"Precisamos falar" lança foco em debate social sobre violência e privilégio
Com trama sobre jovens ricos que cometem um assassinato de uma pessoa vulnerável, longa de Rebeca Diniz e Pedro Waddington estreia nesta quinta (24/9)
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“Precisamos falar”, filme nacional que chega nesta quinta (24/9) aos cinemas, é uma adaptação do bestseller holandês “O jantar” (2009, publicado no Brasil pela Intrínseca), de Herman Koch. O romance nasceu de um fato. Em 2005, em Barcelona, Rosario Endrinal, de 51 anos, foi queimada viva enquanto dormia dentro de um caixa eletrônico. O crime foi cometido por três jovens, um deles menor de idade.
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A ficção brasileira tem o mesmo ponto de partida. No Rio de Janeiro, uma imigrante latina que dormia em um caixa eletrônico foi queimada por dois garotos. O algoz filmou tudo. Um terceiro adolescente não teve participação. Em um jantar, os pais dos garotos vão discutir o que será feito. Entregam os filhos para a polícia ou escondem o que ocorreu?
Marjorie Estiano (Sandra) e Alexandre Nero (Paulo) vivem o primeiro casal, ele um professor reacionário afastado da universidade depois de um imbróglio com uma aluna. Já Emílio de Mello interpreta Celso, político de ideias progressistas que lidera as pesquisas para o governo do Rio de Janeiro. Ele é casado com Anna (Hermila Guedes), mulher de família rica. Paulo e Celso são irmãos, e nunca se entenderam.
A tragédia espanhola, vale lembrar, infelizmente não é um caso único. A referência imediata que “Precisamos falar” nos traz é a da morte de Galdino Jesus dos Santos, aos 44 anos, em Brasília, em 1997. O líder indígena também foi queimado vivo por jovens (cinco, um deles menor) enquanto dormia na rua. Em 2025, um adolescente de 17 anos ateou fogo em um homem em situação de rua em Jacarepaguá, no Rio. Transmitiu tudo pela internet. Ludierley Satyro José, de 46 anos, sofreu queimaduras graves, mas sobreviveu.
“Precisamos falar” marca a estreia de Rebeca Diniz e Pedro Waddington na direção de longas (a dupla vem das séries “Sob pressão” e “Emergência 53”). Esta é a quinta adaptação da obra de Koch. Estados Unidos, Holanda, Itália e Coreia do Sul já contaram essa história. À exceção do longa coreano, de 2023, os demais foram realizados na década passada.
INTERNET
“O romance é muito sob o ponto de vista dos pais. A presença dos jovens não era tão importante. E o filme traz muito do contato dos jovens com a internet. Em nenhuma das adaptações houve essa mudança de ambiente”, afirma Pedro.
A presença dos três garotos é um acerto no roteiro de Sergio Goldenberg. Projeto da Conspiração, “Precisamos falar” foi produzido por Andrucha Waddington (pai de Pedro) e Leonardo M. Barros. “O projeto chegou para a gente com um caminho construído. Começamos a trabalhar diretamente com o Sergio para torná-lo um pouco mais autoral”, comenta Rebeca.
Na trama, Michel (Thiago Voltolini), filho único de Sandra e Paulo, é um jovem mimado, inconsequente e preconceituoso – há traços de sociopatia. O próprio título do longa traz à lembrança o filme “Precisamos falar sobre o Kevin” (2011). Tão impactante quanto terrível, o drama estrelado por Tilda Swinton acompanha uma mãe que tenta sobreviver à culpa depois que seu filho comete um massacre.
Carismático e envolvente (e não tão Kevin assim), Michel influencia muito as decisões de Rick (Guilherme Cabral), o filho do meio de Celso e Anna. O irmão mais velho de Rick é Jefferson (Cauê Campos), negro, que foi adotado ainda bebê. O crime é cometido por Michel, que filma tudo, com a colaboração de Rick. Jefferson, que nunca se deu bem com o primo, assistiu de longe, sem nada poder fazer.
Filmado quase totalmente com uma câmera na mão, “Precisamos falar” foi realizado em duas locações – as residências das duas famílias – e algumas externas. A tensão é mantida o tempo inteiro. Chama a atenção também a interpretação dos atores, com o trio de jovens em pé de igualdade com os veteranos.
RELAÇÕES FAMILIARES
“Sem o Michel não tem filme, né? Então a gente teve algumas sessões de casting para chegar ao Thiago. Houve um trabalho de preparação com a Helena Varvaki, especialmente com os jovens. Depois, Pedro e eu seguimos com um trabalho de leitura e aprofundamento das relações familiares. Quando chegamos ao set, as relações já estavam bem definidas entre eles”, diz Rebeca.
Quando ela e Pedro foram chamados para o projeto, a ideia era que eles dirigissem o filme seguindo o modelo de uma série – cada qual responsável por um set diferente, para agilizar o processo.
“Como era nossa primeira direção, e também por termos pouco tempo de pré-produção e de filmagem, achamos que haveria uma chance muito grande de fazermos filmes diferentes. Optamos por dividir o set o tempo inteiro. Como são duas pessoas pensando, tende a demorar mais, pois há mais espaço para discussões. Mas hoje não consigo vê-lo como um filme com duas direções”, comenta Pedro.
A partir do drama central, a história traz para a cena questões que estão na ordem do dia dos brasileiros há mais de uma década: polarização, privilégio, racismo, banalização da violência. “Acho que tudo isso serve como pano de fundo, mostra o cinema investigando questões sociais”, diz Rebeca. “Mas o que mais interessa na história é a capacidade de os personagens mudarem de opinião diante do fato principal, que é o crime cometido pelos filhos das duas famílias”, afirma Pedro.
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“PRECISAMOS FALAR”
(Brasil, 2024, 101 min.) – De Rebeca Diniz e Pedro Waddington, com Alexandre Nero, Marjorie Estiano, Hermila Guedes e Emílio de Mello. Estreia nesta quinta (24/9), nos cines Belas Artes (Sala 2, 18h30); Cidade (Sala 3, 16h20); Cidade (Sala 6, 13h); Pátio (Sala 4, 16h25, 21h20) e Ponteio (Sala 2, 14h10, 16h20, 18h30).