FOLHAPRESS - "The Backrooms: Um Não-Lugar", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (28/5), consegue reproduzir com fidelidade a sensação de angústia e estranheza que tornaram os "backrooms" uma sensação viral na internet. Um mérito ofuscado pelo enredo banal, que falha ao tentar expandir esse universo e explicar o inexplicável.

 

O filme é inspirado na creepypasta - lenda urbana criada em fóruns online e espalhada nas redes sociais - dos "backrooms". Pela história, esses espaços ficam em uma dimensão paralela, à primeira vista, inabitada. São compostos por diversos níveis, cada um com uma espécie de tema, mas todos com uma arquitetura repetitiva, incoerente e labiríntica.

 


Criadas de forma colaborativa, as creepypastas se expandem por meio de contos online, games e vídeos virais. No caso dos "backrooms", um dos principais responsáveis por isso é Kane Parsons, 20, que estreia como diretor no circuito comercial com o longa da A24.

Sob o pseudônimo de Kane Pixels, ele publicou no YouTube uma série viral de curtas de terror sobre os "backrooms", com mais de 220 milhões de visualizações. O primeiro dos filmes, "The Backrooms (Found Footage)", publicado em janeiro de 2022, é o mais conhecido e conta com cerca de 78 milhões de visualizações. 

No longa, assim como em sua websérie, ele explora a estética de "filmagem perdida" - como em "A Bruxa de Blair" e "Atividade Paranormal" -, mas de forma muito mais tímida. Uma pena, já que os poucos trechos filmados dessa forma são os de maior tensão.

Ele também troca a narrativa lacônica e obscura, quase experimental, de seus curtas por uma bem mais esquemática e comercial, próxima ao padrão hollywoodiano. A escolha é compreensível, dadas as diferentes ambições dos projetos, mas expõe também a insegurança do cineasta estreante.

O filme acompanha Clark, papel de Chiwetel Ejiofor, um arquiteto fracassado que tenta manter viva sua loja de móveis populares à beira da falência. Em meio ao desgaste de seu casamento, ele inicia sessões com a psiquiatra Mary Kline, interpretada por Renate Reinsve, que procura investigar as origens de suas frustrações e insatisfações.

Enquanto procurava uma causa para o aumento de sua conta de luz, Clark encontra a entrada para os "backrooms" no porão de sua loja. No entanto, ele logo percebe que não está sozinho. Assustado e fascinado por sua descoberta, ele começa a explorar o local e logo envolverá todos à sua volta nessa obsessão.

As cenas iniciais nos "backrooms" são angustiantes e assustadoras. A revelação lenta de seus longos corredores e das salas com mobílias deformadas, unida à trilha sonora repleta de músicas instrumentais com acordes dissonantes e notas fora do tom, ajuda a compor o clima de tensão e terror.

Sozinha, porém, a ambientação não consegue segurar o filme por muito tempo. À medida que nos acostumamos com o cenário, o filme tenta, sem sucesso, explorar outras formas de manter a tensão. É quando aparecem o flerte fácil com o "gore" e as clássicas sequências de perseguição, em que o protagonista desaprende a andar e tropeça até na sombra.

O enredo também não ajuda. Os personagens são apresentados de forma superficial, o que dificulta a compreensão de muitas de suas ações e escolhas. Já as explicações ensaiadas para o fenômeno dos "backrooms" - com referências aos curtas de Parsons - são mal desenvolvidas e pouco reveladoras. Além disso, os arcos narrativos são incompletos e deixam várias pontas soltas - talvez preparando o terreno para eventuais sequências.

Toda a lenda dos "backrooms" surgiu a partir de duas imagens que, tiradas do contexto original, passavam uma sensação de desconforto e estranhamento. Saber que essas fotografias foram tiradas em uma antiga loja de móveis em reforma na pequena cidade de Oshkosh, no Wisconsin, quebra boa parte de sua aura de mistério.

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Da mesma forma, ao tentar racionalizar o estranho fenômeno dos "backrooms" e explorá-lo em um filme puramente comercial, o longa de Parsons diminui o impacto que essa creepypasta exerce nas pessoas, ainda que amplie o seu alcance.

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