Não há como colocar ponto final enquanto se espera. Literalmente, no caso de “Quando” (Record), novo livro de Carla Madeira. Com chegada nesta sexta-feira (14/8) às livrarias, com tiragem inicial de 100 mil exemplares, o quarto romance da escritora mineira é, à sua maneira, uma odisseia. Durante 20 anos, Viridiana aguarda o retorno de Tito.


História gestada a partir do luto vivido pela autora, acompanha um luto em vida, a mãe que aguarda o reencontro com o caçula, a quem denunciou no passado. “Quando” é ambientado em dois momentos: 1986 e duas décadas depois. Não há linearidade, tampouco um único narrador. Recursos de linguagem inéditos na obra de Carla, caso da ausência de ponto final em determinados capítulos, estão presentes.


As múltiplas vozes dão conta da desagregação de uma família de Belo Horizonte. Homofobia é um dos temas da história, assim como violência policial, desamor e depressão. Há uma busca de redenção dos personagens, que, assim como nos romances anteriores da autora, continuam ressoando no leitor finda a leitura.


Carla, que completa 62 anos em 18 de outubro, vendeu, em 2025, a Lápis Raro, agência de publicidade que fundou em 1987 – atualmente integra o conselho da empresa. Depois do sucesso de “Tudo é rio”, “A natureza da mordida” e ”Véspera”, que juntos venderam 1,4 milhão de exemplares, a autora de ficção mais lida do Brasil finalmente se considera escritora.

“Tenho um frio na barriga de falar isso. Acabei de fazer o quarto romance, não sei se vou ser capaz de fazer o quinto. É certo rigor, pois quando você fala que é alguma coisa, significa que domina aquilo. E acho que a escrita é uma coisa indomável”, afirma na entrevista a seguir, concedida de sua casa, em Belo Horizonte.


Estrutura não linear, diferentes narradores, ausência, em alguns momentos, de pontuação. De que maneira você chegou à linguagem de “Quando”?
Quatro anos atrás, eu não queria fazer um livro. Queria pintar, tocar, ter aula, estudar. E ainda tinha a agência. Mas comecei a viver uma sequência de lutos. Perdi minha mãe, meu psicanalista, perdi a Simone (Moreira), minha sócia.

Foi um diagnóstico de câncer de pâncreas, e ela entrou num tratamento extremamente doloroso. Um dia, fui visitá-la e saí tão arrasada que abri o computador e comecei a escrever. Foi um recurso poderoso para me ajudar a atravessar o momento, pois o real estava insuportável.

“Quando” começou de maneira muito caótica, com muitas vozes. Eu não tinha ainda uma história, mas tive a ideia de uma mãe que estava esperando um filho. Eu não sabia o porquê da separação. E aí começou com aquela textura, porque a espera não cessa. Quem está esperando alguma coisa é como um baixo contínuo, não tem pausa. Então eu comecei sem ponto.


A espera de Viridiana é como um luto em vida?
Super, que é uma natureza de luto muito difícil. Quando você tem um luto com a morte, ele é definitivo, não há esperança, não há suspensão de uma situação qualquer. E, no caso da espera em vida, há.


Então sua história começa com ela e Tito.
Eu sabia da consequência, o afastamento. Mas não sabia a causa. O que aconteceu? Por que ela o denunciou? Isso foi chegando à medida que fui escrevendo, ouvindo essas vozes. Dessa criança, o Fran, que tem angústia porque lida com uma atmosfera de adulto, triste, e ninguém explica o que é. Então ele só lida com uma coisa sem palavra, mas que está ali. É uma desconfiança de que tem uma grande tragédia.

A grande questão do livro é o que nós não estamos aprendendo como humanidade. Então, que eu possa olhar para aquela história particular e fazer essa pergunta. Acho que este é o sentimento que tenho em relação ao preconceito, à violência, a todo esse cenário que a gente está vendo no mundo de intolerância, guerra, ódio. Nós não estamos conseguindo aprender enquanto humanidade.


À exceção de Seu Barros, o vizinho, todos os homens do romance são ou violentos, ou preconceituosos, ou estúpidos. Por quê?
Acho que tem uma coisa simbólica nisso, sabe? Talvez seja algo atravessado um pouco por vivências. Olha o que está acontecendo no mundo. Quem são os principais atores do que está acontecendo hoje?


A homofobia é um tema forte. Pela primeira vez, você tem personagens gays, homens e mulheres. Gostaria que você falasse desta escolha.
Acho que todo mundo escreve imerso em um contexto social. As questões que estão ao redor são matéria-prima do que o autor vai imaginar. Tem um pouco a ver com isso e também com uma questão particular.

Tenho uma filha lésbica. Acho que foi natural, mas não tem o sentido de uma causa. Do mesmo jeito que existe personagem hétero, por que não pode existir personagem gay? Essa é uma questão que estava quente dentro de mim assim.


Todos os personagens gays sofrem.
Naquela época (anos 1980) o sofrimento era terrível. Ainda é para muitas pessoas, em muitas famílias. Uma coisa que me interessou muito: como é ter um filho gay? E se forem dois, três? Até onde você vai testar esse preconceito? “Um eu tolero. Dois, três?” Por que isso é um problema? Por que é uma questão? Acho legal a gente começar a se perguntar.


Só descobrimos que o romance é ambientado em Belo Horizonte na metade da narrativa, quando você cita o Centro e, em especial, a loja Discoplay.
Não tem importância, mas é impressionante. Não tem como, eu preciso enxergar (a cidade). Vivi muito isso em “A natureza da mordida”. Até hoje passo no lugar onde acho que é a casa da Biá (a protagonista desse romance).

Como eu sempre fui muito da música, chegava na Discoplay e achava coisas raras, ficava ouvindo. Então me pareceu uma coisa para a Maria (personagem de “Quando”), pois ela tinha fissura com música.

“QUANDO”
• De Carla Madeira
• Record
• 280 páginas
• R$ 69,90 (livro) e R$ 44,90 (e-book)

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