Em 1940, o pintor, desenhista e arquiteto ítalo-brasileiro Paulo Rossi Ozir fundou, em São Paulo, a fábrica de azulejos Osirarte. O objetivo era produzir os azulejos desenhados por Candido Portinari para o futuro Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Diante dos atrasos constantes da obra, ele convidou artistas para pintarem painéis decorativos. Um dos mais prolíficos foi Alfredo Volpi.
Painel de azulejos feito por Volpi, em 1940, sob encomenda do arquiteto ítalo-brasileiro Paulo Rossi Ozirz
Dois pequenos painéis de azulejos figurativos com motivos da vida cotidiana se destacam entre a centena de obras de arte que compõem a exposição “Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade”, que será aberta nesta terça-feira (7/7), na Casa Fiat de Cultura. Os exemplares são uma rara oportunidade de ver Volpi fora do abstracionismo que o consagrou (a mostra traz também uma tela da década de 1980 com os motivos gráficos e as famosas bandeirinhas do artista).
Tal história, contada pelo curador Yuri Quevedo, traduz a maneira como foi concebida a exposição. Pela primeira vez desde 2014, quando a Casa Fiat se mudou para o antigo Palácio dos Despachos, uma só mostra vai ocupar todos os espaços do local – incluindo os jardins internos.
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A exposição foi criada para comemorar os 20 anos da Casa Fiat e as cinco décadas da chegada da Fiat ao Brasil – com a criação da fábrica em Betim, a maior unidade industrial da montadora no mundo. A iniciativa extrapola o caráter institucional puro e simples.
“Olhei como se deu a relação entre indústria e arte ao longo de muitos anos no Brasil. O (Pietro Maria) Bardi, curador-chefe do MASP, era também curador dos estandes da Olivetti. Ele tinha uma prática de indústria e colaboração entre os artistas. Construía, por exemplo, estandes com pinturas de artistas concretos e máquinas de escrever. Isso é baseado na ideia de design, um ponto disparador para os artistas”, afirma Quevedo.
A exposição, que reúne 250 peças, entre obras de arte, instalações, modelos de carros e looks de moda, foi obra de quatro curadores: Peter Fassbender, vice-presidente da Stellantis e chefe do Design Center LATAM; Marcos Rozen, fundador do Museu da Imprensa Automotiva (MIAU), produtora de moda Mercedes Tristão e Quevedo, curador do acervo da Pinacoteca de São Paulo.
“Esses 50 anos não são sobre marcos da indústria, mas sobre uma ideia de experiência que a indústria traz para os artistas”, prossegue Quevedo. Tomando o automóvel como eixo central da vida do brasileiro, a exposição se desmembra em temas como o carnaval, o futebol, a cidade, a moda e a religiosidade. “A tradição quase secular de fundir arte e indústria no Brasil vem muito a reboque da imigração italiana. Museus como o MASP, o MAM de São Paulo e o do Rio são constituídos a partir de uma experiência italiana industrial”, lembra Quevedo.
Uma maquete da antiga fábrica Lingotto, em Turim, inaugurada em 1923 pela Fiat, abre a exposição. Foi inovador, com uma pista de testes no telhado. “Criada entre as duas guerras mundiais, foi a primeira transformação da Fiat de organização artesanal para uma indústria verdadeira”, comenta Massivo Cavallo, presidente da Casa Fiat.
Deste ponto de partida, chega-se ao eixo histórico da mostra. Instalação criada para a exposição reúne cones alaranjados de sinalização no trânsito postados na horizontal. Os objetos se tornaram monóculos, com imagens históricas de Belo Horizonte e da fundação da Fiat em Betim (13 fotografias pertencem ao acervo do Estado de Minas).
O eixo traça uma relação entre a construção de Brasília (vista em fotos de Marcel Gautherot), em um rincão no cerrado, e a montadora em Betim (registrada pelo Studio Cerri). “É uma inovação trazer uma indústria automobilística para longe dos portos”, afirma Quevedo. A Capital Federal, vale dizer, foi inaugurada em 1960 por Juscelino Kubitschek (morto em agosto de 1976, ele é visto em muitas imagens) com uma corrida de carros.
Um dos destaques do eixo industrial é um grande painel de 1962 de Djanira, criado para um navio da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. “Ela é uma das únicas brasileiras que representou a indústria automobilística”, comenta o curador. Outra obra de grande dimensão, a tela “Carvão e sanguínea” (1984), de Yara Tupinambá, ocupa a mesma sala. “É uma experiência mais expressiva, onde a gente consegue sentir o calor de uma siderurgia.”
Outros grandes nomes da exposição são Tarsila do Amaral, Beatriz Milhazes, Lorenzato, Guignard, Di Cavalcanti. O curador comenta que se interessa pela “aproximação de diferentes”. Uma sala da exposição abriga duas telas produzidas com carrinhos em miniatura na fase final da carreira do paulistano Nelson Leirner (um deles uma releitura de Mondrian).
Logo em frente estão esculturas (grandes prédios em madeira) de Gilberto Filho. “É um artista de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, uma cidade como Tiradentes, que vem de uma família de marceneiros. Ele nunca viu prédios como esses. Recolhe as madeiras de lei de casas coloniais que estão em escombros. Neste trabalho, a gente percebe como a indústria e a construção entram na mente das pessoas como uma possibilidade de sonho e progresso”, diz Quevedo.
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“CELEBRAR AS RUAS: 50 ANOS DE FIAT E BRASILIDADE NA CASA FIAT DE CULTURA”
A exposição será aberta para o público nesta terça (7/7), às 10h, na Casa Fiat (Praça da Liberdade, 10, Funcionários). Visitação de terça a sexta, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca. Até 11/10. Mais informações no site da Casa Fiat.
