chakal, ambos os grupos criados a partir da década de 1980, Vladimir Korg, de 63 anos, se lembra bem quando segurou uma cópia do LP. "Eu trabalhava na Cogumelo na época. O disco vendeu uma quantidade absurda", recorda ele, ex-vendedor na loja pertencente à gravadora que lançou ao mundo os primeiros trabalhos de Sepultura, Overdose e Sarcófago, dentre outras bandas.
Korg aponta uma particularidade da edição nacional do disco nos anos 1980. "Esse álbum saiu com uma capa muito contrastada, uma impressão meio ruim e papel de baixa qualidade; o vinil é mais fino do que o de outros", conta. O motivo, ressalta, era a crise do petróleo vivida pelo país naquela década.
O invólucro do álbum também detinha suas imperfeições. "O papel (da capa) é branco (visto na parte de dentro), sendo que a maioria (dos discos) tem textura de papelão. Mas esse não. É fino", comenta, segurando uma cópia da época. "A capa estraga muito rapidamente nas bordas, por causa da baixa qualidade do material."
Legado
Antes de "Reign in blood", o Slayer havia lançado "Show no mercy" (1983) e "Hell awaits" (1985), o EP "Haunting the chapel" (1984) e o ao vivo "Live undead" (que na verdade foi gravado em um estúdio diante de algumas pessoas), todos pela Metal Blade. Depois, o grupo assinou com a Def Jam, gravadora reconhecida por artistas de rap.
Após o disco de 1986, a banda lançou mais oito de estúdio, o último deles em 2015, "Repentless". Além do peso sonoro e da intensidade dos vocais de Araya, a banda norte-americana se notabilizou por letras que abordam temas como morte, religião, nazismo, guerras e a maldade do ser humano sob várias nuances.
"O maior legado do Slayer é o fato de ser uma banda maldita. Desde o primeiro disco, 'Show no mercy', já tinha essa veia maldita. Uma banda de heavy metal 'meio ogro'. Sempre teve essa integridade artística e essa identidade que a ajudaram a moldar o metal extremo. Por isso, até hoje, é tão influente para músicos do estilo", destaca Daniel Tulher.
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Mallu corrobora a opinião. “O Slayer colocou o thrash em evidência, com as transgressões musicais, e disseminou a agressividade nas composições, com letras brutais. O maior legado foi abrir as portas para o thrash metal a nível mundial. Consequentemente, estilos como death e black metal foram diretamente influenciados pelo som do Slayer.”
Korg, por sua vez, traça um paralelo com outros gigantes contemporâneos do gênero. "O legado que o Slayer deixa é o de construir uma linguagem diferente das outras bandas, seu próprio caminho. O Anthrax fazia uma música mais para cima para a galera agitar; o Metallica, um som com letras mais psicológicas, algo mais denso, até o 'Black album' (1991); e o Slayer é a pura maldade, sempre falou sobre o mal."
Celebração em São Paulo
Após encerrar suas atividades em novembro de 2019, o Slayer anunciou seu retorno aos palcos em fevereiro de 2024. Neste ano, tem executado na íntegra as dez faixas de "Reign in blood". Uma das apresentações da turnê de celebração das quatro décadas do álbum será em 17 de dezembro, no Nubank Parque (Allianz Parque), em São Paulo.
Atualmente, o quarteto é formado por Araya, King, Gary Holt (guitarra e líder da banda americana Exodus) e Paul Bostaph (bateria). Hanneman faleceu em 2013, e Lombardo deixou a banda no mesmo ano (ele havia retornado em 2001).
O show na capital paulista mobiliza fãs mineiros. Promotor de eventos, Leonardo Bridges, de 45 anos, possui uma agência de turismo há 22, a Leo Bleo Produções, e realizará uma excursão na mesma data. "Expectativa imensa; trata-se de um séquito de fãs da banda muito fanáticos. Quando anunciaram o show, foi uma histeria total na internet", afirma.
Leonardo, aliás, é fã inveterado de metal, colecionador de discos e mal vê a hora de assistir ao show, que terá a abertura dos alemães do Kreator e dos paulistas do Korzus.
"A primeira vez que ouvi Slayer foi no 'Fúria MTV', apresentado pelo Gastão (Moreira)," quando passavam clipes do Slayer. Corri atrás de todos os discos", conta. "Se tivesse que sintetizar o thrash metal em um disco é o 'Reign in blood'", completa.
'REIGN IN BLOOD'
Músicas
'Angel of Death'
'Piece by Piece'
'Necrophobic'
'Altar of Sacrifice'
'Jesus Saves'
'Criminally Insane'
'Reborn'
'Epidemic'
'Postmortem'
'Raining Blood'
Formação
Tom Araya - vocais e baixo
Kerry King – guitarra
Jeff Hanneman – guitarra
Dave Lombardo – bateria
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*Em 2004, a banda lançou o DVD ao vivo "Still reigning", que traz em seu setlist o disco "Reign in blood" executado na íntegra, além de outras seis músicas da história do Slayer.