Em 1945, George Orwell publicou o livro “A revolução dos bichos”, uma fábula que, por meio da organização de uma fazenda comandada pelos animais que nela habitam, fazia uma dura crítica à União Soviética sob o comando de Josef Stalin.
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A adaptação cinematográfica dirigida por Andy Serkis em cartaz no circuito comercial brasileiro mantém as premissas da obra em que se inspira, tratando de opressão, ganância, poder e exploração, só que transportadas para os dias atuais.
Socialista democrático, membro do Partido Trabalhista Independente britânico por muitos anos, Orwell entendia que a política stalinista teria traído os princípios da Revolução Russa de 1917.
No longa de animação dirigido por Serkis, a crítica não é a uma estrutura ou a um contexto externo, mas ao próprio capitalismo que irradia a partir dos Estados Unidos para o mundo.
A revolução e o ideal de igualdade e liberdade que ela traz – e que desmorona por causa da ambição e da tirania – são, por assim dizer, deslocados para o cenário presente.
Com classificação indicativa de 10 anos, a animação conta com um elenco de peso para dublar os personagens na versão original: Seth Rogen, Glenn Close, Gaten Matarazzo, Laverne Cox, Woody Harrelson, Kathleen Turner, Jim Parsons, Steve Buscemi e Kieran Culkin.
A história focaliza uma fazenda sob ameaça de confisco em função das dívidas que seu proprietário tem com um banco. Diante da possibilidade de serem levados para um matadouro, os porcos, cavalos, galinhas, ovelhas e outros bichos que vivem nessa fazenda se rebelam.
Com o desaparecimento do proprietário, eles passam a gerir tudo, guiados por lemas como “Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo” ou “Todos os animais são iguais”. Um dos porcos, Napoleão (Seth Rogen), contudo, começa a minar os ideais revolucionários, movido pela ambição, e acaba, com o apoio de seus pares suínos, por instituir um regime ditatorial. Ele consegue, com mentira e dissimulação, conquistar o apoio dos outros bichos e expulsar da fazenda Bola de Neve, a porca que comandou a insurreição.
Referência a Trump
Não é preciso muito esforço para identificar em Napoleão, por sua feição e seus trejeitos, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Há diversas outras alusões, mais ou menos explícitas, aos donos do capital. Frieda Pilkington (Glenn Close), uma poderosa empresária, dona de todas as outras fazendas da região, dirige um Tesla, marca do bilionário Elon Musk.
Além da temática mais explicitamente colocada, “A revolução dos bichos” aborda outras de forma tangencial, em camadas que se interrelacionam. Uma delas é a ideia de que a liberdade está condicionada a regras. Antes de ser expulsa, Bola de Neve tenta implementá-las para o bom funcionamento da fazenda e para que, por exemplo, haja comida no celeiro para quando o inverno chegar.
É ela também quem propõe a construção de um moinho d'água para a geração de energia que vai permitir colocar as máquinas de ordenha em funcionamento. Napoleão consegue que os bichos se voltem contra Bola de Neve, questionando se essas regras não se opõem à liberdade conquistada.
O capital volta ao centro da trama quando o banqueiro retorna para cobrar dos bichos, já organizados, o dinheiro devido. Eles criam uma feira para vender o que produzem – leite, ovos, produtos de palha etc – para os moradores da região e, efetivamente, conseguem dinheiro – mais do que o necessário para o pagamento.
O excedente servirá, mais adiante, para que Napoleão, já na condição de tirano, e os outros porcos de seu séquito torrem tudo com extravagâncias em um shopping center futurista.
Frida Pilkington entra em cena adulando o porco ditador, fornecendo bens de consumo que são pura ostentação, porque ela tem o interesse de construir na fazenda uma usina hidrelétrica. No mundo da vilã, os animais são escravizados, assim como no regime de Napoleão, onde os lemas acabam invertidos: “Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é melhor”, “Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros”. O porco ditador e seus asseclas se esforçam para aprender a andar só com as patas traseiras.
Serkis consegue com seu longa o equilíbrio entre a contundência e a emoção, o que resulta em uma obra cativante, mas não totalmente livre de problemas. Um deles é a narração em off – dispensável – que o cavalo Sansão (Woody Harrelson) faz do que o espectador vê em cena. Outro é certo descompasso rítmico na parte final, quando tudo parece acelerar para se chegar ao desfecho da trama. De qualquer forma, seu caráter incisivo o distingue de muitas animações inócuas que têm chegado aos cinemas.
Novo personagem
Uma diferença marcante da animação de Andy Serkis em relação ao livro de George Orwell é a introdução de um personagem central: o porquinho Sortudo, que foi alfabetizado por Bola de Neve. Os dois são os únicos animais que sabem ler e escrever na fazenda.
Instrução, sabe-se, é algo perigoso para regimes despóticos. Não por acaso, Napoleão expulsa Bola de Neve e alicia Sortudo, que só no decorrer da trama vai entender que está sendo enganado – aí, então, começa a ser perseguido.
“A revolução dos bichos” é também, dessa forma, um filme sobre o processo de amadurecimento e sobre descobertas que vêm com a experiência.
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“A REVOLUÇÃO DOS BICHOS”
(Reino Unido / EUA / Canadá, 2025, 95 min.). Direção: Andy Serkis. Animação. Em cartaz em salas das redes Cineart e Cinemark.
