ARTES VISUAIS

Obra monumental de Jorge dos Anjos homenageia, em SP, o Rio São Francisco

Exposição 'Riscadura do fogo', em cartaz até agosto no Sesc Pompeia, oferece amplo panorama de mais de 50 anos de atividades do artista mineiro

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O imenso portal inspirado no Rio São Francisco se destaca no Sesc Pompeia, em São Paulo. A criação do artista Jorge dos Anjos é só uma das preciosidades da exposição “Riscadura do fogo”, em cartaz até agosto, amplo panorama dos mais de 50 anos da obra deste mineiro, com pinturas, desenhos, esculturas e vídeos, além de trabalhos criados especialmente para o espaço paulistano.É o caso da instalação “Sem título”, com três metros e meio de altura, feita com chapas de aço cortadas e montadas.

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Instalada sobre espelho d'água, esta obra tem ligação estreita com Belo Horizonte, cidade onde mora o artista ouro-pretano. Dialoga com o “Portal da memória” que emoldura Iemanjá, instalado em 2007 na Lagoa da Pampulha. Trazendo símbolos que prestam tributo aos orixás, este portal é marco da cultura afromineira.

 Portal da memória, feito em ferro e com elementos africanos, por Jorge dos Anjos, está instalado na Lagoa da Pampulha e emoldura escultura de Iemanjá
'Portal da memória' abriga Iemanjá na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e dialoga com instalação de Jorge dos Anjos exposta em São Paulo, que homenageia o Rio São Francisco Irena dos Anjos/Instagram

No Sesc Pompeia, a instalação dedicada ao Velho Chico interage com o espaço criado por Lina Bo Bardi (1914-2022), arquiteta que apostou na "aliança" entre o modernismo e a cultura popular brasileira.

De acordo com o material de apresentação da mostra, a instalação de Jorge remete ao simbolismo da travessia, “ponto de chegada e abertura para novos percursos”, entre eles a arquitetura de Lina.

“Jorge dos Anjos desenvolveu uma gramática visual própria, marcada pela relação entre matéria, gesto e memória. Sua produção revela um percurso contínuo de experimentação, no qual cada trabalho se conecta a investigações anteriores sem perder autonomia”, afirma Lucas Menezes, curador de “Riscadura do fogo” e também curador-assistente do Instituto Inhotim.

A pesquisa de “Riscadura” é assinada por Lorraine Mendes, professora, pesquisadora e curadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo. O projeto expográfico de Tiago Guimarães estimula o contato direto do público com o universo de Jorge dos Anjos.

Escala original

Há várias esculturas em grande escala no Sesc Pompeia. “Aqui esta obra, de fato, se realizou”, resumiu Jorge. Nos anos 1980/1990, elas foram criadas em pequenas dimensões, cerca de 30cm, 40cm, porque o artista não tinha condições de produzi-las na escala em que as imaginou. Ele recuperou os desenhos e as recriou para a mostra “Riscadura do fogo”.

“A escultura é o eixo estruturante da produção do artista, marcada pelo trabalho com ferro, aço, pedra-sabão e madeira. A exposição também apresenta pinturas, desenhos e registros em vídeo que revelam diferentes momentos de sua pesquisa. Muitos trabalhos partem de procedimentos construtivos diretos, nos quais o fogo atua como agente de transformação da matéria. Esse elemento, recorrente na produção do artista, também orienta a identidade visual da exposição, associada a tonalidades de vermelho alaranjado”, explica o material de apresentação da mostra.

Esculturas de Jorge dos Anjos em grandes dimensões expostas no Sesc Pompeia, em São Paulo. Nos anos 1980, as obras tinham cerca de 40cm, devido à falta de condições do artista de realizá-las nas escala original
Esculturas de Jorge dos Anjos em grandes dimensões expostas no Sesc Pompeia, em São Paulo. Nos anos 1980, as obras tinham cerca de 40cm, devido à falta de condições do artista de realizá-las nas escala original Sesc/reprodução

A pesquisa de Lorraine Mendes destaca a presença de referências culturais afro-brasileiras na obra do artista mineiro, e a maneira como elas se transformam em linguagem visual. 

Pintor, escultor e desenhista, o ouro-pretano Jorge dos Anjos tem 69 anos. Estudou na Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), foi aluno de Amilcar de Castro, Nello Nuno e Anna Amélia. Trabalhos dele integram coleções do Instituto Inhotim e da Pinacoteca de São Paulo, entre outras instituições.

Esculturas, pinturas e monumentos criados por Jorge destacam a ancestralidade africana do Brasil. Obras dele podem ser vistas em vários espaços públicos de BH, como Lagoa da Pampulha, Bairro Santa Efigênia, Aglomerado da Serra e Praça da Estação (no Centro de Referência das Juventudes).

Trilhas da africanidade

“Suas esculturas, espalhadas pelas trilhas de Belo Horizonte, são marcadores de africanidade. Elas nos fazem olhar a história a partir de outra cosmopercepção, orientando nosso repertório sobre o lugar. Deveríamos, inclusive, contar com circuitos turísticos com propostas educativas e culturais dedicadas especialmente às esculturas de Jorge dos Anjos”, defendeu Carolina Ruoso, professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, em artigo publicado no Estado de Minas em 2025, quando a UFMG concedeu a Jorge o diploma de doutorado por notório saber.

A obra do mineiro também está presente no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro; nos campus da USP e Unicamp, em São Paulo; e no Penn Museum, na Philadelphia (EUA), entre outros espaços.

Em tempo: no dia 30 de abril de 2027, Jorge dos Anjos vai completar 70 anos. Seria um presentão para ele e para BH realizar na cidade exposição para comemorar sua importante trajetória nas artes visuais do Brasil. A festa já começou no Sesc Pompeia, em São Paulo, e agora cabe aos mineiros encerrá-la em grande estilo. 

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 Pinturas com signos africanos em cortes fortes, como vermelho azul e laranja, de Jorge dos Anjos, exposta no Sesc Pompeia, em São Paulo
Pinturas de Jorge dos Anjos na exposição 'Riscadura do fogo', no Sesc Pompeia, em São Paulo Sesc/reprodução

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