Miguel de Almeida revela como o humor driblou censura da ditadura militar
Livro 'Chame o ladrão' revela casos divertidos envolvendo o humorista Jaguar, o produtor Luiz Carlos Barreto e até Amalia Lucy, filha do presidente Geisel
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Em agosto de 1976, o produtor Luiz Carlos Barreto chegou a Brasília apavorado. O filme “Dona Flor e seus dois maridos” recebera 13 indicações de cortes da Divisão de Censura. Já havia tentado negociar junto ao Ministério da Justiça e nada. Até que se encontrou com a historiadora Amália Lucy, única filha do presidente Ernesto Geisel.
“Amanhã (3 de agosto), é aniversário do meu pai. Manda o filme para o palácio que exibo para ele, mamãe e alguns amigos.” Barretão ouviu, incrédulo, a sugestão. “Fica tranquilo. Eu garanto. Papai é uma pessoa liberal, minha mãe mais ainda.” O general Geisel comemorou seus 69 anos vendo Sônia Braga dividida entre José Wilker, sempre nu, e Mauro Mendonça.
No dia seguinte, o produtor recebeu um telefonema do censor, que cumpria a ordem de liberar o filme sem cortes. Em novembro, “Dona Flor” chegou aos cinemas. Por 34 anos, foi o longa nacional de maior bilheteria no Brasil, com mais de 10 milhões de espectadores. Relatada pelo próprio Barretão ao jornalista, escritor e cineasta Miguel de Almeida, essa é uma das ótimas histórias de “Chame o ladrão” (Record).
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Com lançamento no próximo sábado (25/7) na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde Almeida debate “Repressão e resistência na cultura brasileira” em mesa com o escritor e jornalista Rodrigo Faour, o livro é recheado de casos assim.
Além de escrever “Do pré-tropicalismo aos sertões incandescentes” e “Trilha nos trópicos”, Almeida dirigiu o filme “Tunga, o esquecimento das paixões” e a série “Primavera nos dentes”, sobre a banda Secos e Molhados.
“Durante o período da ditadura, havia uma briga dura contra a censura. Tinha o clima raivoso da oposição naquele momento, mas também existia a linha da malandragem, de galhofa sobre a censura”, comenta Miguel de Almeida. É este o viés do livro, a partir do próprio título.
“Chame o ladrão” é um verso de “Acorda, amor” (1974), canção de Chico Buarque lançada sob a alcunha de Julinho da Adelaide, outra história célebre da MPB durante o governo militar. Cansado de ter suas letras picotadas pela tesoura dos censores, Chico criou o heterônimo. Como ninguém sabia quem era o sambista Julinho, as canções começaram a passar sem qualquer corte.
“O aparelho censório foi formado por pessoas muito desqualificadas, reflexo do próprio regime”, comenta Almeida. O despreparo era tal que Gama e Silva, ministro da Justiça no governo Costa e Silva, teve que convocar a imprensa para fazer um reconhecimento vexamoso. O chefe do Serviço de Censura Federal, Antônio Romero Lago, na verdade se chamava Hermenildo Ramirez de Godoy. Era um fugitivo por ter assassinado duas pessoas no Rio Grande do Sul.
“Foi nesse espaço do despreparo dos militares que fiz o livro, que trata como uma espécie de aventura essa expedição contra a censura”, afirma Almeida. Durante pesquisa de três anos, ele entrevistou pessoas que burlaram os censores. Além do produtor Luiz Carlos Barreto, ouviu casos saborosos de intelectuais como os escritores e jornalistas Ignacio de Loyola Brandão e Antônio Torres.
“Havia uma ansiedade de desenvolvimento da criatividade da geração formada no início da redemocratização pós-Getúlio”, acrescenta o autor, que reuniu passagens da cultura brasileira nas áreas de música, jornalismo, literatura e cinema. “São lados B desse enfrentamento, em que as pessoas usaram como arma o humor”.
Pasquim: humor e censores de plantão
Quando se fala em jornalismo alternativo durante a ditadura, não há como não citar o Pasquim. Sob o comando de Jaguar, os censores que frequentaram a redação passaram poucas e boas.
A primeira, conta Almeida, foi uma mulher. Ela chegou ao Pasquim na esteira da antológica entrevista de Leila Diniz, em novembro de 1969. Na capa, grávida, com uma tolha na cabeça, a atriz disparou petardos feministas – “Eu posso amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo” –, que foram muito mal-vistos pela retrógrada ditadura.
Certo dia, chegou a tal censora que deveria ler todo o material antes de ser publicado. Devidamente, Jaguar lhe providenciou uma mesa. O cartunista trabalhava ao lado de uma garrafa de uísque e balde de gelo.
“Passado um tempo, já criada uma rotina mais amigável, ela se aproxima e pergunta se poderia dar um gole”, relata Almeida. Claro, como não? No dia seguinte, quando a censora chegou para trabalhar, havia uma garrafa de uísque e balde de gelo para ela. As matérias passavam batido pela beberrona.
Censor na praia
Quando o truque foi descoberto, ela foi trocada por Cyro de Freitas e Silva, militar reformado sessentão, que passava os dias jogando vôlei na praia de Copacabana. Era o pai de Helô Pinheiro, a “garota de Ipanema”.
“O Jaguar e o Ivan Lessa descobriram que ele tinha uma garçonnière. Começaram a enviar o jornal para ser liberado naquele endereço, pouco antes de uma das moças chegar. Ele ficava apressadíssimo para liberar. Quando as coisas começaram a dar errado, e ele resolveu não fazer mais aquilo, apareceu na redação uma moça bonita e rica querendo trabalhar. Jaguar pediu para ela levar a edição do Pasquim para a praia, onde ele estava jogando vôlei. Ela ia de biquíni, e ele nem via (o que tinha de cortar ou não).”
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“CHAME O LADRÃO”
• Livro de Miguel de Almeida
• Record
• 182 páginas
• R$ 69,90 (livro)
• R$ 39,90 (e-book)