Parte do acervo da companhia mineira, que enfrenta dificuldades para preservar e restaurar suas criações, será transferida para o Centro Cultural da Romaria
Boneco de 'Tiradentes, uma história de títeres e marionetes', espetáculo criado por Álvaro Apocalypse em 1992, que será apresentado em Congonhas nesta terça-feira (21/7). Traços do Barroco Mineiro estão presentes na obra de Apocalypse crédito: Gustavo Campos/divulgação
Mais do que abrir novo museu, o Giramundo Teatro de Bonecos tenta garantir a sobrevivência de um patrimônio construído ao longo de 56 anos. Depois de décadas buscando soluções para preservar seu acervo em Belo Horizonte, o grupo decidiu transferir parte da coleção para o Centro Cultural da Romaria, em Congonhas. A previsão é de que o espaço seja aberto ao público em novembro.
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A mudança será oficializada nesta terça-feira (21/7), durante o Festival de Inverno de Congonhas, com a assinatura do termo de fomento entre a Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo (Fumcult) e o Giramundo. Logo após a cerimônia, haverá apresentação de “Tiradentes, uma história de títeres e marionetes”, espetáculo criado por Álvaro Apocalypse em 1992, com participação do compositor Celso Adolfo.
“Além de ser um grande atrativo turístico, o Museu do Giramundo é indutor da economia criativa, que envolve todo o segmento da cultura”, aposta o presidente da Fumcult, Pedro Cordeiro.
Atualmente, o acervo do grupo conta com cerca de 1,2 mil itens, entre bonecos e elementos cênicos. Aproximadamente 800 deles são bonecos personagens. De 600 a 700 já passaram por restauração e podem ser expostos ao público. Desses, cerca de 200 seguirão para Congonhas.
Bonecos de 'Música de brinquedo', show da banda Pato Fu, serão abrigados no Centro Cultural da Romaria Pato Fu/Divulgação
A seleção privilegiou espetáculos que já não integram o repertório em circulação: “Dango Balango”, “Pinóquio”, “20 mil léguas submarinas”, “Menino Beethoven”, “O pirotécnico Zacarias” e “Música de brinquedo”, show da banda Pato Fu.
“Também optamos por criar amostragem que recuperasse a produção das quase seis décadas do Giramundo”, ressalta Marcos Malafaia, um dos diretores do grupo.
A ideia é fazer algo semelhante à exposição “Ocupação Giramundo”, que ficou em cartaz no Palácio das Artes entre 2025 e 2026. “Tentamos ainda costurar um diálogo entre a história do Giramundo com a de Minas Gerais, unindo representações similares, são parentes”, acrescenta.
De acordo com Malafaia, há paralelos entre a obra de Álvaro Apocalypse (1937-2003), um dos fundadores do Giramundo, e a de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. “Elas existem por meio da escultura”, destaca.
Barroco Mineiro
Além disso, o grupo de teatro de bonecos teve como referência o Barroco Mineiro e a história da arte colonial brasileira. “(O grupo) não surge do nada. Ele nasce como desdobramento de forças da cultura de Minas Gerais por meio de artistas da Escola de Belas Artes da UFMG. Temos uma obra muito próxima do Barroco Mineiro”, diz.
A ideia de abrigar parte do acervo do Giramundo no Centro Cultural da Romaria partiu da prefeitura de Congonhas. Chegou em momento propício, quando a produção material do Giramundo estava começando a se perder por falta de conservação adequada. O grupo chegou a tentar manter museu próprio por duas vezes, mas não teve sucesso.
“Nós não conseguimos sensibilizar o poder público”, reclama Malafaia. Contudo, ele faz uma ressalva: o grupo nunca apresentou pedido formal aos governos municipal e estadual para implementação de projeto semelhante ao que será desenvolvido em Congonhas.
Ao longo dos anos, houve diálogo constante com os órgãos públicos e participação em editais e projetos específicos, mas jamais surgiu uma proposta voltada à preservação do acervo.
O Museu do Giramundo contará com cursos presenciais e on-line, palestras, festivais, atividades educativas e apresentações regulares do grupo. Isso vai permitir manter restauradores, marionetistas e educadores em atividade, além de garantir condições permanentes para conservação do acervo e formação de novos profissionais.
Apesar da transferência de parte da coleção, Belo Horizonte continuará sede do Giramundo. A intenção é abrir futuramente, na capital mineira, mostra permanente com os bonecos dos espetáculos em atividade. Entre eles, os personagens de “Cobra Norato”, “Os orixás”, “Alice” e “Pedro e o lobo”.
'Alice no País das Maravilhas' volta ao cartaz domingo (26/7), às 17h, no Cine Theatro Brasil, na Praça Sete Túlio Santos/EM/D.A Press
Alice no domingo
No próximo domingo (26/7), às 17h, o Giramundo apresenta “Alice no País das Maravilhas”, no Grande Teatro Unimed-BH do Cine Theatro Brasil (Praça Sete, Centro). Adaptação do clássico de Lewis Carroll, a peça narra a história da menina às voltas como universo fantástico habitado por personagens excêntricos em meio a situações absurdas.