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Palavras de Minas em Paraty

Confira os trechos marcantes das participações de Maria Esther Maciel, Edimilson de Almeida Pereira, Cármen Lúcia e Flávia Péret na 24ª edição da Flip

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“A memória só se faz presente reconfigurada”

Maria Esther Maciel 

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(Autora do romance “Essa coisa viva”, lançado pela Todavia)

“A escrita funciona como um processo de elaboração do vivido e até mesmo de ficcionalização do vivido. Na medida em que a Ana Luísa (personagem principal de “Essa coisa viva”, mais recente romance da escritora) escreve a carta, ela não deixa também, pela presença, pela força da sua imaginação, de recriar esse passado. Claro que o passado só se torna presente a partir de um trabalho que envolve não apenas a memória, mas também a imaginação. E essa imaginação, muitas vezes, transforma o vivido em outra coisa também. E ali nós temos ainda a primeira pessoa — quer dizer, é o olhar de Ana Luísa sobre a sua própria história. Esse olhar não necessariamente implica uma veracidade dessa história, porque mesmo se ela estivesse ali fazendo uma espécie de autobiografia bem direta, ela não deixaria de reinventar o que foi vivido, sobretudo porque a memória só se faz presente reconfigurada. Nenhum relato condiz necessariamente com tudo que foi vivido. É a subjetividade que atua nesse sentido de reconfigurar e transfigurar tudo, sabendo que a memória é fabuladora.”

“O poeta como sujeito construtor do silêncio”

Edimilson de Almeida Pereira

(Poeta, teve a obra reunida em “Poesia & Agora”, da Mazza Edições) 

“A temática do silêncio é, talvez, uma das mais centrais, não só na poesia de modo particular, mas na própria organização das sociedades e das culturas. Enquanto José (Tolentino de Medonça, poeta português) falava, me lembrava de um fragmento do Arlindo Barbeitos (1940-2021), poeta angolano que eu já leio há algum tempo. Em determinado momento, ele comenta que o silêncio não é exatamente o vazio. Então ele já coloca um elemento interessante: a sensação de ausência de som e presença de alguma coisa. Estar cheio, estar vazio. Então o silêncio não é exatamente um vazio, é uma instância que permite o fim e o começo de algo. E ele diz isso de maneira muito poética: é onde toda a tempestade começa e termina. A partir da perspectiva do Barbeitos, o que dá para entender com o silêncio é que há uma dimensão física — essa ideia da ausência de som, da ausência de provocação ao sensível da escuta —, mas há também uma construção cultural do que seja o silêncio. Essa construção é o que, de modo particular, me interessa no processo de criação poética. É possível, por exemplo, estar no meio de uma metrópole envolvido por ruídos diferentes, ou estar num ritual de cultura popular, fazendo uma caminhada ao ritmo de tambores, gritos, vozes, e ainda assim, em meio a esse burburinho, há uma instância na qual você, como sujeito, precisa criar para que possa ouvir não o ruído ao redor, mas escutar a si mesmo. Essa construção é cultural. É uma das mais importantes para a poesia. Coloca o poeta como sujeito construtor de silêncio, crucial para a consciência humana (...). Quando a gente pensa na história da poesia, no trabalho que os poetas e as poetas fazem com as palavras, de certa maneira, é um pouco isso: devolver a cada um de nós, no ato da leitura, no ato da escuta, o domínio desse silêncio que a própria sociedade vai tirando de nós.” 

 

“Minha grande luta pessoal é por uma biblioteca em cada município”

Cármen Lúcia 

(Ministra do STF, lançou na Flip “Pela mão do povo: Voto e democracia no Brasil”, publicado pela Bazar do Tempo)  

“O sertão é forte em mim. Eu sou do norte de Minas, uma região muito diferente da região das Minas. Os Gerais são descampados — é o que o Guimarães Rosa descreve; antes do Guimarães, Afonso Arinos descreveu na obra “Pelo sertão”: uma região muito pobre ainda no sentido de uma economia estruturada. Quer dizer, hoje nós já temos: de Curvelo para lá é sertão, é a região dos Gerais. Isso marca muito, porque claro que não há nenhum determinismo territorial nem geográfico, mas as condições do povo... porque faltou muito o Estado, e a gente tem poucas condições de ter ótimos hospitais. Nós tivemos boas escolas, e hoje a minha grande luta pessoal extra-autos é para que a gente tenha uma biblioteca — ainda que com dois livros, se quiserem, com 10 livros — mas uma plaquinha ‘biblioteca’ em cada município brasileiro, a começar pelos Gerais, pelo sertão. Nós temos o direito de ser cidadãs e cidadãos que têm acesso livre — e como já rodei este país literalmente, inteiramente, pelo menos umas quatro ou cinco vezes, ainda tem mimeógrafo, que a maioria aqui não sabe nem o que é. Como é que alguém tem um celular de não sei qual geração, e tem alguém que recebe uma poesia mimeografada porque não tem acesso a livro — e depois a gente reclama porque ele fica grudado nas telas que engolem a sua liberdade, a sua capacidade de pensar, porque é muito mais fácil ficar passando figurinha sem parar, sem parar, sem conversar com o outro. Diz que tem um amigo no Japão, e às vezes é um bot, e ele não sabe que o irmão dele está chorando do lado. No ‘Romanceiro’ (da Inconfidência), de Cecília Meireles, tem uma passagem assim: ‘Que humanidade é essa que estamos construindo, que quem vai saber no futuro se se aprova ou reprova, de que alma vai ser feita essa humanidade nova?’ Eu não acredito numa humanidade, numa alma de pessoa sem palavra.” 

“Eu entendo o mundo a partir da escrita”

Flávia Péret

(Autora de “Coisas presentes demais”, lançado pela editora mineira Relicário)

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“Eu sou uma pessoa que entendo o mundo a partir da escrita. A escrita me ajuda a pensar, a enxergar com clareza, a transfigurar as coisas que eu sinto. A escrita literária é uma atividade vital na minha vida. Não posso abrir mão senão eu iria adoecer. Ao mesmo tempo, eu escrevo sobretudo sobre as minhas relações, a minha vida, a minha experiência, a minha família, meu marido, meu filho, esse mundo em torno de mim. Se eu fosse me censurar ou me travar por escrever, eu não conseguiria escrever. Não posso ter esse medo. Se eu tivesse, não poderia nem estar aqui. Isso significa que posso escrever qualquer coisa de qualquer forma? Não, não significa. Eu tenho uma espécie de ‘codigozinho’ ético que tento preservar. Não quero magoar ninguém, não quero arrumar briga ou que as pessoas fiquem tristes. Então eu tento escrever com delicadeza, com cuidado.”

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