Novo livro de Ruy Castro conta coisas que só o coração pode entender
'Eu gosto de música' reúne crônicas sobre as grandes paixões do autor: samba, jazz, bossa nova e todas aquelas vozes e instrumentos que moldaram nossos ouvidos
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“Escrever sobre música é a única alternativa para aqueles, como eu, que não são capazes de produzi-la”, afirma Ruy Castro na apresentação, “ou uma espécie de advertência”, de seu mais recente livro. “Eu gosto de música” (Companhia das Letras) é uma coleção de crônicas precisas e preciosas agrupadas em quatro eixos temáticos: samba, carnaval, bossa nova e jazz.
São textos informativos, saborosos e com aquele toque de mordacidade tão característico da prosa de um escritor que se diz “arriscado a morrer de amor pela música, tal a promiscuidade com que circulo por diferentes gêneros musicais”. Seria um óbito até romântico, porém impossível. Ao ser eleito em 2002 para a cadeira nº13 da Academia Brasileira de Letras, Ruy Castro tornou-se imortal.
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Imortais também são os gigantes do século 20 que protagonizam livros anteriores de Ruy Castro e estão nas histórias reunidas em “Eu gosto de música”. Frank Sinatra, de “Saudades do século XX”; Dolores Duran, de “A noite do meu bem”; João Gilberto e Tom Jobim, de “Chega de saudade”. Sim, estão lá.
Mas também aparecem a desconstrução do mito do banquinho da bossa nova, a despedida de Carlos Lyra na Lagoa Rodrigo de Freitas, a observação sobre as “duplas personalidades” de Cauby Peixoto e Billie Holiday, a justificativa para as definições de Orlando Silva como cantor das multidões e do samba-canção como patrimônio cultural brasileiro, a crítica à “dívida impagável” do Brasil com Wilson Baptista, Haroldo Barbosa e outros compositores que mereciam ser mais conhecidos, a rejeição do autor ao saudosismo.
“O passado existe e é fascinante visitá-lo, ainda que para aprender a não repetir nossas besteiras no futuro”, adverte Ruy, a os 78 anos.
“Eu gosto de música” se torna ainda mais notável quando Ruy compartilha lembranças particulares, intransferíveis, quase inenarráveis. Como o acompanhamento involuntário das incessantes estripulias sexuais de Zé Keti, vizinho de cima no Solar da Fossa, casarão colonial em Botafogo, Zona Sul do Rio.
Lá Ruy testemunhou também o início da carreira de uma jovem que usava a voz como extensão do corpo: “Era uma voz da bossa nova, feita para soprar intimidades, etérea na afinação e quase cruel em sua perfeição, como se tivesse vindo ao mundo para cantar as canções que João Gilberto ficaria nos devendo”, narra, ao descrever algumas das marcas registradas de Gal Costa.
Ele lembra ainda a noite de 1967 em que o então jovem e intrépido repórter foi apresentado a um grupo de “homens graves, de terno escuro e sapatos engraxados”: Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Braguinha, Paulo Tapajós, Jacob do Bandolim e Almirante. “Apertei a mão da história da música popular brasileira”, conta.
“Naquele momento, pensei: ‘Nada pode superar esta noite’. Foi há muitos anos, mas eu estava certo. Nada a superou”, escreve.
Da influência do ‘samba blim’ de Orlandivo no ritmo de Jorge Ben Jor ao surpreendente som de um bolero de Rita Lee, Ruy Castro desfia uma série de achados sobre sons e silêncios perdidos, “esculturas de gelo”, como define os shows memoráveis que não foram gravados.
Com “Eu gosto de música”, a gente aprende, lembra, se emociona, sorri. E, claro, termina a leitura com imensa vontade de escutar todos aqueles cantores e instrumentistas que vivem na cabeça, no coração e em outras partes do corpo do mestre das palavras. Leia, a seguir, a entrevista de Ruy Castro ao Estado de Minas.
É mais fácil escrever sobre música do que sobre outros temas? Quanto tempo, em média, levou para escrever cada um dos textos que estão no livro?
Nada é fácil. Tudo exige pesquisa, conhecimento, capricho. Um texto como os de “Eu gosto de música” pode levar dias de trabalho, incluindo escrever de primeira e passar o resto do dia reescrevendo e, nos dias seguintes, rereescrevendo. Já vi muitos músicos tirando e botando as notas numa partitura, inclusive Tom Jobim, Luiz Eça, João Donato. Os lápis não paravam.
Por que a música é a expressão artística brasileira mais conhecida em todo o mundo, muito mais do que cinema, literatura ou artes plásticas?
Cada povo parece mais voltado em certa época para uma especialidade do que para outras, não? Os ingleses nunca foram historicamente fortes em pintura ou música, mas em teatro e literatura. Dizia-se que a diferença entre os franceses e os alemães é que os franceses eram alemães que tinham aprendido a cozinhar. A música brasileira é famosa no mundo por sua riqueza melódica, harmônica, rítmica, e pela força de seus intérpretes. Ninguém sabe o que as letras estão dizendo, mas isso não parece lhes fazer diferença. Já a literatura, o teatro, o cinema exigem que se entenda a língua. Procure em qualquer grande editora estrangeira alguém que saiba ler português e veja se encontra.
Por que define o samba-canção como um patrimônio musical brasileiro? O que o faz de tão diferente e tão expressivo?
Porque se só brasileiro sabia fazer samba, argentino fazer tango e espanhol fazer flamenco, todos os povos sabiam fazer música romântica. E a música romântica brasileira dos anos 40 aos anos 60, ou seja, o samba-canção, era a mais incrível do mundo em melodia, letra e execução, juntamente com a americana. Até o universo temático era parecido: o amor que acabou, o homem que foi embora, a mulher que abandonou. E não havia nada demais nisso, porque só se era possível fazer música romântica com amores fracassados. Hoje, tenho a impressão de que a música romântica de alta qualidade deixou de existir.
Em um dos textos, você afirma que o Brasil deve uma biografia para Haroldo Barbosa, com quem o país tem “dívida impagável”. Com quais outros grandes nomes da música o Brasil também está em dívida? Ainda é possível pagá-la?
Haroldo Barbosa, Francisco Alves, as irmãs Linda e Dircinha Baptista, Lucio Alves, Dick Farney, Zé Kéti, muitos mais. Cada um foi a expressão de um universo. As fontes estão quase todas mortas, mas, atualmente, por meio da internet, pode-se vasculhar arquivos impossíveis até há pouco.
Você volta a afirmar, aos 78 anos, que não acredita em saudosismo, e sim na cultura, investigação, conhecimento. Mesmo assim, se pudesse voltar no tempo e passar uma semana em uma década do século 20 no Brasil, qual escolheria? Por quê?
Para ser sincero, não sinto falta de década nenhuma. Dos anos 1950 para cá, vivi todas elas intensamente, não sinto falta de nada. Além disso, tenho em casa todos os discos, filmes, livros e gibis que me marcaram, ou seja, tenho acesso ao passado a qualquer hora. Mas, se tivesse de escolher, escolheria os anos 30 – do século 21.
“O passado, qualquer passado, só é bom quando visto do futuro”, você afirma, ao lembrar que muitos de seus livros se passam nos chamados “anos dourados”, expressão em que você diz não acreditar. Por que não?
No tempo em que o nosso passado era o presente das pessoas que viviam nele, elas não paravam de reclamar, achavam a vida horrível. Vá aos arquivos e comprove. Se folhear a coleção da revista Manchete dos anos 50, vai descobrir que ninguém achava que aqueles anos eram os anos dourados. E é isso que me fascina mergulhar no passado e investigar se ele era tão dourado quanto o futuro o pintou. E quer saber? Às vezes, era!
Em “Rumo à ilha deserta”, você lista discos de cantores e cantores americanos dos anos 1950 e 1960 que levaria para a sua “ilha”. E quais seriam os 10 discos de cantores e/ou músicos brasileiros que levaria?
Não sei, ainda estou escolhendo. Os discos americanos cabem numa mala. Os brasileiros exigiriam um contêiner.
No último texto do livro, você relembra a resposta que recebeu de Tony Bennett sobre se ele estaria farto de cantar “I left my heart in San Francisco”: “Posso estar farto de respirar?”. E qual a resposta que daria à pergunta: está farto de escrever sobre música ou ainda há mais a escutar, pesquisar, escrever?
Farto, nunca! Eu e Heloisa Seixas criamos séries de programas musicais para a Rádio MEC-FM que ficam no ar o ano inteiro, aos domingos, às 22h, e exigem escutar montes de discos para serem criados. Não é um trabalho, é um privilégio. Já fizemos séries sobre bossa nova, samba-canção, carnaval, Carmen Miranda, divas do jazz, música do cinema, tangos e boleros, e não sei quantos mais. A música é importante até nos momentos de conturbação pessoal, política ou qualquer outra. Tony Bennett tinha razão.
O século 20 nos deu todo aquele jazz, o samba, a bossa nova. E o século 21?
Isso você vai ter de perguntar aos historiadores do século 21.
Das coisas de que você gosta na vida, música é a que gosta mais? Mais do que do Flamengo? O que dá mais prazer: escutar música ou escrever sobre música?
Escutar música ao lado da Heloisa e dos nossos gatos, depois de uma vitória do Flamengo (embora Heloisa seja Fluminense), e falar ou escrever sobre o que se escutou. E, completando, escutar de novo.
DUAS HISTÓRIAS
Leia trechos de "Eu gosto de música"
• "A voz como a extensão do corpo"
Seu nome não era oficialmente Gal – não ainda. Era Maria da Graça ou Gracinha, como a chamavam seus amigos no Solar da Fossa, um casarão colonial em Botafogo, no Rio, com mais de oitenta quartos e cujos inquilinos eram tão jovens, criativos, esperançosos e quase desconhecidos como ela. Caetano, um de seus vizinhos no Solar até pouco antes, se mandara para São Paulo. Mas Paulinho da Viola, Rogério Duarte, Claudio Marzo, Betty Faria, Maria Gladys, o pessoal do Teatro Jovem e muitos outros continuavam ali, a uma ou duas portas um do outro, às vésperas das grandes coisas que iriam lhes acontecer. Eu também.
Era 1967, outubro ou novembro. Recém-chegado ao Solar, eu a via todos os dias no pátio – 22 anos, vestidinho simples e cabelos curtos, sozinha, pensativa, incorpórea. Um ano antes, Caetano gravara um disco, o primeiro dele, "Domingo", em que dividia com ela a capa e vários duetos e lhe reservara faixas para que brilhasse sozinha, como "Avarandado" e "Candeias". A voz que saía do vinil parecia tão imaterial quanto sua dona. Era uma voz da bossa nova, feita para soprar intimidades, etérea na afinação e quase cruel em sua perfeição. Era como se ela tivesse vindo ao mundo para cantar as canções que João Gilberto nos ficaria devendo.
Algumas semanas depois, já estaríamos em 1968 – ano de que ninguém sairia como entrou. Meninos viraram homens, homens viraram meninos. Passeatas, correrias, patas de cavalos, tiros nas avenidas, palavras de ordem e desordem. De repente, nos auditórios, artistas veteranos, de terno da Ducal e vinco impecável, viram se dividindo o palco com gente de camisolão estampado de bananas. Era o tropicalismo.
Não me lembro de Gracinha no Solar em 1968. Se continuou lá, já não era vista flanando pelo jardim em que Caetano mandara plantar "folhas de sonho", como na letra de "Panis et circenses". Ou então fui eu que, aberto às solicitações das ruas, não parei muito por lá para observar. Um dia, naquele ano, alguém ligou um rádio e ouvimos Gracinha cantando "Baby". Cantando bonito. Até que, em 1969, sua voz – subitamente extensão de um corpo, ríspida, descabelada, belos nacos de pele à mostra – anunciou ao mundo: "Meu nome é Gal! Meu nome é Gal!".
E só então descobrimos que Gracinha tinha se despedido do Solar e do mundo, e dera seu lugar a Gal Costa.
• “Um cantor lembra outro”
Acontece com todo mundo. Ao escutar um disco de um cantor, você se lembra de outro, como se o outro tivesse saído do um ou vice-versa. A semelhança não tem a ver com o gênero de música que eles cantam, mas com uma sonoridade em comum ou certo jeito de cantar. Não há nenhum desdouro nisso, e nem se pode renegar uma influência ou descendência ilustre. É possível que essa influência tenha sido até inconsciente. E, claro, pode ser também uma ilusão auditiva do ouvinte.
Quando ouço Elis Regina, lembro-me de Angela Maria, que, por sua vez, me lembra Dalva de Oliveira. Quando ouço João Gilberto, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Roberto Silva, Lucio Alves, Gilberto Alves e Cyro Monteiro, lembro-me do jovem Orlando Silva, o de 1935-42, não o da maturidade. Anitta, Ivete Sangalo, Baby do Brasil, Rita Lee, Ademilde Fonseca, Emilinha Borba, Marlene e Dircinha Baptista, todas me lembram Carmen Miranda – que não me lembra ninguém, porque inventou a si mesma.
Mart'nalia veio de Elza Soares. Gilberto Gil, de Luiz Gonzaga. Jorge Ben Jor, de Orlandivo. Leny Andrade, de Dolores Duran. Wilson Simonal e Claudette Soares, de Johnny Alf. Doris Monteiro, de Lucio Alves. Maysa e Alaíde Costa, de Nora Ney. E Mario Reis veio direto do microfone elétrico, assim como muitos cantores de bossa e "sem voz" surgidos por volta de 1928.
Há também as influências estrangeiras, como a de Billie Holiday sobre Maria Bethânia; de Bing Crosby sobre Dick Farney; de Joe Mooney sobre João Donato; de Blossom Dearie sobre a Rita Lee dos anos 80; e de Nat King Cole sobre Agostinho dos Santos e também sobre João Gilberto. Não, João Gilberto não saiu de Chet Baker. João Gilberto e Chet Baker é que saíram de Nat King Cole e dos incontáveis cantores que Nat influenciou e ensinou a cantar baixinho, sem vibrato, sem firulas.
Não há nenhum segredo nessa história de cantar baixinho. Muita gente passou a cantar assim em toda parte logo depois da Segunda Guerra. E apenas porque, em 1945, os americanos se apropriaram de uma invenção dos derrotados alemães: a fita magnética – muito mais delicada e precisa do que a cera em que até então se gravavam os discos. Ao vencedor, as batatas e, de repente, a tecnologia do inimigo vencido.
(De “Eu gosto de música”, de Ruy Castro, Companhia das Letras, 2026)
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“Eu gosto de música”
• De Ruy Castro
• Companhia das Letras
• 240 páginas
• R$ 79,90