O escritor, jornalista e biógrafo carioca José Castello tem um cronista que, conforme alerta, não é ele próprio, mas se parece muito. É esse narrador particular quem assina seu novo livro, “Histórias miseráveis”, que reúne 35 crônicas publicadas entre 2016 e 2023 no jornal “Rascunho” e no “Suplemento Pernambuco”.


O jornalista e escritor Rogério Pereira responde pela seleção, organização e apresentação da obra, editada pela Maralto.


Os textos jogam foco sobre figuras à margem, desabrigados, solitários, existências silenciadas, e constroem narrativas que mesclam o cotidiano a lampejos de absurdo e de inquietação existencial.

Esse cronista criado por Castello anda pelas ruas e luta para se conectar com uma realidade que lhe escapa, ao mesmo tempo em que tenta se incorporar nas figuras invisíveis que dormem sob as marquises e que se agasalham em cobertores puídos e em caixas de papelão.


O autor observa que, tradicionalmente, a crônica é o gênero do eu, escrito em primeira pessoa.

“Quando Clarice Lispector ou Rubem Braga descrevem uma cena, o leitor tende a achar que aquilo aconteceu mesmo, só que nem sempre é assim. A crônica é um gênero limítrofe, entre a realidade e a ficção, e essa posição é o que, me parece, dá força ao gênero crônica. O narrador está sempre vacilando, é ele mas não é ele, você nunca sabe ao certo se aquilo de fato aconteceu ou não”, diz.


Dualidade

Ele destaca que essa dupla identidade da crônica vem de suas origens, vem da verdade factual do jornalismo e da verdade íntima, criativa, ficcional, do escritor.

"Procuro, nas minhas crônicas, jogar o tempo todo com essa dualidade, fazer essa dança. Sou eu, mas não sou eu. O que vivi está ali, mas tem coisas que nunca vivi. Esse cronista pensa coisas que eu penso, mas também pensa coisas totalmente diferentes", afirma. Ele conta que fez, a pedido de Rogério Pereira, uma pré-seleção de 100 a 120 textos, para facilitar seu trabalho.


A partir desse material foi feita a escolha final, que resultou no livro. Castello diz que o critério da pré-seleção foi seu gosto pessoal e a escolha de dois universos temáticos: de um lado, o cotidiano da cidade, do cronista andarilho que observa suas mazelas; e de outro, os escritores, os livros e os encontros literários.

“Rogério escolheu as crônicas urbanas. Ele guardou as que tratam de escritores, dizendo que vai organizar um outro livro. Trabalhei com esses dois temas para tentar dar unidade ao livro”, diz.

Castello observa que a obra trata não só da miséria das ruas, mas também da miséria espiritual.

“Meu cronista é um cara que tenta entender e salvar o mundo ou alguém, e não consegue – ou, se consegue, é de uma forma insuficiente, parcial, inútil no fim. Ele está lidando com a impotência, essa que temos diante das tragédias no Brasil e no mundo. O genocídio em Gaza, por exemplo, você fica chocado, mas você só fica chocado, mais nada. Meu cronista tenta se aproximar dessa miséria física, financeira e espiritual”, afirma.


Interesses

O recorte temporal, de 2016 a 2023, foi, segundo Castello, “arbitrário”, atendeu a uma questão de praticidade, já que, para o “Rascunho”, por exemplo, ele escreveu por 30 anos. Já a escolha dos temas teve a ver com os interesses que o acompanham desde sempre.

“Os livros estão na minha vida desde menino, sempre li muito. Depois, a preocupação com a rua, com a cidade, com o sofrimento alheio, com a dor e com a miséria dos outros, é uma coisa que também sempre tive, sempre vivi”, comenta.


Ele diz que compartilha com o cronista que assina as “Histórias miseráveis” o olhar do homem comum.

“É justamente essa coisa do homem sem qualidades, mediano, que está vivendo nada de grandioso que me interessa; esse olhar que não tem nenhum grande instrumento político, científico ou religioso, do cara que pensa só pela sua sensibilidade”, pontua. Outra coisa que Castello e seu narrador compartilham é um incontornável pessimismo e uma empedernida melancolia.


“São sentimentos presentes na minha vida desde pequeno. Fiz mais de 20 anos de psicanálise para tentar entender isso, e acho que entendi um pouquinho. É uma coisa fundante na minha vida. Gosto de silêncio, de solidão; adoro paisagens vazias. São coisas do meu temperamento, da minha maneira de ser, e que não são só minhas. Estamos vivendo uma barra muito pesada no mundo, o planeta está sob risco e isso exacerba sentimentos de tristeza, o que reconheço como uma característica das minhas crônicas.”

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“HISTÓRIAS MISERÁVEIS”
• De José Castello
• Editora Maralto
• 160 páginas
• R$ 65,90

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