Imagine seguir, no século 21, as andanças do jagunço Riobaldo, de “Grande Sertão: Veredas”, e descobrir que muitos povoados mudaram de nome, fazendas foram tomadas pelo agronegócio e diversas comunidades retratadas no romance nem sequer conhecem a obra que te fez dedicar 40 anos a pesquisá-la.
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Esta foi a experiência do engenheiro químico mineiro Paulo Salles, que dedicou décadas à investigação dos topônimos citados no clássico da literatura brasileira. A saga do autor e pesquisador está no livro “Anatomia do Grande Sertão – Uma leitura geográfica do ‘Grande Sertão: Veredas’”, que será lançado na 38ª Semana Rosiana, cuja programação vai deste domingo (5/7) a sábado (11/7), em Cordisburgo, cidade natal de Guimarães Rosa.
Brejo dos Mártires Paulo Salles/Divulgação
Precisão
O evento celebra os 70 anos do romance “Grande Sertão: Veredas” e do livro de novelas “Corpo de baile”. Curiosamente, é a mesma idade que Paulo completa em 2026. O autor leu o romance pela primeira vez aos 17 e se impressionou com os relatos precisos dos locais onde se passa a trama.
“Vi a preocupação que Guimarães Rosa teve. Ele descreve a paisagem em detalhes, com precisão que não é acidental. A descrição está muito ligada à maneira como os personagens transitam e como o meio físico determina as características dos personagens”, conta Paulo Salles.
Igreja de pedra de Guaicuí Paulo Salles/Divulgação
O romance menciona cerca de 438 topônimos, mas deixa dúvidas sobre algumas identificações, permitindo ao leitor se questionar se fazem referência a rios, povoados, serras ou regiões. Além disso, a própria existência daquelas paisagens entra em questão, segundo o pesquisador.
Paulo Salles consultou mapas, documentos históricos e relatos de viajantes, catalogando os deslocamentos de Riobaldo. Conseguiu identificar cerca de um terço do conjunto e concluiu que alguns locais foram inventados por Guimarães Rosa.
Entre 2023 e 2025, Paulo, já aposentado da engenharia, realizou sete expedições por Minas , Bahia e Goiás, percorrendo cerca de 15 mil quilômetros para seguir o trajeto de Riobaldo.
Na primeira parte do livro, dividido em três seções, está o relato da investigação e a metodologia utilizada para identificar os lugares. “Os nomes escritos no ‘Grande Sertão: Veredas’ são como o Riobaldo fala, mas não são necessariamente os nomes oficiais dos locais”, diz Paulo Salles.
O percurso teve oito etapas. Ele seguiu os fatos narrados, não a ordem do romance. “A narrativa, como é de memória, não é linear. O caminho que Riobaldo faz é até caótico. Ele vai em andanças por uma região muito grande. Às vezes perseguindo, às vezes sendo perseguido, às vezes perdido no sertão”, explica.
Grão Mogol Paulo Salles/Divulgação
O trajeto de Salles começou em Os Alegres, atualmente cidade de João Pinheiro, onde Riobaldo nasceu. Seguiu até a barra do Rio de Janeiro, afluente do São Francisco, para onde ele se mudou com a mãe. “Fui traçando o percurso da vida do Riobaldo ao longo do deslocamento dele no espaço”, resume o autor.
O baixio da Sirga, onde Riobaldo vai morar com a mãe, foi identificado por Paulo como o povoado chamado Silga. “O mineiro faz a troca entre o ‘l’ e o ‘r’, então acaba falando ‘Sirga’”, explica. Já o Brejo das Almas hoje é a cidade de Francisco Sá.
Os mapas dos oito trajetos seguidos por Paulo compõem a segunda parte do livro, acompanhados de relatos das expedições e fotografias.
Casarão de João Pinheiro, antiga Os Alegres, lugarejo onde Riobaldo nasceu Paulo Salles/divulgação
A terceira seção apresenta glossário com os 438 topônimos listados em ordem alfabética, indicando a categoria em que se encaixam (córregos, serras ou povoados), o trecho que aparece no romance, o mapa utilizado para a identificação e as coordenadas geográficas para quem quiser visitar os locais.
Salles se surpreendeu ao constatar que grande parte da população local desconhece “Grande Sertão: Veredas”. “É um romance grandioso, no qual o espaço físico tem importância fundamental, mas isso não chega à população. Às vezes, perguntava e uma ou outra pessoa se lembrava da minissérie da Globo”, revela.
Porto Passarinho/Rio Abaeté Paulo Salles/Divulgação
“Me causa tristeza a distância tão grande entre a importância de tudo isso para o meio intelectualizado e o desconhecimento local. Seria muito importante para a população saber que aquela sua região tem um significado na cultura brasileira”, defende Paulo Salles.
A agenda da Semana Rosiana inclui exposições, saraus, sessões de cinema e apresentações do Grupo Miguilim, em Cordisburgo. Entre os destaques estão o lançamento da biografia “João Guimarães Rosa”, de Leonencio Nossa, e a exposição de placas pintadas do artista cordisburguense Brasinha. A programação está disponível no site da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult).
“ANATOMIA DO GRANDE SERTÃO – UMA LEITURA GEOGRÁFICA DO ‘GRANDE SERTÃO: VEREDAS’”
• Livro de Paulo Guimarães Salles • Editora Artlivros • 344 páginas • R$ 150 • Lançamento na Semana Rosiana. Quarta-feira (8/7), às 11h, no Centro de Atendimento ao Turista de Cordisburgo (Av. Padre João, 407, Centro)