“Boi, boi, boi, boi da cara preta/ pega essa menina que tem medo de careta.” A canção de ninar que há gerações acalenta – e apavora – as crianças vai virar mangá de terror ambientado em Belo Horizonte, com previsão de lançamento em 2027. A série “Boi da cara preta”, anunciada pela Editora JBC no Anime Friends (SP), terá dois volumes.



A ideia surgiu quando o quadrinista belo-horizontino Daniel Bretas, de 35 anos, tentava fazer a filha recém-nascida dormir, enquanto lidava com a insônia e as cobranças da vida adulta. “Era uma das músicas favoritas da minha filha. Quando a cantava, percebia como a letra é bizarra”, conta. “A ideia de perseguição que o boi impõe à criança, obrigada a dormir apesar do medo, é exatamente o que um adulto sente.”



Dorival Caymmi


Intrigado, o quadrinista pesquisou a música, de origem anônima, cantada no Brasil há dois séculos. O verso ganhou registro fonográfico em 1942, quando Dorival Caymmi o incluiu em “Acalanto”, composto para a filha, Nana. Quanto mais pesquisava, mais o quadrinista percebia que o mistério da canção combinava com a atmosfera de terror psicológico que ele queria construir.



O mangá “Boi da cara preta” é ambientado na Belo Horizonte em que Bretas viveu quando se tornou pai, aos 20 e poucos anos, entre o início da década de 2010 e o período anterior à pandemia.



Do sentimento de ameaça e medo surgiu Ariel, pessoa não binária que mora em um sobrado entre os bairros da Floresta e Santa Tereza. No térreo, funciona o bar do pai, em cujo balcão esse protagonista trabalha. No andar de cima, fica o quarto onde ele enfrenta a insônia crônica e a paralisia do sono, na qual a pessoa adormece, mas não consegue falar ou se mover.



À noite, ao som da música, das risadas e das brigas no bar, Ariel tenta equilibrar o trabalho, a universidade e a descoberta da própria identidade. Resumindo: vive entre a vigília e o pesadelo.



“Quero que o leitor sinta como é esse estado”, explica Bretas. “Já tive muitas passagens de paralisia do sono. Ariel é o espelho do turbilhão de coisas que aconteceram na minha vida quando nasceu minha filha.”



O quadrinista destaca as falas dos personagens em “beagazês cabuloso”, com sotaque e humor característicos da capital mineira. Com isso, quis reforçar a identidade de Belo Horizonte no mercado de quadrinhos dominado por produções japonesas e estadunidenses.



Essa opção afasta o tom de tradução literal que, em sua opinião, é parte de muitos quadrinhos brasileiros por causa da influência de HQs estrangeiras. Falas assim, afirma, “acabam soando como inglês americano dublado”.



Como São Paulo monopoliza boa parte da cena editorial e dos grandes eventos de quadrinhos, Daniel diz que muitas HQs brasileiras reproduzem o jeito de falar mais próximo do paulista. “Queria que as falas saíssem como eu realmente falo. Você vê o personagem dizendo 'Xia, mano, que coisa estragada… O cara te aporreia o dia inteiro' ou 'se pá que sim' ou ainda 'vai colar lá?'”.



Esboços mostrados à reportagem reforçam a “estética de Beagá”. Em uma das páginas, personagens fumam paiol (cigarro de palha) na mureta da Rua Sapucaí, durante o intervalo de trabalho.



Bretas afirma que artistas do país vêm sendo cada vez mais reconhecidos no mercado internacional. Exemplos disso são a paulista Bilquis Evely, primeira brasileira a vencer a categoria de Melhor Desenhista/Arte-finalista do Prêmio Eisner, considerado o “Oscar dos quadrinhos”, e o colorista capixaba Matheus Lopes, que trabalha para a Marvel e a DC Comics.



Em 2021, a dupla foi indicada ao Eisner por “Supergirl: Mulher do Amanhã”, HQ que inspirou o filme da Supergirl lançado este ano, estrelado por Milly Alcock.



Para Bretas, esse reconhecimento contrasta com a pouca valorização das histórias em quadrinhos brasileiras em seu próprio país.



“Foi quase um quadrinho americano adaptando a obra de artistas brasileiros. Cadê o Brasil fazendo isso com ele mesmo? Cadê o Brasil adaptando as próprias histórias? É meio bizarro o quanto a gente não se enxerga, mas tem gringo vindo olhar.”



A HQ recria a Belo Horizonte antes da pandemia, com destaque para a Rua Sapucaí, Feira de Artesanato da Afonso Pena, o vaivém no CCBB, na Praça da Liberdade, as rodas de conversa no Mangabeiras e as festas techno.



“Os lugares que frequentei, os espaços aos quais pertenci me fizeram sentir essas coisas. Então, por que não dar espaço ao lugar ao qual pertenço?”, comenta. A cidade mudou depressa e, para reconstruir a BH que já não existe, ele recorreu a fotografias. “Registrei a Sapucaí e, dois anos depois, ela já não era a mesma. O mangá congela a impermanência, mostra o quanto a cidade está viva e muda o tempo todo.”



Daniel espera que a capital mineira desperte identificação nos leitores. “Colocando BH como protagonista, quero fazer as pessoas valorizarem a cidade, a imersão neste lugar e no seu espírito, (elas) se enxergando também. Ou seja, se enxergarem nos personagens, quererem visitar esses lugares.



Na visão dele, Belo Horizonte tem “clima quase londrino, meio nublado” e melancolia pouco explorada nos quadrinhos e narrativas ambientadas na cidade. Observa que a capital conquistou reconhecimento na literatura e no cinema, com as produções da Filmes de Plástico e filmes de diretores como João Dumans. Porém, aparece pouco como protagonista de HQs.



“A gente tem grandes expoentes do cinema aqui, da literatura. Cadê o quadrinho? Quadrinho é quase um híbrido, a mescla de literatura com cinema”, afirma.



Para ele, mangá é o suporte ideal para registrar a realidade de quem vive na cidade. “E o delírio nessa tropicália, que vem com o calor que deixa a gente doido, isolado e sozinho depois que a festa acaba? O 'Boi' é a BH sombria, o dia depois da festa, a cidade ressaqueada. Quis registrar esta sensação antes que a cidade mude de novo”, afirma.



Fernando Sabino


Uma das influências veio do livro “O encontro marcado”, de Fernando Sabino, publicado em 1956, sobre jovens em BH. O quadrinista Leu o romance na adolescência.



Os quatro rapazes atravessam madrugadas na cidade, “puxam angústia” na Praça da Liberdade, escalam o arco do Viaduto Santa Tereza.



“Cheguei a escalar o arco por causa do livro. Foi um ato de rebeldia, de curiosidade e também de vivência da minha cidade”, revela Bretas.



Formado em cinema e audiovisual pela UNA, Daniel Bretas venceu o Brasil Manga Awards, em 2015, e foi premiado com dois HQ Mix em 2023.

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Ele acredita que publicar pela JBC amplia a visibilidade de Belo Horizonte no mercado nacional de quadrinhos. Este ano, a capital volta a receber o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). E, lembra Bretas, abriga escolas especializadas, como a Casa dos Quadrinhos.


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