LITERATURA

Irene Vallejo apresenta sua defesa dos livros em 'Manifesto pela leitura'

Escritora espanhola reage ao declínio global da palavra escrita e defende o ato de ler como gesto de resistência diante da pressa e da distração do mundo atual

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Quando escreveu “Fahrenheit 451”, publicado em 1953, o escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012) imaginou um futuro distópico em que os livros são proibidos e todos os volumes que são encontrados pelas autoridades repressivas são incendiados em grandes fogueiras públicas – evocando as queimas de livros promovidas pelos nazistas nos anos 1930. Se decidisse escrever o livro hoje, talvez Bradbury pensasse duas vezes. Ainda não chegamos ao ponto de queima de livros, mas a leitura nunca esteve sob um ataque tão profundo quanto agora.

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Os números são assustadores. A revista norte-americana “The Atlantic” publicou, na capa de sua edição de agosto, a chamada: “A era da leitura acabou”. O tom apocalíptico é baseado em dados: nos Estados Unidos, apenas 35% dos estudantes do último ano do ensino médio são considerados proficientes em habilidades como analisar temas complexos de ficção. Ainda segundo o artigo, quase 30% dos adultos americanos não conseguem interpretar ou tirar inferências de um texto de várias páginas, um aumento em relação aos menos de 20% registrados em 2017.
A proporção de quem lê por prazer caiu de 28%, em 2004, para 16%, em 2023. E há um dado ainda mais estarrecedor: apenas 20% dos adultos responderam por mais de 80% de todos os livros lidos no último ano. Curiosamente, o artigo defende que nunca se leu tanto. Mas a leitura migrou para fragmentos de texto: e-mails, posts, mensagens.
Em maio, o escritor brasileiro Julián Fuks, autor de “A resistência”, fez um alerta similar em sua coluna no portal UOL. Com o título de “A leitura está em perigo, incômoda num mundo de tanto ruído”, Fuks nota o próprio fôlego de leitor se perdendo ano após ano, o olhar que “vagueia da biblioteca ao celular, cada vez por mais tempo”. Não fala de uma posição de isenção, mas de alguém dentro do problema: mesmo um crítico literário treinado para ler sente o mundo barulhento, estridente, ávido por atenção, tornando a leitura silenciosa e profunda algo cada vez mais difícil de abrigar. Ainda assim, ele recusa a desistência: resta, escreve, a tarefa "quixotesca" de continuar lendo, de resistir ao ruído insistindo no silêncio mais pensante.
Na "Folha de S.Paulo", o crítico Sergio Rodrigues, autor de "Escrever é humano", encerrou sua coluna na última quarta-feira, depois de dez anos. No texto derradeiro, ele observou que "escrever a língua se tornou artigo meio raro, talvez de interesse para um público minguante", ofuscado por uma inteligência artificial capaz de imitar até o ofício do colunista. Sua despedida, ainda assim, foi um pedido: que não deixemos quem amamos desaprender de ler, escrever, buscar coisas em livros e pensar.
O problema não se limita aos livros. O mais recente Digital News Report, do Reuters Institute, mostra que o mesmo movimento atinge o consumo de notícias: pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo superaram os sites e aplicativos de notícias como principal fonte de informação no mundo, e a confiança na imprensa caiu ao menor nível já registrado pelo instituto. O interesse por notícias também recuou. A fatia de "usuários casuais", que consomem informação de forma superficial, cresceu de 16% para 25% desde 2021. É o mesmo fenômeno que afeta os livros, como apontou a “The Atlantic”: não estamos deixando de consumir texto e informação, estamos deixando de nos aprofundar neles.
É nesse cenário que “Manifesto pela leitura”, de Irene Vallejo, recebe seu lançamento no Brasil, em edição em parceria entre a Dublinense e a Seiva. O livro foi escrito em 2020, a pedido da Federação de Editores da Espanha como uma defesa do ato de ler, após constatarem uma queda no número de leitores no país europeu.
Ao longo das 80 páginas, a autora de “O infinito em um junco” recorre a referências que vão do historiador romano Tácito ao filósofo francês Guy Debord para construir um apelo aos leitores: recuperar o prazer da leitura e resistir às tentações da hiperestimulação do mundo contemporâneo. Para ela, nosso imaginário está colonizado pela velocidade, pelo imediatismo e pela proliferação. “Apaixonados pela aceleração, ficamos deslumbrados com as conexões instantâneas, os processadores vertiginosos, o milagre de apertar uma tecla e nos comunicarmos de imediato através de imensas distâncias”, afirma.
Mas a mesma velocidade que nos consome é, ironicamente, fruto de uma máquina que trabalha devagar, e retira seu refinamento dessa lentidão: o cérebro. Por isso, para Vallejo, recuperar o hábito da leitura é recuperar "o prazer da concentração, a intimidade e a calma".
Vallejo também lembra que a leitura farta e acessível que temos hoje foi, durante muito tempo, restrita a uma minúscula parcela da população. Por séculos, os livros foram trancados em palácios e conventos, cofres de sabedoria reservados à nobreza. Foi preciso uma “jornada extraordinária de trinta séculos”, que envolveu escolas, editoras de bolso, bibliotecas comunitárias, campanhas de alfabetização para que “tirássemos as fechaduras dos livros e colocássemos neles sapatos confortáveis”, levando-os finalmente à praça pública, onde ninguém é impedido de entrar. É essa conquista, lenta e coletiva, que está se desfazendo diante dos nossos olhos.
No posfácio da edição brasileira, Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, ainda conecta o manifesto europeu à nossa própria crise de leitores: por aqui, apenas 20% dos brasileiros usam o tempo livre para ler livros, contra cerca de 90% que preferem a internet. Mais de 60% das escolas brasileiras, segundo o Educacenso, sequer têm biblioteca.
Bradbury temia as fogueiras porque uma sociedade que queima livros é uma sociedade que decidiu viver sob censura. O alerta de Vallejo é que vivemos agora algo mais sutil e, por isso mesmo, mais difícil de combater: ninguém precisa nos proibir de ler quando encontramos, a cada minuto, uma distração mais fácil do que virar a página. A nossa tragédia é um gesto silencioso, repetido diariamente, quase sem que percebamos. Talvez seja exatamente por isso que o “Manifesto pela leitura” chegue em boa hora: para nos lembrar que se ninguém vai nos impedir de ler, também ninguém vai fazer isso por nós. Essa liberdade, hoje, pode ser a forma mais simples de resistência.

Depoimentos sobre o “Manifesto”

“Desde o momento em que me deparei com este livro, fiquei louco para compartilhar ele com as pessoas. Adoro a maneira bonita com que Irene defende a leitura, é uma defesa pra cima. E a ideia de compartilhar esse manifesto também com outro editor, através de uma coedição, me pareceu fazer todo o sentido e ser o melhor jeito da gente conseguir fazer ele chegar a mais e mais leitores.”

Gustavo Faraon, editor da Dublinense

“Pela importância que os livros têm na história, damos esse jogo como ganho. Mas não é assim. Precisamos lembrar, elaborar, sentir: por que a leitura nos trouxe até aqui? O que só ela pode fazer? Por que precisamos dela como seres humanos? É isso que Irene Vallejo responde lindamente neste manifesto.”

Daniel Lameira, editor da Seiva

TRECHO

“Filho deste milênio trepidante, nosso imaginário está colonizado pela velocidade, pelo imediatismo e pela proliferação. Apaixonados pela aceleração, ficamos deslumbrados com as conexões instantâneas, os processadores vertiginosos, o milagre de apertar uma tecla e nos comunicarmos de imediato através de imensas distâncias. Mas toda essa tecnologia rápida e fabulosa é fruto de uma máquina que trabalha devagar: o cérebro. E é justamente sua lentidão o segredo do seu refinado funcionamento. As ideias que sustentam nossa racionalidade exigem tempo, recolhimento e sossego para se desenvolverem. Como escreveu o historiador romano Tácito: “A verdade se fortalece com a investigação e a demora; a falsidade, com o apressamento e a incerteza”. 

Reféns da pressa, deixamos de lado o cultivo da paciência. Podemos chamar essa falta de serenidade cognitiva de crise da distração. Guy Debord afirmou que nossa época nos leva a sermos mais espectadores que leitores; ou seja, leva a diluir a tensão do leitor no abandono do espectador. Ler não é tão passivo quanto ouvir ou ver; é recriação e efervescência mental. Lemos no nosso próprio ritmo, modulamos a velocidade, absorvemos o que queremos assimilar e não o que jogam sobre nós com tanta veemência e volume que acabamos atordoados. Nestes tempos acelerados, os livros surgem como aliados para recuperar o prazer da concentração, a intimidade e a calma. Por isso, ler pode ser um ato de resistência numa época invadida pela informação frenética e desenfreada.” 

Manifesto pela leitura

• De Irene Vallejo

• Tradução de Julia Dantas

• Dublinense e Seiva

• 80 páginas 

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