CINEMA

Tom Cruise é empresário prestes a destruir o mundo em "Digger"

Astro encarna um magnata norte-americano do petróleo cujos negócios ameaçam causar um acidente de proporções globais, no filme de Alejandro G. Iñárritu

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Há tempos, para não dizer décadas, que Tom Cruise é mais celebrado por suas proezas em cenas de ação do que por papéis ousados. “Digger”, que estreia nesta quinta (1º/10), é a nova incursão do último astro do modelo clássico de Hollywood para encarnar um grande personagem. E também outra tentativa de levar um Oscar de Melhor Ator, ao qual foi indicado três vezes – a mais recente, em 2000, como coadjuvante em “Magnólia”.

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Grande vencedor do Oscar deste ano por “Uma batalha após a outra”, Paul Thomas Anderson era um cineasta indie quando dirigiu Cruise como um misógino guru de autoajuda em “Magnólia”. Estava em ascensão, assim como Alejandro G. Iñárritu, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2001 por seu longa de estreia, “Amores brutos”. Roteirista, diretor e produtor de “Digger”, o mexicano já tem quatro estatuetas: três por “Birdman” (2015) e uma por “O regresso” (2016).

Ainda que a ideia de “Digger” tenha surgido quando Iñárritu finalizava o drama “O regresso”, seu tom está mais próximo da farsa de “Birdman”. Ousado e exagerado em sua ambição (alguns diriam pretensão) de mostrar ao mundo como a humanidade deu muito errado, o filme é dominado por um Cruise como nunca se viu.

Não é só a maquiagem que o transforma em um velhote fanfarrão que se acha (e, de certa forma, é) dono do mundo. Aos 64 anos, o ator está praticamente o tempo todo em cena. Ele se move com uma intensidade extrema, na voz, nos trejeitos, no sotaque, nas caras e bocas. Fica claro que está se deliciando por interpretar um papel que exige muito. É divertido vê-lo em cena numa atuação um tanto estilizada.

Digger Rockwell é um magnata texano do petróleo cujo poder, ele acredita, pode suplantar a própria vida. É o que tenta fazer com sua gata, Maggie, moribunda em seus inacreditáveis 38 anos. Sua manhã de cuidados com a felina é interrompida pela notícia de um desastre de proporções apocalípticas que está se formando em sua plataforma de perfuração no Ártico.


NEGACIONISMO

A negação é a primeira reação de Digger, que não demora a descobrir que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Uma explosão na plataforma provoca o desprendimento de uma geleira. Partindo da Groenlândia, o bloco de gelo está indo em direção à Europa. Ao atingir a costa, ele causará tsunamis, com número incalculável de mortes.


Isto é revelado a Digger com a chegada do Dr. Ganesh (Riz Ahmed, impagável), seu principal cientista. Eles se preparam para avaliar a situação antes da entrada do presidente Compson (John Goodman, rivalizando com Ahmed no posto de melhor coadjuvante do filme). Com seu séquito de fanáticos religiosos e militaristas, ele decide qual será o próximo passo. Não é preciso ir muito longe para pensar que a figura de Donald Trump foi a principal inspiração para o político.

Este é apenas o início de uma trama que tem duas grandes reviravoltas que mudam a maneira como o espectador enxerga a história. O tom de interpretação de Cruise também é outro a cada mudança.
Em coletiva de imprensa virtual realizada na Cidade do México, Cruise e Iñárritu falaram sobre o projeto. O ator afirmou que nunca tinha visto um papel como Digger no cinema. “Poder criar um personagem assim foi realmente fantástico.”

Cruise continuou: “(Iñárritu) Prepara o terreno de um jeito incrível: a encenação, as lentes (o filme foi rodado no formato clássico VistaVision, com uma câmera dos anos 1950 e lentes Leica criadas especialmente para a produção) e a escrita. (Foi um desafio) Conseguir fazer um monólogo de 10 minutos (uma das sequências cruciais da história, com o ator no centro de uma arena de políticos) e encontrar o tom certo para o personagem. Algo que me permitisse transmitir humor e drama, e que tivesse ritmo. Pude testar minhas habilidades, aprender coisas novas e expandir meu repertório.”


“LOUCURA COLETIVA”

A fagulha de “Digger” veio quando o cineasta filmava “O regresso” no Canadá. Como a neve diminuiu muito na região, a equipe se deslocou para o Sul da Argentina para concluir o longa. Foi a partir deste fato, decorrente do aquecimento global, que Iñárritu e Sabina Berman, uma das corroteiristas, atentaram para o que estava ocorrendo no Ártico – não só o derretimento do gelo, como também a exploração petrolífera.

“Foi aí que surgiu a possibilidade de encontrar um personagem que começasse a ignorar os sinais da realidade”, disse o cineasta. Iñárritu não precisou ir longe na ficção. “Sinceramente, basta assistir à TV e ver que esse é o mundo em que vivemos. Acho que o filme capta isso com um tom satírico e absurdo. Podemos nos reconhecer na forma como os personagens se reconhecem. Estamos vivendo uma loucura coletiva com tantas narrativas.”

O cineasta não se furtou a elogiar Cruise. “Alguém que trabalha com os maiores diretores há 46 anos veio com muito entusiasmo e generosidade. Tive a oportunidade de trabalhar com muitos atores excelentes, mas a forma como ele controla o corpo e as emoções… Você trabalha duro para alcançar alguma coisa, mas elas nem sempre acontecem perfeitamente. Essa cena (o monólogo de Cruise) foi como um presente que conquistamos com trabalho árduo, porque milagres só acontecem quando você trabalha por eles”, disse.

“DIGGER”
(EUA/Reino Unido/México, 2026, 128 min.) Direção: Alejandro G. Iñárritu. Com Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman e Sandra Hüller. Estreia nesta quinta (1º/10), em cópias dubladas e legendadas, em salas de todos os complexos da Cineart, Cinemark, Sercla e Cinépolis, no Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed-BH Minas.

“[Foi um desafio] Conseguir fazer um monólogo de 10 minutos e encontrar o tom certo para o personagem. Algo que me permitisse transmitir humor e drama, e que tivesse ritmo. Pude testar minhas habilidades, aprender coisas novas e expandir meu repertório”

Tom Cruise,
Ator

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