Com a delicadeza habitual, Tom Zé dá um puxão de orelha nesta repórter. “A vida não é nenhum ‘ainda’”. Por e-mail, o mais adorável dos baianos responde à pergunta “O que você ainda quer da vida?”, afirmando que “risca e exclui” o advérbio. “Essa palavra (ainda) modifica a ação, e ação é fazer.”
Fazer é tudo o que Tom Zé quer da vida. “Trabalhar é um motor de satisfação, de autodescoberta perene”, ele diz. A menos de três meses de completar 90 anos (em 11 de outubro), ele está trabalhando em três turnos em estúdio, revela a produtora Neusa Martins, sua mulher há 56 anos, para finalizar o álbum que lança no segundo semestre. Sai de São Paulo apenas para cumprir a agenda de shows.
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Ele chega a Belo Horizonte nesta quarta-feira (22/7), para se apresentar na Autêntica. Foi também com show de Tom Zé que a casa inaugurou seu novo endereço, no Santa Efigênia, há quatro anos. Neste retorno, ele foi o artista convidado para outro lançamento.
Amanhã, será realizada a primeira noite do projeto Quarta Livre, parceria da Autêntica com a Natura, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Até novembro, serão promovidos, mensalmente, shows gratuitos uma quarta-feira por mês. Metade dos ingressos é disponibilizada on-line (fatia já esgotada para a estreia do projeto) e a outra parte será distribuída no dia.
Tom Zé descreve a banda que estará com ele: “Daniel Maia, que há mais de década é produtor de meus discos, faz vocais e guitarra; Cristina Carneiro, competente, faz vocais e teclado; Felipe Alves, excelente no baixo e nos vocais; Fábio Alves não é ‘um’ baterista: é 'O' baterista, com maiúscula; Andreia Dias, cantora, faz pequena percussão e voz – e que voz, a dela!”.
Você já passou por muita coisa. Alguma coisa te dá medo?
O medo é uma emoção comum em minha psiquê. Às vezes não se configura como medo disso ou daquilo. Pode vir abstrato e, como tal, se vai.
A internação em 2024, em decorrência de acidente doméstico, e sua longa recuperação te tiraram dos palcos por um bom tempo. Depois de recuperado, dá para pular como antes no palco?
Ficar em casa não implica ficar quieto. Trabalho incessantemente, pensamento vira verso ou tentativa de verso, música ou tentativa de música. A crítica francesa diz que eu sou “um animal do palco”. Biológica e artisticamente, isso é verdadeiro. Retomada a atividade de apresentações, em 2025, a banda que está comigo há mais de década e é muito competente me apoiando, tendo consciência do que eu faço, foi e é uma força nesse “depois de”. Movimentação física, o próprio corpo me leva ao que ele quer fazer. E mudança significa percurso, é estimulante.
O show de amanhã é um retrospecto da carreira ou enfoca mais seu álbum mais recente, “Língua brasileira” (2022)?
Nunca consegui ficar colado a um só disco, em nenhuma apresentação. Me lembro agora de que vou cantar “Não tenha ódio no verão” (gravada no álbum “Tropicália lixo lógico”, de 2012), que compus anos antes de essa emoção escura que é o ódio plantar-se nos comentários políticos ou policiais. E virou uma advertência a mim mesmo e para todos nós. Meu entorno é a caneta com que escrevo. Música é antes, agora e depois. Preciso cantar tudo que foi e o que vem vindo.
'Trabalhar é um motor de satisfação, de autodescoberta perene', diz Tom Zé, que cumpre três turnos no estúdio, preparando o álbum que será lançado no segundo semestre de 2026
Você é metódico e disciplinado. Hoje, que cuidados tem tomado em sua rotina?
Quando minha médica, dra. Isabella Messias Pires, que salvou minha vida, coordenando tratamento com a neurologia do Hospital Beneficência Portuguesa, me avisa que evite comer isso ou aquilo, cumpro (a dra. Isabella também é Minas, ah, Minas!, os pais dela vivem em Lambari e ela volta e meia vai lá). Embora minhas papilas gustativas tenham mudado certas preferências alimentares, vou encarando. Percurso é percurso. E, metodicamente, faço ginástica duas vezes por dia, há decênios. Ginástica é um prazeroso hábito diário. Leitura também é costumeira. Sou curioso. Leio, mas também releio muito.
Mais do que qualquer outro nome da sua geração, você sempre dialogou com os jovens – de anteontem, de ontem e de hoje. A que você credita esse público sempre renovado?
Olhe, as diversas profissões ou intenção de as pessoas segui-las, no início da juventude, tem paralelo com o jeito como eu trabalho. Vou buscando, querendo ver o que determinada linguagem traz para o meu si-mesmo e para os outros. Pode ser essa a razão da afinidade que você apontou. Linhas paralelas.
Qual é o tamanho de Belo Horizonte dentro da sua carreira?
Minha Beagá, meu horizonte belo! De arrepiar! Nela está um acento na fala, de expressão vocal, uma doçura até pra negar. E um desassombro que está na minha música “Os clarins da coragem”, que grita e exclama: “Minas Gerais, Minas Gerais!”. Em Minas, o Grupo Corpo me fez criar “Parabelo”, com Zé Miguel Wisnik, e lá foi a peça a correr mundo em 2025 como a mais brasileira das trilhas, segundo o Corpo. Eles são meus amigos para sempre amados. Belo Horizonte tem o tamanho que eu tenho, que eu consigo ter.
QUARTA LIVRE
Show de Tom Zé. Nesta quarta-feira (22/7), às 21h30, na Autêntica (Rua Álvares Maciel, 312, Santa Efigênia). A casa abre às 19h. Entrada franca. Os ingressos serão distribuídos na bilheteria, no dia do evento, a partir das 18h, por ordem de chegada.
PRÓXIMOS SHOWS
• 12/8: Nubia e Tamara Franklin
• 9/9: Fitti e Cobra Coral
• 7/10: Coral & Sérgio Pererê e Bruna Black
• 11/11: Augusta Barna, Uana e Jessica Gaspar
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