CINEMA

Estreia "NAZA", que expõe estratégia de Israel para ataques em Gaza

Filme dirigido dos israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham aponta uso de espionagem via IA para realizar ataques, com vítimas colaterais previamente conhecidas

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Com suas próprias palavras, membros das forças israelenses descrevem no documentário “NAZA”, que estreia nesta quinta-feira (1º/10) em Belo Horizonte, como realizavam massacres em Gaza, a partir de dispositivos criados com inteligência artificial.

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Os jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor -– dois dos quatro autores do documentário “Sem chão” (2024), ganhador do Oscar – falaram com 24 membros do exército e dos serviços de inteligência de seu país, que aceitaram depor diante das câmeras em Tel Aviv, mas preservando o anonimato na montagem do filme.

“Deixamos que os soldados e os oficiais falassem sobre o que fizeram”, disse Abraham.”O objetivo era muito simples: queríamos ouvir, com o máximo de detalhes possível, como eram os sistemas para matar em Gaza, como funcionavam”, acrescentou.

Homens e mulheres das forças israelenses explicam, no documentário, como criaram e utilizaram sistemas com inteligência artificial que, a partir da rede de telecomunicações de Gaza controlada por Israel, identificavam pessoas que depois se tornariam alvo de bombardeios.

“No filme mostramos como podem usar um programa espião para abrir os telefones das pessoas no prédio e escutar o que realmente está acontecendo: os últimos momentos das crianças, das mulheres, dos homens que vão ser bombardeados”, explica Szor.

Como relatam os próprios testemunhos, para cada alvo que querem eliminar, várias vítimas colaterais, até centenas, vão morrer no mesmo ataque.


TÍTULO

O título do filme, “NAZA”, faz referência justamente ao eufemismo usado pelos serviços de inteligência israelenses para designar os civis que provavelmente morrerão no bombardeio.

“A vigilância em massa está diretamente ligada aos massacres em massa e, além disso, permitiu criar uma série de justificativas para essas matanças”, afirma Abraham. A guerra empreendida por Israel em Gaza causou mais de 73,5 mil mortos e 174,5 mil feridos do lado palestino, desde outubro de 2023, segundo o Ministério da Saúde do enclave, dirigido pelo Hamas, cujos dados são considerados confiáveis pela ONU.

O conflito foi desencadeado após o ataque perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro daquele ano contra Israel, que deixou mais de 1,2 mil mortos, em sua maioria civis, segundo um balanço da agência France Presse.

Os depoimentos em “NAZA”, a partir de entrevistas realizadas em terraços de Tel Aviv, durante a noite, são fruto de anos de trabalho de investigação para poder criar uma possível relação de confiança.


REAÇÃO

O documentário estreou no mês passado, no Festival de Veneza, onde foi intensamente aplaudido e recebeu o Prêmio Especial do Júri. Após a repercussão da participação do filme na mostra italiana, o Exército israelense negou categoricamente usar IA para matar civis em Gaza.

O Exército também criticou o uso de depoimentos anônimos no filme, afirmando que as identidades dos denunciantes “não podem ser verificadas”. “Os trechos citados incluem declarações sobre estratégia nacional e militar que estão claramente além do conhecimento de soldados de baixa patente”, acrescentou em um comunicado.

Também em reação ao documentário, o ministro da Cultura israelense, Miki Zohar, pediu uma investigação para identificar as fontes anônimas que acusam o Exército israelense de matar inúmeros civis em Gaza.

Além disso, Zohar pediu que fossem tomadas medidas para revogar a cidadania israelense dos diretores Yuval Abraham e Rachel Szor, acusando-os de “traição ao Estado”.

Em uma mensagem publicada no X, Zohar afirmou ter contatado o Ministério do Interior para discutir a possível revogação da cidadania, acusando ambos os cineastas de “falharem com seu dever de lealdade ao Estado e de colaborarem com o inimigo”. “Também solicitei uma investigação sobre como esses materiais foram obtidos, quem está por trás deles e se as atividades que levaram à sua coleta e publicação poderiam ter ajudado o inimigo em tempos de guerra”, acrescentou.

Os diretores pediram aos distribuidores do filme na Europa que, pouco após sua estreia nos cinemas, disponibilizem o título para acesso gratuito em plataformas, possibilitando sua ampla divulgação.

“NAZA”
(Israel, 2026, 80 min.) Direção: Rachel Szor e Yuval Abraham. O documentário estreia nesta quinta-feira (1º/10), no Cine Belas Artes (Sala 2, 18h40).

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