De um lado, um assassino meticuloso e extremamente inteligente. Do outro, uma dupla de investigadores obstinada, auxiliada por um consultor que não faz parte da polícia. É um jogo de gato e rato típico dos romances policiais. No entanto, o que torna original “Cine killer” (Gutenberg), estreia literária do roteirista e crítico de cinema Renné França, é a cinefilia dos personagens. Todos os assassinatos reproduzem mortes icônicas da história do cinema.


Renné lança o romance neste sábado (18/7), a partir das 14h, na Livraria do Belas, em Belo Horizonte. Narrado em primeira pessoa por Pedro, um jornalista especializado em cinema, o livro acompanha a investigação de uma série de crimes inspirados em clássicos da sétima arte. A primeira vítima é justamente o crítico de cinema substituído pelo protagonista durante as férias no jornal em que trabalha.


Ao prestar depoimento à polícia, Pedro percebe um detalhe que passa despercebido pelos investigadores. O morto veste uma batina, numa referência à morte do Padre Karras em "O exorcista" (1973), de William Friedkin. A observação o transforma, inicialmente, em suspeito. Mas, depois de provar que estava longe da cena do crime, acaba assumindo o papel de consultor da investigação.


Não demora para que uma segunda morte revele que o assassino segue um método rigoroso. Inspirado em "O massacre da serra elétrica" (1974), de Tobe Hooper, o crime confirma que o serial killer recria cenas célebres do cinema e obedece a uma lógica própria. Aos poucos, Pedro percebe que as referências obedecem à ordem cronológica de lançamento dos filmes, pista que passa a orientar a caçada ao criminoso.


Pecados capitais

“Cine killer” nasceu da combinação de duas paixões do autor – o cinema e os romances policiais. "Durante muito tempo, eu queria ver um filme parecido com 'Seven – Os sete pecados capitais', só que usando mortes de personagens famosos do cinema no lugar dos pecados capitais. Como ninguém tinha feito isso, resolvi escrever", conta Renné.


Professor de cinema no Instituto Federal de Goiás, ex-crítico e roteirista, ele decidiu narrar a história em primeira pessoa para aproximar literatura e cinefilia. Fez referência a “O iluminado” (1980), de Stanley Kubrick; “Encarnação do demônio” (2008), de José Mojica Marins, o Zé do Caixão; e “Psicose” (1960), de Hitchcock; e até a produções de fora do terror e do suspense, como “Monsieur Verdoux” (1947), de Charlie Chaplin; e “Fale com ela” (2002), do espanhol Pedro Almodóvar.


“Resolvi fazer um pastiche dos romances do Raymond Chandler. Assim, eu poderia usar umas figuras de linguagem de cinéfilo para brincar com as coisas”, diz. “Por exemplo, o Raymond Chandler falava umas coisas do tipo ‘ela cheirava como Taj Mahal à noite’. Aí resolvi escrever ‘o café tinha gosto do Michael Haneke’ justamente para brincar com essas coisas”, acrescenta.


As implicações dos crimes também foram resultado de um longo processo de construção. Inicialmente, Renné pretendia apenas escolher as mortes mais marcantes da história do cinema. Mas logo percebeu que o assassino precisava seguir regras claras.


“Se ele não tivesse um padrão, o leitor nunca teria chance de descobrir o que estava acontecendo. A cronologia dos filmes acabou sendo uma forma de organizar tanto o raciocínio do serial killer quanto o meu como autor”, comenta.


A elaboração do mistério passou, inclusive, por uma mudança importante durante a escrita. Depois de concluir metade do romance, Renné entregou o original para a esposa, também escritora e jornalista. Ela descobriu rapidamente quem era o assassino.


“Resolvi aproveitar isso a meu favor. Mantive todas as pistas que a levaram a desconfiar daquele personagem, mas troquei o assassino. Depois voltei ao texto para fazer tudo continuar fazendo sentido”, conta Renné.


Embora o romance tenha levado 40 dias aproximadamente para ser escrito, a ideia vinha sendo amadurecida há anos. O processo de publicação, por outro lado, exigiu paciência. Escrito em 2024, o livro chegou às livrarias apenas agora, depois de passar por editoras, revisões e pelo trabalho editorial.


As semelhanças entre autor e protagonista não são coincidência. Assim como Pedro, Renné foi crítico de cinema e viveu em São Paulo. A rotina das exibições de filmes para a imprensa, as discussões sobre produções e até parte das reflexões sobre teoria cinematográfica nasceram da própria experiência do escritor. Ainda assim, ele faz questão de dizer que o personagem não é um alter ego.


Só um personagem, aliás, foi inspirado em pessoa real. “O crítico que Pedro substitui foi pensado como se fosse o Rubens Ewald Filho”, Renné revela, aos risos.


Oficina de cinema

Ainda neste sábado (18/7), às 11h, Renné ministra a oficina “Criação de mundos fantásticos na literatura e no cinema”, na Livraria Aletria (Rua Cláudio Manoel, 1.034, Savassi). Na sequência, a partir das 10h, ele lança o livro infanto-juvenil “Onde morre o vento”, vencedor do Prêmio Barco a Vapor 2025. A história se passa durante o Ciclo do Ouro, no período em que a mineração estava se encerrando em Minas Gerais e começando em Goiás. Na trama, uma menina de 14 anos sai em busca de ouro para salvar sua família de uma dívida com um credor perigoso. Entrada franca. Mais informações: (31) 3296-7903.

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“CINE KILLER”
• De Renné França
• Editora Gutenberg
• 224 páginas
• R$ 59,80 (livro físico) e R$ 41,90 (e-book).
• Sessão de autógrafos neste sábado (18/7), às 14h, na Livraria do Belas (Rua Gonçalves Dias, 1.581, Lourdes).

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