LITERATURA

Carla Madeira vê o lado positivo de ‘quando o autor fracassa numa intenção’

Autora mineira, que lança nesta sexta-feira (14/8) "Quando", seu quarto romance, fala sobre o amadurecimento de sua escrita, críticas e expectativas de leitores

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 Carla Madeira recebeu o Estado de Minas em sua casa, em Belo Horizonte, para a entrevista a seguir em torno de "Quando", seu quarto romance, que chega nesta sexta-feira (14/8) às livrarias. 

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Segundo a Record, seus quatro livros, incluídos audiobooks e e-books, venderam 1.397.000 exemplares. Há anos você carrega o título de escritora de ficção mais lida do Brasil. Sente cobrança diante de números e títulos?
Lógico que fico superfeliz. Tem uma ideia de sucesso que está ligada a desempenho mercadológico. Mas não é a única medida de sucesso. Sucesso, para mim, é perceber que existe amadurecimento como autora.

Hoje me acho uma autora melhor do que quando escrevi “Tudo é rio” (2014). A expectativa das pessoas, enquanto estou escrevendo, fica muito fora do meu radar. Não foi uma coisa com a qual me preocupei enquanto escrevia “Quando”. Como estava em pleno luto, na hora que ia para o livro era um oásis tão forte que fiquei completamente absorvida.

Agora que vai sair, começo a lidar um pouco mais com ansiedade, como vai ser para o leitor. Existe um leitor imaginário quando você está construindo uma dinâmica dentro do livro. Ele tem que ficar de pé, ter clareza, contar uma história, não ser contraditório. Você se preocupa com essa dinâmica pois quer que ele seja lido.

Mas não no sentido “nossa, aquele leitor, se eu fizer isso, não vai gostar”. Estou experimentando uma linguagem completamente diferente. Todo livro meu eu fiz isso, corri um risco. Por quê? Porque é a única possibilidade de eu me interessar pela minha própria obra. Tem que ter algum desafio. E a linguagem é uma das forças que me interessa.

Quando escrevi “Tudo é rio”, “A natureza da mordida” e “Véspera”, era diretora de criação de uma das maiores agências de Minas Gerais. Trabalhava 10, 12 horas por dia. Não tinha nenhum contrato, nada que me fizesse ter que escrever um livro.

Escrevi por diletantismo, gosto, gozo, vontade de me entregar a uma coisa que me envolva. É igual a pintar. Quando escrevi “A natureza da mordida”, fiz 40 quadros. É uma necessidade, meu jeito de estar no mundo.


Você é também a rainha dos clubes de livros. Como se relaciona com esses encontros?
Acho maravilhoso, como autora e leitora. Acabei de participar de um clube do livro, um grupo que se reuniu para ler “Odisseia”. Agora vamos ler “A divina comédia”. Sozinha não teria sido tão incrível. O que acho incrível no clube é ele se tornar uma ocasião de conversar sobre questões que vão muito além do livro.

A minha intenção como autora sempre teve um nível de fracasso. E é nesse fracasso que cabe a subjetividade do leitor. Se eu fosse completamente competente, não existiria espaço para você vir com a sua vivência e entender outra coisa, ampliar, ver outro lado. Eu, que já fui publicitária, tinha como obrigação ser entendida exatamente no que dizia.

Não posso falar que isso aqui é sabão em pó e entender que é leite em pó. Tinha que ser absolutamente precisa. Acho que a riqueza vem do espaço para a subjetividade, que se abre quando o autor fracassa numa intenção, dá espaço para que se compreenda mais do que ele imaginou. Percebo que é nesse lugar que a obra ganha potência de ser conversa.


Suas histórias geram discussões nas redes sociais. Em que medida isto te afeta?
Tenho Instagram, mas não tenho Twitter, TikTok. Uso muito para dizer que vou estar em tal lugar ou vou fazer tal coisa. Raramente respondo os leitores, pois tem muita coisa que quero ler na vida e rede social é um incômodo. Mas quando alguma coisa chega até mim, ou quando estou com a guarda mais baixa e vejo alguma polêmica, alguma coisa que me incomoda… Se eu entrar numa conversa, o negócio rende, não tem condição.

Acho que tem muito autor se explicando, se defendendo. Gente, deixa o leitor entender o que ele quiser. Agora, na hora que você recebe uma crítica, duas coisas são possíveis de acontecer. Uma você fica puto e tem vontade de, sei lá, né? Agora, tem uma outra coisa que pode acontecer. Você acha ruim (a crítica). Aí, de madrugada, você acorda e fala: "É, tem uma coisa ali para eu prestar atenção mesmo.” E aquilo vira alguma coisa que te move.


Em relação a isto, tem algum caso que você poderia contar?
“Tudo é rio”, já falei várias vezes, foi um jorro, tem milhões de frases poéticas. Saí dele para escrever “A natureza da mordida” sem querer escrever nenhuma frase poética. Não queria que nada fosse grifado.

Tem gente que fala que fracassei, mas fui para o livro com essa intenção. Às vezes tem uma crítica ou outra falando: “Acho que tem um excesso ali”. Eu olhei e falei: “Tem mesmo”. Tive uma conversa bonita com o Mia Couto em que perguntei para ele (sobre isto), porque ele também tem essa coisa poética muito forte. Ele falou que aprender a ter certa contenção significa amadurecimento de um autor. Aprender o quanto o não dito pode ser muito mais interessante. É um aprendizado que tive.


Série e filme

Filmada em 2025, a minissérie “Véspera”, adaptação do terceiro romance de Carla Madeira, deverá ser lançada este ano pela HBO Max. Na história, Gabriel Leone e Camila Márdila vivem os protagonistas, ele como os gêmeos Caim e Abel, e ela como Vedina.

O romance conta, no presente, a história de abandono de Augusto, filho de Abel e Vedina, e no passado a história dos dois irmãos de nomes bíblicos.

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Carla Madeira iniciou o projeto como consultora, mas se envolveu bastante com o roteiro e acompanhou as filmagens. Já “Tudo é rio” está sendo adaptado como longa-metragem. A direção será de Júlia Rezende e o roteiro de Gustavo Lipsztein. As filmagens estão previstas para 2027.

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