CINEMA

Carolina Dieckmann é mãe que se reinventa em ‘Pequenas criaturas’

Longa de Anne Pinheiro Guimarães acompanha mulher que se muda com a família para Brasília no início da redemocratização do país e se vê sozinha com os filhos

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“Sou bem facinha para mudanças”, diz Carolina Dieckmann, ao surgir de franjinha em entrevista por Zoom para falar sobre “Pequenas criaturas”, filme de Anne Pinheiro Guimarães que chegou nesta semana aos cinemas. A atriz, que interpreta a protagonista do longa, havia escurecido os cabelos no início do ano para interpretar Diná no remake de “A viagem”.

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Não há quem duvide da capacidade de Carolina de se transformar para viver uma personagem. Foi como Camila, de “Laços de família”, jovem que enfrentava um câncer que a atriz raspou a cabeça diante das câmeras, no que se tornou uma cena clássica da teledramaturgia nacional.


Na entrevista ao Estado de Minas, ela disse que gosta de experimentar novas versões de si, embora nem sempre aprove o resultado. “Amo mudar o visual para os personagens, mas também sei como eu me gosto. Eu me odiei morena de cabelo curto. Eu odiei. Aí depois tirei o escuro, fiquei loira de cabelo curto, também odiei”, conta.


A franjinha veio por causa de “Pequenas criaturas”. A atriz aproveitou a divulgação do longa para recuperar o visual da protagonista Helena. “Estou superfeliz. Eu amava o visual da Helena e copiei”, brinca.


O filme se passa em Brasília no ano de 1986, durante o processo de redemocratização do Brasil. Helena e os filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) se mudam para a Capital Federal por causa do trabalho do marido dela, Luiz (Michel Melamed). Pouco depois da mudança, ele parte para uma viagem de negócios sem previsão de retorno, deixando a família sozinha em uma cidade desconhecida.


Prêmio

O longa venceu o Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio do ano passado e também garantiu a Claudia Andrade o prêmio de Melhor Direção de Arte. Mãe de Davi, de 27 anos, e de José, de 18, Carolina conta que trabalhar com Lorenzo Mello despertou lembranças da maternidade. “O Lorenzo é muito parecido com o Davi quando era pequeno. Esse tipo de criança de cachos dourados, olho muito azul... Ele é muito parecido com o Davi pequeno”, comenta.


Para ela, a presença das crianças trouxe outra energia para as gravações. “Estar no set com crianças é muito diferente. Traz uma leveza. Você fica atenta às coisas frescas que um ator no começo tem”, diz.


“Isso dá um brilho para o set. Não era só a lembrança dos meus filhos, mas ver outras crianças trazendo essa curiosidade sobre a vida. O jeito que uma criança pergunta é muito bonito, muito puro”, comenta.


Para viver Helena, Carolina Dieckmann passou por mudanças que foram além do corte de cabelo. Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, ela revelou que fez 40 dias de jejum intermitente para emagrecer para a personagem. Durante esse período, fazia apenas uma refeição por dia, sempre à noite, e recorria à água com sal para evitar quedas de pressão.


A atriz também precisou aprender a fumar para viver a personagem. Ela, que nunca teve o hábito de fumar, passou boa parte das filmagens com um cigarro cenográfico na boca. “Só Deus sabe o sacrifício que foi ficar com esse cigarro de alface na boca durante todos os dias da filmagem”, escreveu nas redes sociais.


Helena fala pouco. Grande parte do que sente transparece no olhar, o que exigiu de Carolina um trabalho de muita concentração durante as filmagens. “Quando é no silêncio, quando é dentro do seu olho, você precisa ter muita coisa guardada. No cinema tudo é ampliado”, diz. Ela diz que passou as filmagens observando de perto a diretora Anne Pinheiro Guimarães para entender o tom de cada cena.


Maternidade

Anne Pinheiro Guimarães começou a escrever “Pequenas criaturas” depois do nascimento da primeira filha. A maternidade fez a diretora olhar para a própria mãe de outra forma. “Comecei a pensar nela pela primeira vez como uma mulher, não só como minha mãe. Ela já tinha morrido, então muita coisa é imaginação. Fiquei pensando como foi viver aquilo”, afirma.


Dessa reflexão nasceu Helena, personagem que chega a Brasília tentando encontrar seu lugar em uma cidade desconhecida. Para a diretora, o filme fala sobre recomeços e o momento em que uma mulher tenta recuperar a própria identidade depois da maternidade. “É uma história sobre chegada. Como você entende os códigos de um lugar, faz amigos, cria uma vida”, resume.


A escolha de ambientar a trama em 1986 também foi pensada para acompanhar esse percurso. Embora o filme não trate de política, a diretora viu no primeiro ano da redemocratização um paralelo com a protagonista. “Era um limbo. Você passou pela ditadura e, de repente, tem toda aquela liberdade. O que você vai fazer com ela agora? Era esse o estado emocional da Helena”, diz Anne.


A Brasília que aparece na tela também ajuda a contar essa história. Como boa parte da arquitetura da cidade permanece preservada, a equipe buscou enquadramentos que destacassem a amplitude e o vazio da capital, ainda pouco ocupada naquela época.


Autora do roteiro, Anne diz que chegou às filmagens com o longa inteiro na cabeça. Sabia os diálogos de cor e queria manter o texto como havia escrito. “Era importante que as palavras fossem ditas daquele jeito. A secura do texto reflete a sensação do filme e das relações entre aquelas personagens”, diz.

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“PEQUENAS CRIATURAS”
(Brasil, 2026, 106 minutos). Direção: Anne Pinheiro Guimarães. Com Carolina Dieckmann, Théo Medon, Lorenzo Mello e Michel Melamed. Em cartaz no Cidade 3 (14h10 e 18h35, exceto quarta, que tem sessão às 13h15) e no Cine Belas Artes (Sala 2, 14h30 e 18h30).

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