Filme 'Corrida dos bichos', sci-fi distópico brasileiro, estreia no Prime
A luta de classes no Brasil remete a 'Jogos Vorazes' e 'Mad Max', no longa que reúne Fernando Meirelles, Rodrigo Santoro, Anitta e o mineiro Matheus Abreu
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É necessário algum tempo para que o espectador adentre na trama de “Corrida dos bichos”, sci-fi brasileiro que estreia hoje (7/8), no Prime Video. É tudo muito rápido, com diferentes cenários e desfile de personagens interpretados por alguns dos maiores atores/celebridades da atualidade.
Bruno Gagliasso é o vilão, mas Rodrigo Santoro é também mau-caráter de primeira linha. Isis Valverde vive a mulher oprimida, enquanto Grazi Massafera interpreta a alpinista. Seu Jorge está na cadeira de rodas. Ainda tem João Guilherme como um jovem meio esquentado e – surpresa! – Anitta, em sua estreia em longas, como a narradora da tal corrida do título ao filme.
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O longa foi rodado durante oito semanas em 35 sets montados em 18 locações no Rio. É bem ambiciosa a história, com ecos de “Jogos vorazes” e “Mad Max”. O projeto foi elaborado em 2007 pelo roteirista Ernesto Solis. A ideia é que seja uma trilogia, tanto que o filme já termina com gancho para a continuação.
Porém, tudo vai depender da recepção mundo afora de “Corrida dos bichos”, que teria custado US$ 5 milhões (em torno de R$ 25 milhões). Este valor é de 2018, quando a revista Variety anunciou a produção capitaneada pela O2. Na época, o Prime Video não estava no jogo.
Ainda que todo o projeto seja de Ernesto Solis, criador da história com Marco Abujamra, a cola que grudou isso tudo se chama Fernando Meirelles. O cineasta, sócio-fundador da O2, estava produzindo o filme. Como é o primeiro longa dirigido por Solis, que dividiu a função com Rodrigo Pesavento, Meirelles entrou aos 45 do segundo tempo, a dois meses do início das filmagens, como o terceiro diretor.
"Num certo ponto, o Prime (Video) percebeu que o troço era maior do que haviam imaginado inicialmente. Como o Ernesto e o Pesavento não tinham nenhum longa, eles falaram: ‘Não, se não tiver alguém que já fez longa. Você entra, pois precisamos de alguém com experiência.’ Não caí de paraquedas, porque estava acompanhando o filme como produtor, mas nunca pensei em dirigi-lo”, afirma Meirelles.
Fernando Meirelles, o camera man
Com o OK do cineasta, alguns atores, ele admite, também confirmaram participação. “Foi uma experiência boa, pois a responsabilidade criativa é do Ernesto. Funcionei como um diretor apoiado em uma visão que não era a minha. Fiz muita câmera. Nas cenas que não dirigi, eu pegava a câmera. Como comecei a carreira sendo operador de câmera, foi um prazer enorme”, acrescenta Meirelles.
Ainda que amparado no elenco de estrelas, “Corrida dos bichos” é protagonizado por Matheus Abreu. Mineiro de Ouro Branco, 29 anos, nome em ascensão na TV e no cinema, ele é Mano.
Na história, ambientada em um futuro distópico, o Rio de Janeiro tenta sobreviver 45 anos após a Grande Catástrofe. O mar secou, o deserto tomou boa parte do que um dia foi a Cidade Maravilhosa. A miséria domina e a única chance da população paupérrima de ter alguma ascensão é participar da disputa nascida a partir do jogo do bicho.
Naquela competição violenta, mortal na verdade, os corredores (cada um representando um animal) arriscam a vida por um prêmio em dinheiro. Cada um deles tem de oferecer outra pessoa como garantia – quem perde, perde também a “garantia”, que vai virar escravo de algum ricaço. Além do mais, cada corredor é a peça de um jogador, pessoa da elite que dita o caminho que seu “bicho” deve percorrer para chegar à reta final.
Nesse cenário, há um grupo de resistentes, do qual Mano é um dos líderes. Na área favelizada onde moram, o jogo do bicho está banido. Como Dalva (Thainá Duarte), sua única irmã, é colocada como “garantia” de um participante, ele decide entrar no jogo para tentar salvá-la.
Santoro, o gerente da jogatina
Quem comanda o espetáculo é Abu (Santoro), ex-jogador que se tornou o gerente do jogo.
“O que me fascinou foi, através de uma alegoria e com elementos da cultura brasileira, falar de desigualdade social, crise climática e dinâmicas de poder. A história transforma sobrevivência em entretenimento. Tem a coisa da separação de classes, dos muito ricos manipulando o resto, mas, ao mesmo tempo, você está vendo uma corrida com os caras voando de um prédio para outro”, comenta Santoro.
O ator diz que a inspiração de Ernesto Solis para Abu foi Fiodor Pavlovitch, o patriarca de “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski. “É uma figura repugnante, mas igualmente cativante. O Abu é pateticamente vaidoso, adora ser idolatrado.”
Santoro, que há muitos anos queria trabalhar com Meirelles, diz ter encontrado “um diretor que, mesmo com talento, nome e reconhecimento, estava completamente curioso, aberto.” Foi o cineasta, inclusive, que incentivou o ator a improvisar. “Metade do que sai da boca do Abu no filme é improviso”, revela.
Se o gerente do jogo tem um lado solar, apesar das crueldades, Leon, o milionário interpretado por Bruno Gagliasso, é pura maldade. Ele é casado com Nadine (Isis Valverde), relação nitidamente abusiva, ainda mais quando ela se torna a jogadora que comanda Mano.
“O Leon é fruto dessa distopia. Poder, dinheiro e controle são a bússola moral dele”, afirma o ator. “Ele personifica a falta de humanidade que dominou o mundo.”
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“CORRIDA DOS BICHOS”
O filme estreia nesta sexta-feira (7/8), no Prime Video