Cinema

Filme em cartaz em BH revela por que nunca houve diva como Sarah Bernhardt

Atriz fascinante, mulher pioneira nos séculos 19 e 20, francesa ganha cinebiografia que comete o equívoco de priorizar o romance em detrimento de sua arte

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Divina Sarah. Foi Victor Hugo quem lhe deu a alcunha que a acompanha até hoje. Sarah Bernhardt (1844-1923), a primeira estrela internacional, foi a atriz que fascinou os maiores pensadores de seu tempo – Oscar Wilde, Marcel Proust e Sigmund Freud. Salomé, Dama das Camélias, Hamlet: ela interpretou todos os grandes papéis. Colecionou amantes, homens e mulheres, incluindo alguns célebres, Hugo entre eles. E levou 600 mil franceses às ruas de Paris em seu funeral.

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Essa trajetória riquíssima em êxitos, escândalos e sofrimentos está em “A divina Sarah Bernhardt”, filme de Guillaume Nicloux em cartaz no Cine Ponteio. Sandrine Kiberlain imprime diversas inflexões, sempre com delicada ironia, à protagonista.

“Se não estamos dizendo a verdade, temos que mentir com a maior sinceridade”. A fala da personagem, na parte inicial do filme, dá o tom da forma como a história é contada. A partir da introdução, que apresenta várias sequências de Sarah (a real) em cena, o drama tem início de forma quase farsesca. Sobre a cama, a vemos moribunda, despedindo-se do mundo.

Porém, esta não é Sarah, mas Marguerite Gauthier, a “Dama das Camélias”, um de seus papéis famosos – a primeira adaptação cinematográfica, de 1912, foi dela, que mais tarde a levou seguidas vezes para os palcos.

Queda no Brasil

Desta sequência, a vemos sendo levada para o momento definidor de sua vida. Em 1915, Sarah teve a perna direita amputada, após anos de complicações decorrentes de uma queda durante encenação de “Tosca”, em 1905, no Rio de Janeiro. A cirurgia é o mote para que a personagem fale de passagens marcantes, apresentadas em seguidos flashbacks.

A partir de 1915 – Sarah chega à cirurgia com a língua sempre afiada, já fazendo planos –, a história navega por outros dois períodos: 1896 e 1886. Nas mudanças temporais, acompanhamos também toda a miríade de pessoas em torno dela.

Filha de uma cortesã, Sarah teve começo de vida cheio de privações. Muito do que o espectador fica sabendo dela – ausência paterna, estupro na juventude, amantes que dispensou – vem da própria boca de Sarah em conversas com pessoas próximas. Esse recurso preguiçoso (e econômico) de incluir detalhes de passagens da vida da personagem nos diálogos é explorado por todo o filme.

Abrindo uma janela para a tênue linha que separa a pessoa da celebridade, o filme retrata a mulher extravagante, que colecionava animais exóticos. Em uma cena, ela se encontra com amigos enrolada numa serpente. Mãe amorosa, financiava todos os (maus) negócios do único filho, Maurice.

Caso Dreyfus

Progressista, emociona-se com o antissemitismo diante do caso Dreyfus, escândalo político que dividiu a França no final do século 19 e início do 20.

O grande pecado do filme é colocar a personagem à mercê do amor. Lucien Guitry (Laurent Lafitte) foi um ator célebre na França, que contracenou com Sarah incontáveis vezes. Os dois mantiveram um caso durante muitos anos, entre outros amantes da dupla. Sarah era também muito próxima do filho de Lucien, o dramaturgo Sacha Guitry (Arthur Mazet).

“Um dia que deveria ser feliz, mas que se revelou o mais terrível, quando perdi o amor da minha vida”, diz a personagem para Sacha, ao relatar o fim do caso muitos anos antes. A trama passa a privilegiar o relacionamento, o constante vai e volta, fazendo com que a presença de Lucien se torne central na vida de Sarah, mais relevante do que sua incomparável trajetória no teatro e no cinema.

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“A DIVINA SARAH BERNHARDT”

França/Bélgica, 2024, 98min. De Guillaume Nicloux, com Sandrine Kiberlain e Laurent Lafitte. O filme está em cartaz às 16h40 e 21h15, no Cine Ponteio 3.

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