MÚSICA/MEMÓRIA

Montes Claros e Thomas Roth reverenciam o legado do compositor Luiz Guedes

Elis Regina, Roupa Nova e Beto Guedes, entre outros, gravaram canções da dupla Luiz Guedes-Thomas Roth. Músico montes-clarense morreu há 29 anos

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O cantor e compositor mineiro Luiz Guedes (1949-1997) deixou precioso legado para a música popular brasileira. Ao lado de Thomas Roth, compôs canções gravadas por Elis Regina (“Nova estação”), Roupa Nova (“Canção de verão”) e Peninha (“Amo você”), além de várias pérolas do repertório de seu primo Beto Guedes, como “Balada dos 400 golpes”, “Boa sorte” (ambas letradas por Márcio Borges) e “Como nunca” (também com Murilo Antunes).

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Luiz e Thomas se tornaram parceiros em 1978. Quase cinco décadas depois, essa história foi resgatada por Roth em Montes Claros, terra natal do amigo, durante homenagem realizada em 25 de abril. O show “Da semente, o fruto” foi organizado pela cantora Débora Guedes, filha de Luiz, com apoio da Lei Aldir Blanc. Participaram também os compositores Murilo Antunes e Paulo Flecha.

Thomas Roth, de 74 anos, cantou músicas dele e de Luiz, além de outras de sua autoria, como “Quero”, gravada por Elis Regina no álbum “Falso brilhante” (1976). O compositor relembrou detalhes da convivência com o amigo, a quem chama de “Lulu”, e chorou em vários momentos.

“De chorar, não tenho vergonha. Nunca tive vergonha de chorar. Me emocionei muito, porque é uma volta ao passado. Como diria o Roberto (Carlos), vivi muitas emoções com o Luiz Guedes, muita coisa bacana, muito aprendizado”, diz.

Dono de carreira vitoriosa na música, atualmente Roth pode ser visto no SBT/Alterosa de segunda a sexta-feira, como jurado do quadro de calouros “Dez ou mil”, no “Programa do Ratinho”.

Thomas Roth toca violão e canta durante show
Thomas Roth em 'Da semente ao fruto', tributo a Luiz Guedes realizado em Montes Claros em abril Manu Alves/divulgação

Thomas Roth define como “mágico” o tributo ao parceiro. “Só conhecia a terra do Lulu na imaginação, pelo jeito que ele falava, mas não conhecia a sonoridade mineira, principalmente a sonoridade de Montes Claros. Foi muito legal perceber o carinho que as pessoas têm por ele, observar a reação do público às músicas que a gente fez.”

Essa história começou na loja de discos paulistana onde o mineiro trabalhava, perto do Theatro Municipal de São Paulo. Roth procurava uma fita cassete, raridade neste século 21.

“Luiz me perguntou para que era a fita, falei que gravaria música para um festival. Começamos a conversar. Ele contou sua história de recém-chegado a São Paulo. Falou também do Beto Guedes, do Clube da Esquina, de Montes Claros e mostrou as letras que compôs.”

Os dois marcaram encontro, que avançou pela madrugada daquele ano de 1978. “Foi incrível, cada um mostrou seu trabalho. Ficamos umas cinco horas ali, criando um monte de coisas. Foi queijo com goiabada, não teve mais como separar”, recorda.

A dupla passou a trabalhar no estúdio que Thomas montou no bairro de Moema. Às duas da manhã, já não havia ônibus circulando. Ele, então, ele levava Guedes de carro até Vila Maria, do outro lado da cidade. Voltava para casa às três da madrugada.

Luiz Guedes e Thomas Roth tocam violão e cantam em show no Parque Barigui, em Curitiba, nos anos 1980
Luiz Guedes e Thomas Roth em show no Parque Barigui, em Curitiba, nos anos 1980 Thomas Roth/Instagram

“Tem uma frase atribuída a Tom Jobim, de que música é 90% de transpiração e 10% de inspiração. Foi o nosso caso. A gente trabalhava à exaustão. Íamos para o estúdio às três da tarde e ficávamos até de madrugada. Chegamos a ficar 40 dias em cima da mesma música”, revela.

Luiz, dois anos mais velho que o primo Beto Guedes, morou em BH nos anos 1960, onde conviveu com Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, entre outros integrantes do Clube da Esquina.

Márcio Borges, fundador do Clube da Esquina, foi eleito para a Academia Mineira de Letras

Em 1973, o montes-clarense se mudou para São Paulo, iniciando lá a parceria com outro primo, Paulo Flexa. As canções dos dois não tiveram projeção, mas tudo mudou depois daquele encontro de Luiz com Thomas Roth, um carioca que virou paulistano aos 5 anos de idade.

Qualidade

A dupla priorizava a qualidade musical, falava de esperança em um futuro promissor. “Nosso objetivo era escrever letras, músicas e canções que deixassem um legado que fosse retrato do nosso tempo”, diz Roth. “A gente sempre usava metáforas do sonho, da esperança e do lado positivo das coisas. Era aquele olhar do 'copo meio cheio'. A gente não tinha a coisa pessimista, negativa, da denúncia pela denúncia”, explica.

A dobradinha conquistou cantores e público, enquanto o Brasil se mobilizava pela redemocratização, articulando a campanha das Diretas Já. “As pessoas estavam esperançosas, queriam a mudança dos ares. A gente viveu em plena ditadura, queríamos tempos novos”, relembra o compositor. 

 Detalhe da capa do vinil 'Jornal do Planeta', álbum de Luiz Guedes e Thomas Roth lançado em 1981. Na imagem, a dupla é desenhada na estética de história em quadrinhos, cercada de recortes de jornal
Detalhe da capa do vinil 'Jornal do Planeta', álbum de Luiz Guedes e Thomas Roth lançado em 1981 Reprodução

Roth e Guedes gravaram dois LPs: “Extra” (1981) e “Jornal do Planeta” (1983). “Extra” teve infuência do Clube da Esquina, levada por Luiz, aliada à formação roqueira de Thomas Roth. Amor, ecologia e esperança eram temas das canções.

'Milagre do amor'

O álbum “Extra” trouxe o primeiro sucesso da dupla, “Milagre do amor”, com letra alto-astral. Já a faixa “Angra” expressava o receio com catástrofes nucleares, aludindo à construção da usina de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Em 1983, os dois fizeram sucesso com “Ela sabe demais”, faixa de “Jornal do Planeta”, mas a parceria acabou em 1985.

“As coisas não estavam mais saindo do coração”, resume Roth. “Nosso trabalho tinha muita seriedade, não era coisa pensada para fazer marketing. A gente não se deixava seduzir pelo sucesso barato, efêmero. Mas, em determinado momento, a gente falou: opa, precisamos dar um tempo.”

Em 1994, após a descoberta de um câncer de fígado, Luiz Guedes voltou para Montes Claros, onde morreu em novembro de 1997.

“O Brasil é um país sem memória, especialmente na área de cultura. O Lulu escreveu um capítulo importante da música brasileira”, destaca Thomas Roth, elogiando Débora Guedes por realizar oportuno tributo a seu parceiro.

Os músicos Thomas Roth e Chico Lobo estão abraçados e sorriem para a câmera
Thomas Roth com o violeiro mineiro Chico Lobo no Prêmio Profissionais da Música Instagram/reprodução


DEPOIMENTO/THOMAS ROTH

“Tem um mundo gigantesco de músicas maravilhosas sendo criadas no Brasil”


“A gente vive uma exacerbação absurda da coisa consumista, imediatista. Andy Warhol foi visionário quando disse que todo mundo vai ter 15 minutos de fama um dia. E hoje temos um pouco disso. Quer dizer, antes as coisas eram mais perenes, mais duradouras, feitas para durar mais.

Todas as vezes que me perguntam sobre a música brasileira na atualidade, falo: pera, calma. Isso tem de ser avaliado com muita calma, porque sou curador e conselheiro do maior prêmio da música brasileira, o Prêmio Profissionais da Música (PPM), realizado em Brasília todos os anos. São duzentas e tantas  categorias de todos os estilos e gêneros musicais, de todas as regiões do Brasil. É absurdamente assustador o quanto se cria e produz de coisas maravilhosas na música clássica, jazz, MPB, forró.

O problema é que a grande indústria dominou as mídias e os meios de distribuição, de divulgação, as redes sociais – tudo na base do jabá.

Digo sempre que a música é um grande iceberg, um gigantesco iceberg. O que as pessoas veem é a pontinha do iceberg só. Por isso falam: 'Nossa, a música está um lixo'. Porque tem músicas que são absolutamente misóginas, machistas, fazem ode às armas, ao sexo explícito e a um monte de sacanagem.

Aí, falam: 'Nossa, como a música brasileira, tão rica e tão respeitada no mundo inteiro, virou esse lixo?'

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Você pode ouvir sertanejo, funk e não sei o quê, mas tem um mundo gigantesco de músicas maravilhosas sendo criadas e produzidas todos os dias no Brasil. Coisa muito boa, as pessoas precisam procurar. Tem na internet, nas plataformas de streaming e no YouTube. Tem muita coisa boa sendo feita por gente muito jovem, o que é surpreendente e muito legal.” 




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