Quando letreiros luminosos surgiram no Hipercentro de Belo Horizonte em 2021, muita gente não entendeu do que se tratava. “A vida vai ressurgir copulando só afetos”, lia-se na esquina da Rua Sapucaí com Avenida Assis Chateaubriand. O que era aquilo?
Eram os versos de Conceição Evaristo ganhando vida nas ruas da capital, durante a primeira edição da Festa da Luz. Além do letreiro, projeções cobriam a fachada do Sesi Museu de Artes e Ofícios e luzes coloridas destacavam os arcos do Viaduto Santa Tereza.
Cinco anos depois, a Festa da Luz já não deixa os belo-horizontinos confusos. Incorporada ao calendário cultural da cidade, ela chega à quinta edição, que tem início hoje (25/6), estendendo-se até domingo (28/6). Com o lema “O Brasil é América Latina”, 12 instalações vão iluminar o Centro de BH. O festival também promove mostra de videomapping, shows, debates e oficinas.
Leia Mais
“Embora a primeira edição tenha sido em 2021, a ideia de fazer a Festa da Luz em BH é bem anterior”, diz Matheus Rocha, integrante da equipe curatorial do evento. Em 2014, ele e a equipe da produtora cultural híbrido.cc, ao participarem de oficina de videomapping, descobriram que diversas cidades realizavam intervenções do gênero. Entre elas, Sydney, na Austrália; Lyon, na França; Berlim, na Alemanha; e Chiang Mai, na Tailândia.
“A gente ficou encantado. Focamos no objetivo de tirar do papel a ideia de fazer um festival de arte e tecnologia que ocupasse e ressignificasse o espaço urbano de forma gratuita, acessível e democrática”, comenta Rocha.
A primeira edição não teve um tema específico, o foco era a diversidade e a ocupação afetiva dos espaços públicos pós-isolamento imposto pela pandemia. A segunda adotou o lema “Sonho, mistério e imaginação”. A terceira e a quarta, respectivamente, tratavam de “Cidade Floresta” e “Poesia urbana”.
O tema deste ano vem na esteira da redescoberta de escritores latino-americanos pelos brasileiros. Caso da argentina Mariana Enríquez, dos mexicanos Juan Rulfo e Cristina Rivera Garza, dos colombianos José Eustasio Rivera e Pilar Quintana, e da equatoriana Maria Fernanda Ampuero.
“O brasileiro não se sente parte da América Latina”, ressalta Matheus Rocha. “Argentinos, chilenos e peruanos conhecem mais a nossa cultura do que nós conhecemos a cultura deles.”
Instalação 'Pedras de Duwid ou Boca de Marte', de Gustavo Caboco, no Parque Municipal
Entre os destaques da programação estão as esculturas infláveis “Filhos do sopro”, da artista brasileira-mexicana Fefê Talavera, instaladas entre a Praça Fuad Noman, os edifícios Sulacap e Sulamérica e o Viaduto Santa Tereza. Elas se inspiram em obras da arte popular mexicana que representam criaturas fantásticas e surreais.
Na Rua Sapucaí, o mexicano Ocote apresenta “TolTech”, combinando iconografia tolteca e estética digital contemporânea.
No mesmo local, Luiz Carlos Oliveira assina “Planta baixa: O lúdico arquitetado”, videogame interativo projetado sobre a fachada da antiga Rede Ferroviária, em que o público participa da construção de uma cidade-jardim digital.
O Parque Municipal concentra parte importante das instalações, com “Pedras de Duwid ou Boca de Marte”, de Gustavo Caboco; instalação inédita na água criada por Roberta Carvalho; e “Dance flowers”, criação do coletivo francês Spectaculaires. Na Praça Rui Barbosa, Rafael Ski exibe “Céu em nós”, painel interativo de LED que reage à presença do público por meio de sensores e câmeras.
Outra atração é “ECO”, assinada por Rafael Maia, Flávia Péret e Gabriel Figueiredo na fachada do Edifício Chagas Dória. Construída a partir de referências tipográficas de prédios da capital mineira das décadas de 1930 e 1940 no intuito de propor reflexões sobre linguagem, identidade e pertencimento.
O circuito inclui ainda “Paisagens digitais”, intervenção em laser criada por Homem Gaiola, com a colaboração de Letícia RMS no Mirante da Sapucaí; “O som do ouro – De Kemet ao El Dorado”, de Thaís Iroko, no palco do Duelo de MCs; e instalação de Rafael RG em parceria com MIR Estúdio na pista de skate do Viaduto Santa Tereza.
Shows
A Praça da Estação volta a receber projeção mapeada na fachada do Sesi Museu de Artes e Ofícios e shows de artistas ligados a sonoridades latino-americanas, afrodiaspóricas e contemporâneas. Entre eles, Tamara Franklin, Célia Sampaio, Bloco Swing Safado, Claudia Manzo, Orquestra Atípica de Lhamas e Academia da Berlinda. O Baixio do Viaduto Santa Tereza vai contar com apresentações de DJs e duelo de MCs.
“Uma coisa muito importante é ocupar a cidade e fazê-la mais viva. Porque quando tem arte, tem vida. E, assim, aquele espaço fica mais seguro para todo mundo”, destaca Matheus Rocha.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
5ª FESTA DA LUZ
Desta quinta-feira (25/6) a domingo (28/6), na Praça da Estação, Viaduto Santa Tereza, vão dos edifícios Sulacap e Sulamérica, ruas Aarão Reis e Sapucaí, e Parque Municipal. Acesso gratuito. Informações: www.instagram.com/festadaluz.art
