Sociedade da Virtude: criador diz que heróis da série vivem problemas reais
Ian SBF aposta em personagens falhos para aproximar o público de uma animação brasileira que mistura humor e crítica social
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Quase uma década depois de surgir no YouTube, "Sociedade da Virtude" entrou em uma nova fase ao chegar à televisão e ao streaming. A animação brasileira criada por Ian SBF e Thobias Daneluz acompanha uma equipe de super-heróis desajustados, inseguros e emocionalmente instáveis, que vivem em um universo marcado tanto por poderes extraordinários quanto por problemas muito humanos, como convivência, frustrações e conflitos pessoais. Para o criador, a essência da série continua sendo a mesma ao usar o gênero para falar sobre pessoas comuns em situações extremas.
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Embora seja frequentemente associada à sátira de quadrinhos e filmes de heróis, Ian SBF afirma que a obra nunca pretendeu ser uma paródia. Segundo ele, o interesse sempre esteve em observar o que acontece longe das grandes batalhas e dos arquétipos tradicionais do gênero. “A ideia nunca foi fazer uma paródia de super-heróis. O objetivo era pegar essa estrutura clássica de equipes tipo Liga da Justiça, Super Amigos, X-Men… e mostrar o que acontece nos bastidores”, afirma.
Origem
A proposta ajuda a explicar por que a série conquistou um público fiel ao longo dos anos. Em vez de concentrar suas histórias em ameaças globais ou batalhas épicas, "Sociedade da Virtude" acompanha personagens que precisam lidar com questões muito mais próximas da realidade. São heróis que enfrentam insegurança, solidão, crises emocionais, dificuldades financeiras e problemas de convivência, mesmo quando possuem poderes extraordinários.
Para o criador, esse contraste torna as situações mais engraçadas e mais próximas do público. “Quase toda história de super-herói gira em torno do destino do planeta, mas a maior parte da vida real gira em torno de coisas pequenas, ridículas e frustrantes”, diz. Na visão dele, trazer os personagens para uma escala mais humana faz com que o absurdo típico do gênero ganhe ainda mais força.
Essa aproximação com experiências cotidianas também diferencia a produção dentro da animação brasileira. Em vez de reproduzir modelos estrangeiros, a série usa referências conhecidas dos quadrinhos para construir histórias marcadas por humor, convivência e observação social. O resultado é um universo que conversa com a cultura pop global sem abrir mão de uma identidade própria.
Humor
As críticas sociais e políticas presentes nos episódios seguem a mesma lógica. Ian afirma que os roteiros não são construídos para defender uma tese específica. Segundo ele, a prioridade é sempre a comédia e a personalidade dos personagens. “A gente tenta nunca começar pela mensagem. O ponto de partida sempre é: ‘isso é engraçado?’ ou ‘isso revela algo interessante sobre o personagem?’”, explica.
Por isso, as diferentes visões de mundo apresentadas na série costumam surgir das próprias contradições dos protagonistas. Em vez de funcionarem como porta-vozes dos autores, os personagens são retratados como figuras problemáticas tentando justificar suas próprias atitudes, o que amplia as possibilidades de sátira.
A escolha de valorizar conversas aparentemente banais também faz parte dessa construção. Enquanto muitas produções do gênero apostam em sequências de ação cada vez maiores, "Sociedade da Virtude" encontra sua força nas relações entre os integrantes da equipe. Para Ian, “grandes batalhas são divertidas visualmente, mas elas não sustentam uma série sozinhas”. Segundo ele, o que realmente aproxima o público são “personalidade, dinâmica, convivência e os conflitos que saem disso daí”.
Processo
A chegada ao streaming trouxe mudanças importantes nos bastidores da produção. Processos de aprovação, mixagem, organização e controle de qualidade ficaram mais complexos, acompanhando o aumento da escala do projeto. Dessa forma, preservar a espontaneidade que marcou a trajetória da série se tornou uma prioridade. “O desafio virou: como manter o DNA absurdo e autoral da "Sociedade da Virtude" dentro de uma estrutura muito mais profissional?”, comenta o criador.
A resposta parece acompanhar um movimento maior do audiovisual nacional. Em um momento em que a animação brasileira busca ampliar sua presença em plataformas globais, "Sociedade da Virtude" mostra que histórias locais podem encontrar espaço sem abandonar suas características originais. Ao trocar supervilões por dilemas cotidianos, a série reforça que, muitas vezes, os conflitos mais universais continuam sendo os mais humanos.
Exibição
A nova fase de “Sociedade da Virtude” marcou a expansão da animação criada por Ian SBF e Thobias Daneluz para além da internet. Os 10 episódios da temporada estrearam no catálogo da plataforma Max em 24 de abril. No mesmo período, a produção também entrou na grade do canal [adult swim], com exibição em formato diário de dois episódios entre 24 e 30 de abril.
A obra, que nasceu em 2017 no YouTube, manteve o foco em personagens de super-heróis falhos e emocionalmente instáveis, agora dentro de uma estrutura de produção mais robusta para streaming e TV paga.
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