Festival Mineiro de Arte Surda expande o alcance da acessibilidade
Segunda edição do evento será realizada neste fim de semana, no CCBB-BH, com mostra visual, debate, oficina, peças e batalha de slam em Libras
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Neste fim de semana, o CCBB BH recebe a segunda edição do Festival Mineiro de Arte Surda, dedicado à valorização da produção artística da comunidade surda. Com programação gratuita, o evento será realizado de sexta-feira a domingo (3 a 5/7), no Teatro II, reunindo espetáculos, oficinas, mesa de debate, batalha de slam em Libras e mostra visual.
O festival é idealizado por Dinalva Andrade, pessoa ouvinte, atriz e intérprete de Libras. “O desejo de criar o festival vem com a proposta do diálogo, reunindo artistas surdos e pessoas interessadas em arte e em língua de sinais. Queremos unir pessoas discutindo e entendendo quais são as várias possibilidades de criação artística para a comunidade surda”, diz Dinalva.
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Ela conta que percebeu a necessidade de ampliar as iniciativas de acessibilidade, especialmente no teatro, durante a graduação em teatro pela UFMG, iniciada em 2011. Na época, ainda não existia a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, assinada em 2015.
“Quando comecei a graduação, passei a me interessar e aprofundar o conhecimento em língua de sinais e percebi que os espetáculos não tinham acessibilidade. Havia uma comunidade com interesse no teatro, mas não tinha acessibilidade”, relembra.
A partir dessa constatação, desenvolveu pesquisa sobre como ensinar teatro para pessoas surdas. Além disso, investigou a criação de espetáculos concebidos para serem acessíveis desde a origem, com os recursos de acessibilidade integrados à própria cena.
Distância no palco
“Percebi que, pela distância com que o intérprete era colocado no palco, as pessoas surdas tinham de escolher entre assistir ao tradutor ou ao espetáculo”, explica.
Como resultado dessas pesquisas, Dinalva criou o BH em Libras, projeto que promove cursos de teatro, contação de histórias e música em Libras.
Também fundou a Cia de Teatro BH em Libras, que, desde 2015, desenvolve espetáculos acessíveis desde a concepção, incorporando Libras, pantomima e audiodescrição à linguagem cênica.
Em 2023, ela realizou a primeira edição do Festival Mineiro de Arte Surda. Desde então, Dinalva e equipe passaram a planejar a continuidade do projeto, incluindo a criação de dois espetáculos para a programação do evento.
O primeiro é “Circo surdo”, lançado exclusivamente no festival. Interpretado por Dinalva e pela atriz surda Maria Emília Santana, acompanha duas palhaças que apresentam um circo ao vivo sem utilizar nenhum objeto.
“Elas convidam a plateia a imaginar esse circo com tudo o que poderia ter, mas, na verdade, a gente descobre ser um circo de ilusão que elas constroem”, afirma Dinalva. A montagem reúne elementos da palhaçaria e de pantomima, modalidade teatral baseada na linguagem gestual e nas expressões faciais.
Outro destaque da programação é “Corpo, preto, surdo: Nós estamos aqui”, da Cia. de Teatro BH em Libras e lançado em 2024. No palco, o artista ouvinte Marcos Andrade e a atriz surda Jaqueline Gonçalves abordam a experiência de pessoas negras e surdas, explorando questões de identidade, representatividade, ancestralidade e resistência.
Jaqueline conta que incorporou ao espetáculo diversos elementos de sua trajetória pessoal. “Já enfrentei muitos desafios para ocupar espaços e ser compreendida. Muitas emoções que aparecem no espetáculo vêm daquilo que vivi e continuo vivendo. Interpretar essa obra também é uma forma de afirmar que pessoas negras surdas existem, têm voz, cultura e muitas histórias para contar”, comenta.
O espetáculo combina performance física e Libras. Para Jaqueline, é essencial que esses elementos integrem a criação desde o início. “Durante muito tempo, as pessoas surdas ficaram de fora dos processos de criação. Muitas vezes havia acessibilidade, mas não protagonismo. Neste espetáculo, a Libras não é uma tradução, mas a própria linguagem artística da obra. Isso muda tudo”, defende.
A atriz comemora a oportunidade de apresentar ao público as múltiplas possibilidades da produção artística surda.
“O festival mostra que artistas surdos produzem teatro, dança, poesia, artes visuais e tantas outras linguagens com qualidade e criatividade. Espero que o público saia do festival entendendo que a arte surda não tem limites e que precisamos de mais espaços para criar, pesquisar e apresentar nossos trabalhos”, afirma.
Além dos espetáculos, a programação inclui mostra visual com obras do artista surdo Tikinho, na entrada do Teatro II do CCBB-BH.
O público pode participar do debate “Arte surda - Avanços e perspectivas”, sobre as conquistas e os desafios da arte surda no Brasil, e da oficina de teatro para pessoas surdas, ministrada por Dinalva Andrade.
No encerramento, haverá batalha de slam em Libras, competição de poesia visual e sinalizada aberta à participação da comunidade.
PROGRAMAÇÃO
Sexta (3/7)
19h30: Abertura
20h: Debate “Arte surda - Avanços e perspectivas”
Sábado (4/7)
10h30: Oficina de teatro para pessoas surdas
17h: Espetáculo “Circo surdo” + bate-papo
19h30: Espetáculo “Corpo, preto, surdo: Nós estamos aqui” + bate-papo
Domingo (5/7)
10h30: Batalha de slam em Libras
Atividade contínua
Mostra visual de arte surda com obras de Tikinho
II FESTIVAL MINEIRO DE ARTE SURDA
Desta sexta (3/7) a domingo (5/7), no Teatro II do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Entrada gratuita, mediante a retirada de ingresso na bilheteria ou no site ccbb.com.br/bh.
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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria