A jornalista Helena Ferraz leva uma vida minimamente confortável. Trabalha em um dos jornais de maior audiência do Rio de Janeiro dos anos 1970, escrevendo crônicas policiais, assunto que mais lhe agrada, diga-se, e acumula um séquito de leitores. Mas, partir do momento em que sofre uma tentativa de estupro pelo chefe, sua vida muda completamente.



Esse é o ponto de partida de “Pele de rinoceronte”, estreia de Marcello Ludwig Maia na direção. O filme, que deve chegar ao circuito comercial em março do ano que vem, foi exibido na noite desta quarta-feira (23/9), na CineBH, como parte da programação da Mostra Vertentes. A sessão contou com a presença de Ludwig e de Débora Falabella, que interpreta Helena.


“Pele de rinoceronte” se inspira no caso da socialite mineira Angela Diniz, morta em 1976 pelo então companheiro, Doca Street, que não aceitava o fim do relacionamento e alegou “legítima defesa da honra”.


O longa de Ludwig, no entanto, não se propõe a recontar a história da socialite. A trama acompanha Helena que, ao descobrir que uma mulher foi assassinada pelo companheiro na fictícia Ponta das Pedras, viaja até a cidade para cobrir o caso e o julgamento que está por vir. A viagem, aliás, chega em momento propício, já que ela não suporta mais conviver com o chefe abusador.



Helena começa a investigar o crime para tentar entender as motivações do assassino. Em suas crônicas, procura encontrar na vítima alguma responsabilidade pelo que aconteceu. No entanto, à medida que avança nas investigações, passa a se identificar com a mulher morta.


Paralelamente, a trama acompanha o casal Gregório (Irandhir Santos) e Maria Thereza (Naruna Costa). Os dois são responsáveis por conduzir a acusação no julgamento, enfrentando a tese do réu de “legítima defesa da honra”.


Referência familiar


“Eu sou de uma família de advogados. Minha tia foi casada com o advogado que preparou a acusação do Doca Street no julgamento que o condenou. Então, como eu morava com os meus avós, acompanhei de perto as discussões sobre esse caso”, lembra Ludwig. “Sempre quis colocar isso num filme, porque voltar a este período é muito importante. Foi um momento histórico no Brasil, não só pela força que ganhou o movimento feminista a partir desse julgamento, como pelo início do conceito de feminicídio no país”, acrescenta.


Para não se limitar ao olhar masculino sobre a violência de gênero, o diretor recorreu a uma equipe feminina para auxiliar no roteiro e na rodagem do filme. Também colocou as mulheres em posições de protagonismo. Além de Helena, personagem central da trama, é Maria Thereza quem sustenta a tese de crime de ódio contra a mulher. As testemunhas ouvidas são todas mulheres, assim como o braço direito de Helena no jornal onde trabalha.



“No caso da Helena, é uma personagem que tem uma condução muito interessante”, diz Falabella. “Ela vai mudando o próprio ponto de vista em relação ao caso que está cobrindo a partir da própria história. Primeiro, vemos uma mulher acostumada a lidar com assassinatos daquele tipo e que escreve, inclusive, de maneira acusatória contra a vítima. Mas, a partir do momento em que ela sofre uma violência e começa a se enxergar no caso, começa a se dar conta da sua própria condição de mulher”, ressalta a atriz.


Violência de gênero


Violência de gênero e condição da mulher na sociedade, aliás, são temas caros a Falabella. Há sete anos, ela aborda a temática no teatro. Primeiro, com a peça “Neste mundo louco, nesta noite brilhante”, sobre uma mulher violentada enquanto trabalhava; depois, com “Prima facie”, monólogo com o qual ainda está em cartaz pelo Brasil e em que interpreta uma advogada que defende homens acusados de abuso sexual.



“A gente precisa seguir falando sobre isso, porque estamos vivendo um momento absurdo. Ano passado, o Brasil registrou um dos maiores índices de feminicídios”, diz, citando o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontou média de quatro mulheres assassinadas por dia no país em 2025.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


“Pele de rinoceronte” não se limita à denúncia do machismo brasileiro. É também uma exaltação das mulheres. E é justamente nesse ponto que o roteiro escorrega. Ao tentar explicitar demais sua mensagem, recorre a falas didáticas que quebram o ritmo e, em alguns momentos, aproximam o filme do panfletarismo. São tropeços pontuais, contudo, que não chegam a comprometer a obra como um todo.


compartilhe