João Bosco tá pra jogo. E reúne novos e antigos amigos em seu novo disco
Cantor e compositor coloca de escanteio a recente polêmica em torno de 'Gol anulado' e estreia em BH, com ingressos esgotados, a turnê de seus 80 anos
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Oitenta anos, completados em 13 de julho. Um novo álbum, “Amigos novos e antigos”, trabalho revisionista com 17 faixas cuja primeira parte acabou de ser lançada – a segunda está prevista para 25 de setembro. Por fim, a turnê celebratória que estreia hoje (6/8), no Sesc Palladium, dentro do projeto Sesc Mesa Brasil Musical, com ingressos esgotados.
Dono de um dos violões mais inquietos e elaborados da música brasileira, João Bosco nunca ficou no mesmo lugar. Tampouco deu bola para as convenções do mercado. Chegou aos 80, em plena atividade e reconhecimento de seus pares e do público.
Em seu primeiro álbum com duetos, ele se reencontra com velhos companheiros, como César Camargo Mariano, o convidado de “Casa de marimbondo” (da parceria com Aldir Blanc, letrista de cinco das seis faixas que integram a primeira parte do disco). Mas também inaugura parceria com Tiago Iorc, que faz bonito em “Perfeição”, de sotaque bossa-novista (letra do filho Francisco Bosco).
No palco, sempre acompanhado de bambas – Armando Marçal (percussão), Kiko Freitas (bateria), Guto Wirtti (baixo) e Ricardo Silveira (guitarra) –, ele vai contar parte de uma história iniciada oito décadas a partir de Ponte Nova, cidade da Zona da Mata mineira.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, João Bosco fala de passado, presente e futuro. Uma pergunta não foi respondida. Justamente aquela que toca na polêmica, também recente, vinda após a afirmação de “identitarismo exagerado” diante da patrulha em torno da canção “Gol anulado” (1976, com letra de Aldir Blanc).
Como já cravou o próprio Aldir, “o show de todo artista tem que continuar”.
Chegar aos 80, lançando um disco com amigos, novos e antigos, é estranho sem a presença do maior deles, Aldir Blanc (1946-2020)?
O Aldir está sempre comigo. Em cada palavra, cada gesto, cada canção. Nós fizemos “Amigos novos e antigos” no final da década de 1970. Não há nada mais importante do que amizade. Ouço a voz dele me dizendo “amizade é quase amor”. Por isso esse álbum, quando se chega aos 80! É para celebrar a amizade desses que estão no álbum e também de tantos outros que poderiam estar concretamente, mas como isso é impossível na prática, eles cantam comigo em minha memória.
Além da amizade, obviamente, como foi a seleção do elenco do novo álbum?
A seleção ocorreu naturalmente. Muitos desses amigos novos me foram apresentados pela minha produtora (a filha) Júlia Bosco através de gravações na internet, cujas músicas tinham algo de afinidade com a minha de alguma maneira.
Você é conhecido por ter sempre alguns dos melhores músicos brasileiros ao seu lado. Nomes como Nico Assumpção, Nelson Faria e Ricardo Silveira. Como você seleciona os músicos que te acompanham?
Como diria Caymmi, o acaso é importante na vida. Para mim, são acasos “que já estavam escritos”.
Muitos artistas da sua geração gostam de ter músicos mais jovens a seu lado. Como você vê esta geração que aprendeu música na era digital, contando com recursos tecnológicos que não existiam até pouco tempo?
Não há diferença pra mim. Tanto o músico forjado no sistema analógico ou digital, o que importa é a música, como ele partilha ou compartilha com outros uma mesma canção. É preciso saber o que foi e o que é, o restante a intuição acomoda.
Como você lida com os recursos tecnológicos disponíveis hoje? A IA te assusta?
Não se pode assustar, porque a vida segue em frente. Você tem de saber como lidar com isso. Mas ainda é muito cedo pra isso. Há muito o que fazer utilizando a nossa alma própria. O que me preocupa mais é a automação na indústria através da IA, deixando muita gente desempregada. Isso sim é preocupante.
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Vanderlei, Odilon, Yolanda e Adelina dariam um filme. Há alguma possibilidade de ouvi-lo, um dia, cantar “A nível de” (o samba, de 1982, fruto da parceria com Aldir Blanc, trata com bom humor e naturalidade a orientação sexual a partir da troca de casais)?
Às vezes eu canto, pois geralmente não faço roteiro fixo em meus shows. Mas como estamos lançando um novo álbum, há a necessidade de um roteiro, pois temos também projeções de vídeos durante o show. Dessa forma, precisamos seguir uma linha. Infelizmente pra você, o “A nível de” não está nesse roteiro. Mas fica uma dívida entre nós: vou cantá-la no próximo show em que você estiver.
Um passarinho me contou que toda as vezes que você vem a Belo Horizonte, passa em Ouro Preto para uma consulta ao dentista. O que é Minas Gerais – Ponte Nova e Ouro Preto, em especial – para você hoje, depois da maior parte da vida fora?
Eu nunca saí de Minas. A gente anda por tantos lugares neste mundo pra assimilar conhecimentos que serão adicionados àqueles de onde vem. O dr. Aluísio Drummond é meu dentista há 40 anos. Ele faz um trabalho maravilhoso de beneficência à saúde bucal de crianças pobres de Ouro Preto, com a Fundação Sorriso. Eu tenho muito orgulho de ser uma dessas tantas pessoas que o ajudam também.
Sua música nunca teve limites. O envelhecimento te impôs algum?
Felizmente, até agora não senti algum tipo de limite no exercício do meu ofício. Tenho alguma dificuldade para dormir. Mas no mundo como este em que vivemos, quem consegue dormir bem?
Seu violão é inconfundível. Acha que, de certa maneira, ele fez escola?
Não sei responder isso. Os outros que o digam. Eu sei que o meu violão vem de muitos também.
“JOÃO BOSCO – 80 ANOS”
Show nesta quinta-feira (6/8), às 20h30, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos esgotados.
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