CINEMA

Saiba o que especialistas na ‘Odisseia’ pensam sobre o filme de Nolan

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Quantas maneiras existem para contar uma história? Este é o cerne do debate em torno do filme “A Odisseia”. Ninguém discute o impacto do espetáculo de três horas rodado em câmeras IMAX, tampouco o interesse renovado para o livro – “Odisseia” está na lista dos 10 mais vendidos.

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Acontecimento cinematográfico do ano, com US$ 700 milhões de bilheteria após duas semanas em cartaz, a adaptação de Christopher Nolan do poema épico de Homero, com o herói Odisseu (ou Ulisses) tem defensores e detratores. Com a palavra, quem entende do riscado.




Jacyntho Lins Brandão



Professor aposentado de Língua e Literatura Grega da UFMG e atual presidente da Academia Mineira de Letras, Jacyntho Lins Brandão aprovou a versão de Nolan. “De todas as ‘Odisseias’ que assisti anteriormente, e foram várias, essa foi a que mais gostei.”




Ele começa sua defesa falando da própria origem da narrativa. “Da época em que o poema foi escrito, por volta de 700 a.C., para a época em que aconteceu a Guerra de Troia, por volta de 1000 a.C., você tem 300 anos. Na Grécia, não existia escrita, então essa história foi contada oralmente durante esse período. Ou seja, (o poema) é a versão de Homero”, acrescenta.




Brandão gostou do fato de Nolan ter realizado um filme não linear, seguindo a estrutura do poema. “O poema não é cronológico, começa no final das coisas. Do nono canto até o 12º, o poeta inclui a narrativa do Ulisses em que ele volta no final da Guerra de Troia. É uma estrutura muito sofisticada. Aristóteles disse que Homero tinha sido sensacional, pois ele não começou a contar a história do dia em que Ulisses nasceu. Na verdade, dentro de uma história que dura 40 dias, ele insere 20 anos.”




A linguagem contemporânea é outro destaque. “Quando Ulisses enfrenta os perigos da viagem, um deles é o chamado Cila. O poema não diz o que é, fala das ondas revoltas, como um redemoinho. Isto foi muito bem feito no filme, tanto que o diretor está conseguindo botar uma meninada que não consegue prestar atenção em nada por mais de 15 minutos, assistindo a um filme de três horas.”




Para Brandão, o filme não doura a guerra, apresentada como uma coisa abominável. “Ele mostrou também um valor grego importante: você sempre trata bem os hóspedes, dá comida, banho, e só depois pergunta quem é. Essa norma grega vem de Zeus. Na época que vivemos, com tantos problemas com migrantes, o diretor sacou uma mensagem importante do poema.”




Um dos personagens do poema que Brandão gostaria de ter visto no filme é Aquiles. “Quando Ulisses vai até o mundo dos mortos, uma das almas é a de Aquiles, o herói dos heróis. Ele diz para Ulisses que preferia ser o último escravo numa fazenda qualquer do que o príncipe dos mortos. Ou seja, alguém que foi um super-herói, no final da vida tem o mesmo destino que qualquer pessoa. Isto poderia ter sido aproveitado no filme.”




André Malta



Uma coisa é um filme como entretenimento. Outra é a adaptação de um dos poemas mais importantes da literatura universal. Professor de Língua e Literatura Grega da USP que traduziu cantos da “Ilíada” e da “Odisseia” para o livro “Homero portátil” (Edusp, 2024), André Malta faz esta distinção em sua análise.





“Entendo que quem não tenha nenhum conhecimento da poesia do Homero possa ficar impactado. Tem grandiosidade e uma escala que está super de acordo com a poesia da época. É ainda um filme visualmente bonito, que conseguiu tirar a visão da mitologia dessa coisa meio infantojuvenil de sandália com túnica branca”, afirma Malta.




Feitas tais considerações, ele afirma que Nolan não entendeu os personagens, tampouco a essência do poema. “Elementos essenciais ele jogou fora. Fiquei espantado quando soube que ele foi o único roteirista. Se você pegar os melhores homeristas do planeta, ainda assim seria difícil fazer um roteiro. É muita arrogância.”




O maior pecado cometido por Nolan, na opinião de Malta, foi anular a astúcia de Odisseu. “Ele é traumatizado, drogado pela Calipso. Você está falando do protagonista, e perder a dimensão do personagem é inexplicável. O cinema hollywoodiano trabalha com um tipo semelhante ao que é o Odisseu homérico: a figura do herói, superinteligente, que consegue se safar das situações, que vê tudo antes de todo mundo. Ou seja, este é o lugar do cinema onde o protagonista de Homero pode ser um super-herói.”




Malta prossegue dizendo que é a favor de atualizações e transformações. Mas, na opinião dele, coisas fundamentais do poema ficaram de fora. “As aventuras de Odisseu trazem algumas das passagens mais famosas do poema, com lugares e seres extraordinários. Enfim, não daria para colocar tudo, mas Nolan cortou mal. Cada um dos episódios, bem desenvolvidos por Homero, ficou empilhado no filme, perdeu a profundidade.”




Um dos exemplos citados por ele é a passagem no mundo dos mortos. Assim como Brandão, ele também comenta sobre a ausência de Aquiles. “É uma passagem superfamosa. Acho que foi falta de sensibilidade dele, tanto para os diálogos quanto para o desenvolvimento das personagens. Se eu nunca tivesse lido Homero, teria tido uma visão impactante como experiência na sala de cinema. Mas, como cinema, falta muita coisa para uma boa adaptação.”




Curso em BH



A Academia Mineira de Letras promove, a partir de 25 de agosto, o curso “A Odisseia de Homero: leitura comentada”, ministrado por Jacyntho Lins Brandão. Serão sete aulas, sempre às terças, até 6 de outubro. Mais informações estarão disponíveis em breve no site amlcursos.org.




Para ler “Odisseia”



• Editora 34 (2011)
Edição bilíngue com tradução, posfácio e notas de Trajano Vieira e ensaio de Italo Calvino. Venceu o Jabuti na categoria de tradução em 2012.




• Companhia das Letras (2023)
Tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço. A mesma tradução está disponível numa edição da Penguin-Companhia.




• Ubu (2023)
Tradução e introdução de Christian Werner, posfácio de Luiz Alfredo Garcia-Roza e texto de Franz Kafka.

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