A produtora Perla Horta guarda uma lembrança de infância dos almoços de domingo regados a seresta, com sua avó cantando na casa do bairro Horto, onde a família se reunia. “Meus tios-avós, por parte da mãe do Toninho Horta, gostavam muito de seresta.
Tio Pedro era um grande seresteiro, sempre se apresentava nas rodas da família. Tio Aulus, grande tenor, organizava serenatas na véspera do Dia das Mães, no bairro Lagoinha. Fui pegando apreço por essas músicas”, conta.
Leia Mais
A relação atávica com esse cancioneiro foi o mote para que ela idealizasse o Festival Santa Seresta, pelo qual quatro grupos se apresentam, nesta sexta (1º/5) e sábado (2/5), na Praça Duque de Caxias, no Santa Tereza – bairro que, diga-se, guarda uma tradição de décadas com as serestas.
Hoje, as atrações são Grupo Jorge e o Samba e Ivone Lopes & Roda Viva; e amanhã, Luiz Antônio e Banda e Acir Antão – que também cumpre o papel de mestre de cerimônias do evento, nos dois dias, acompanhado de seu grupo.
Até no formato, o Festival Santa Seresta evoca os tempos idos: os grupos se apresentam das janelas do casarão histórico Sobrado (rua Mármore, 450), e o público assiste da praça.
“Nos anos 1950, ali funcionava o Clube Recreativo, que era frequentado por Juscelino Kubitschek e Procópio Ferreira. Depois, passou a se chamar Sobradão da Seresta. Fui pesquisando, vendo essa história, e resolvi resgatar essa memória”, diz Perla.
A seleção dos artistas participantes foi feita com a consultoria de Acir Antão – radialista, locutor e cantor que é profundo conhecedor da cultura musical de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Ele sugeriu grupos com os quais Perla também já tinha alguma relação.
“Jorge e o Samba eu conhecia há mais tempo, porque fui produtora de um grupo que Jorge teve, o Canto de Amor, que não se manteve depois da morte da líder, Suzana Mori. Eles iam cantar para os enfermos na Santa Casa, eram muito amorosos e muito simples”, diz.
Sobre Ivone Lopes, a produtora lembra que o contato vem de quando a cantora mantinha o grupo Roda Viva, realizador do projeto Chorinho de Emoção, que circulava por lares de idosos.
“Conheço o Luiz Antônio do restaurante Dona Lucinha, onde se apresenta uma vez por mês", conta. Gracinha Horta, mãe de Perla, fará uma participação. “Minha mãe tem uma longa história com a música. Ficou um tempo parada e está retomando agora.”
Acir Antão festeja a iniciativa, por considerar que o estilo estava caindo no esquecimento. “Infelizmente, nos últimos tempos, a seresta andou em baixa, apesar de existirem grupos que ainda fazem coisas maravilhosas na cidade. Santa Tereza já teve um palco de seresta, mantido pelo Waldomiro Constant, diretor do Regional H6, da Rádio Guarani. Quando acabaram os regionais de rádio, ele fez uma casa de seresta em Santa Tereza, chamada Salão Grená, isso na década de 1970”, recorda.
Seresta e choro
O artista observa que a seresta como se fazia outrora pode ter se perdido com o tempo, mas está, em boa medida, preservada no choro – este sim, um gênero em alta na cidade. “Belo Horizonte talvez seja o lugar que mais tem rodas de choro no Brasil, e tem ali um pouco de seresta. São estilos muito íntimos, a instrumentação é a mesma, feita com violão, bandolim, cavaquinho, pandeiro e flauta. Quer ouvir uma seresta hoje? Vai numa roda de choro, que é o mais próximo que tem”, aponta.
Antão avalia que um evento como o Festival Santa Seresta ajuda a trazer de volta para o presente uma época em que vozes como as de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Núbia Lafayette e Edith Veiga eram muito populares – ou até mesmo uma iniciativa mais recente: o projeto Minas ao Luar, que, num primeiro momento, era exclusivamente dedicado às serestas. “Hoje mudou; tem rock, tem música sertaneja, quer dizer, a marca daquela seresta autêntica acabou”, lamenta.
No que diz respeito à apresentação de seu grupo, amanhã, ele adianta que o repertório não se prende a uma época. “Percorremos desde o início do século passado até mais recentemente. Tem 'Modinha', que é uma seresta moderna, feita por Sérgio Bittencourt na década de 1960. Aí tem 'Bandolins', de Oswaldo Montenegro, que é uma seresta, assim como 'Sozinho', do Peninha, que Caetano Veloso gravou. Djavan não é tachado de seresteiro, mas ele faz também. Isso está tudo no nosso repertório”, diz.
PROGRAMAÇÃO
Sexta-feira (1º/5)
• 18h30 - Intervenções do mestre de cerimônias Acir Antão
• 19h - Grupo Jorge e o Samba
• 20h30 - Ivone Lopes & Roda Vida
Sábado (2/5)
• 18h - Intervenções do mestre de cerimônias Acir Antão
• 18h30 - Luiz Antônio e banda
• 20h - Gracinha Horta e banda
• 21h - Acir Antão e banda
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
FESTIVAL SANTA SERESTA
Nesta sexta-feira (1º/5) e sábado (2/5), na Praça Duque de Caxias (Rua Mármore, 450, Santa Tereza.) Gratuito.
