GASTRONOMIA

Leo Paixão diz que criou ‘o restaurante italiano menos autêntico do mundo’

Chef conta a história do Ninita e de suas três outras casas em BH e anuncia a abertura de um restaurante japonês, em entrevista ao programa ‘EM Minas’

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Entrevistado do programa “EM Minas”, da TV Alterosa e Portal Uai, exibido no último sábado (18/4), Leo Paixão conta como abraçou a carreira de chef de cozinha e se tornou um dos nomes mais conhecidos do cenário gastronômico brasileiro. Com quatro prestigiados restaurantes em Belo Horizonte, ele projeta inaugurar um novo, dedicado à culinária japonesa.

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O chef comentou os diferentes perfis de cada uma das suas casas, de sua assinatura, que começou a ser reconhecida pela forma como abordava a culinária mineira com técnicas francesas, e do trabalho diário em busca de, como de uma "perfeição inatingível".


É verdade que você fez curso de medicina, mas largou o ofício para se dedicar à gastronomia?
Sou da época do Vestibular, anterior ao Enem. Não existia a possibilidade de você fazer um curso para se tornar um cozinheiro profissional. Você podia ser advogado, engenheiro ou até artista. Quando fiz meu teste vocacional, deu artes, em geral. Minha família falou: "A gente te dá a liberdade de escolher o que você quiser, desde que seja medicina".


Então você chegou a entrar na faculdade de medicina?
Fiz o Vestibular, entrei no curso e me formei pela UFMG.


E quando você viu que não era medicina, que sua paixão era realmente a gastronomia?
No final da faculdade, já comecei a ter acesso a muitos livros, um pouco mais técnicos, de gastronomia. Os cursos de gastronomia no exterior começaram a aparecer, programas de culinária e tal. Eu sempre cozinhei com meu avô, desde criança, e amava. Eu não estava muito feliz com a medicina, não era a minha cara, não era do que eu gostava.

Comecei a fazer estágio. Fui bater na porta do Taste Vin, pedi um estágio. Lembro do primeiro dia em que entrei numa cozinha e saí eufórico, muito feliz. Pensei que eu queria fazer aquilo, pelo menos tentar. Assim que me formei, comecei a trabalhar em plantão no Programa de Saúde da Família, em Unidade de Pronto Atendimento, essas coisas.

Juntei um dinheiro para poder pagar meu curso de cozinha na França e fomos para Paris, eu e minha esposa. A gente namorava desde o primeiro período de faculdade e nos casamos assim que nos formamos.


Ela te apoiou então nessa trajetória com a gastronomia?
Se não fosse ela, eu não teria a coragem para ter ido.


Ela esteve com você esse tempo todo, e aí veio o Glouton, que é um grande restaurante, que alia a cozinha contemporânea à mineiridade, não é isso mesmo?
Fui para a França e deu muito certo, as coisas aconteceram muito bem para mim. Me dediquei muito e me destaquei. Quando voltei, foi para o primeiro restaurante em que tinha estagiado, o Taste Vin. Acabei contratado para dar uma consultoria lá, onde fiquei por dois anos.

Foi muito bom, aprendi bastante sobre o público mineiro e sobre a administração de um restaurante. Tenho um carinho muito grande pelo Taste Vin. Apareceu a oportunidade de eu abrir o Glouton, onde era o Café Santa Sofia. Era um café lindo em Lourdes, eu era apaixonado, sempre ia lá à tarde tomar um café e conhecia a dona. Ela e o marido resolveram se mudar para São Paulo e entregar o ponto.


No Glouton você aplicou sua técnica à culinária mineira?
De início, não foi uma coisa muito proposital, não. A ideia era fazer um restaurante de cozinha francesa descomplicada, acessível para as pessoas, com produtos bons, técnicas boas, mas sem muita frescura de toalha, ambiente e serviço rebuscado; nada que encarecesse muito. Fomos reconhecidos logo de saída, foi muito bom, porque, apesar de todas as dificuldades, foi pouco investimento, eu não tinha dinheiro para abrir o restaurante na época. Fui reinvestindo com o tempo.

Foram aparecendo uns prêmios, como o Novo Restaurante Francês. Depois de um ano, eu já estava um pouco mais estabelecido. Veio uma repórter conversar comigo sobre uma premiação, falando que eu não podia concorrer como melhor restaurante francês da cidade.

No ano anterior, já tínhamos ganhado como revelação, estávamos indo bem, e eu perguntei por quê. Ela falou: "Olha o seu cardápio: papada de porco com mandioca, rabada com nhoque de agrião, arroz de galinha caipira... Não é um restaurante de cozinha francesa, é um restaurante de cozinha mineira contemporânea". Aí entendi o que eu fazia e comecei, propositalmente, a pegar ingredientes típicos de Minas e trabalhar com a técnica francesa.


Você tem atualmente quatro casas, certo?
Tem o Glouton; ao lado do Glouton, o Ninita; o Macaréu; e o Nicolau.


O Ninita tem um perfil diferente do Glouton, não é mesmo? E, para começar, Ninita é o nome de sua bisavó, certo?
Isso mesmo. Vovó Ninita era a única cozinheira profissional da família, que fez um curso de confeitaria. Ela era do Sul de Minas, de Caxambu, e veio para Belo Horizonte, se casou e teve três filhos. Ela fazia bolos, tortas, essas coisas. Vovó Ninita teve uma criação muito italiana, a mãe dela veio da Itália, mas ela também fazia muita cozinha mineira também. Ninita não é um restaurante que tem as receitas dela, mas é uma homenagem.

Tem muita gente que conta umas histórias que não são verdade. É uma homenagem, ela me inspirou para poder fazer restaurante. Tem uma ou outra coisa dela, como o bombocado que ela fazia. Quando abri o Glouton, era um restaurante um pouco mais arrojado para Belo Horizonte, na época era muito chique servir comida internacional, e eu comecei a cada vez mais fazer a cozinha mineira de uma forma um pouco mais sofisticada.

Muita gente entrava no Glouton, talvez pela fama, pedia o cardápio para o meu gerente, lia e falava: "Não tem nada que eu como aqui. Você não tem uma massinha com carne?". Meu gerente respondia, meio com vergonha, que não. O cliente perguntava: "Um risoto?". Ele: "Não, também não tem". O cliente entregava o cardápio e ia embora. Isso acontecia o tempo todo no Glouton, até o momento em que tive a oportunidade de abrir uma casa ao lado, onde funcionava uma loja de móveis.

Pensei: "Vou fazer o que o povo quer, vou fazer a massinha com carne". Botei uma churrasqueira a carvão lá, a gente fazia massa fresca e servia com a carne. Essa é a história do Ninita, o restaurante italiano menos autêntico do mundo. Ele é muito mais brasileiro e mineiro do que italiano.


Como é ser um chef reconhecido aqui em Minas, fora do eixo Rio-São Paulo, e também nacionalmente? É um desafio? Como é que você vê isso?
No Rio de Janeiro e em São Paulo, você tem muito mais palco para aparecer, mas existe uma curiosidade grande também pelos outros estados, por outras cidades, principalmente Belo Horizonte, que é a capital do estado de gastronomia mais famosa do Brasil, a gastronomia mais conhecida e amada do país, então tem palco também. Você tem que saber aproveitar.

É difícil, tem um pouco menos de clientela, mas quando a gente vai para fora desse nosso país que é Minas Gerais, a turma nos recebe muito bem, quer conhecer nosso queijo, nossa cultura.


Você tem diversas premiações, mas não a do Guia Michelin, que recentemente nomeou restaurantes do Rio e de São Paulo. Acha que não ter uma estrela Michelin diminui a relevância do restaurante no cenário da gastronomia?
Acho que não. O Michelin é um guia europeu. Acho que não precisamos de uma validação europeia. O que precisamos é do nosso cliente, do brasileiro, do mineiro que frequenta nosso restaurante.

O prêmio é a casa cheia e o cliente feliz, a equipe trabalhando feliz. Obviamente que ter uma estrela Michelin é um reconhecimento internacional muito bom e, por acaso, o Brasil é o primeiro país da América Latina a ter restaurantes com três estrelas, o Tuju e o Evvai. Os meninos estão muito de parabéns, são motivo de orgulho, mas não precisamos disso especialmente.


São quatro casas e tem mais uma vindo por aí, um restaurante japonês, certo?
Não posso dizer quando nem onde, porque não tem nada certo ainda, estamos dependendo da aprovação do projeto. Tenho uma paixão grande pelo Japão, desde criança. Tenho ido bastante lá, fico postando minhas viagens pelo Japão e as pessoas perguntam: "Que dia vai abrir um japonês?". Sim, eventualmente vai acontecer, vai chegar, este ano ou no ano que vem.

Vamos falar do Macaréu. É um desafio abrir uma casa de peixes em um estado que não tem frutos do mar?
Com esse tempo todo de Glouton, 14 anos, consegui fornecedores muito bons. O congelamento é a melhor coisa para o fruto do mar, principalmente o congelamento a bordo. Nossos frutos do mar são pescados e congelados no barco. Vem tudo de Florianópolis, e os restaurantes de Florianópolis trabalham com esses mesmos frutos do mar congelados.

De qualquer forma, ter um restaurante só de frutos do mar e de peixes da Amazônia – vem daí o nome, aliás; Macaréu é uma onda que se forma no estuário dos rios amazônicos – é um desafio grande. Senti a necessidade de colocar um pouco mais de variedade, colocar carne e essas coisas no restaurante, então misturei um pouco a cozinha portuguesa, porque eu já tinha uma vontade grande de abrir um restaurante português. Minha família é principalmente portuguesa. O Macaréu virou essa mistura.


Com a administração de tantos restaurantes com perfis diferentes, como fica o chef? Hoje você é mais administrador ou mais chef?
Acho que sou meio CEO, essa pessoa que é meio gerente de tudo. Mas eu sou chef. Até hoje, 99% das criações dos meus restaurantes são minhas. Sou eu quem pensa no conceito do cardápio, sou eu quem desenvolve os processos, quem treina a equipe para aplicar esses processos. Quando mudo de cardápio, vou para cozinha com eles e fico até todo mundo pegar.


A paixão pelo trabalho é o que você acha que faz a diferença no que diz respeito ao sucesso dos seus restaurantes e à qualidade dos pratos?
Acho que sim. Ninguém é eternamente apaixonado pelo seu próprio trabalho. Eventualmente, fica uma coisa repetitiva, mas tem uma necessidade que sinto de sempre fazer um pouquinho melhor, de fazer algo bem feito, buscando uma perfeição inatingível, mas a busca em si já é um caminho muito bom. O respeito pelo ingrediente, pelos nossos colaboradores e, principalment,e pelo cliente que está ali vendo tudo com grande expectativa.


Há chefs em BH que adquiriram experiência na sua cozinha ou com a sua curadoria?
Tem, não só em Belo Horizonte, mas no Brasil. Na minha opinião, o melhor confeiteiro do Brasil hoje é o Pedro Frade, que começou como estagiário nosso. Ele cresceu muito, viajou comigo pelo Brasil, cozinhando em eventos dos quais eu participava, depois foi para a França, estudou na mesma escola que eu.

Hoje, ele é um confeiteiro absurdo. Aqui em Belo Horizonte tem muita gente também, o Jorge, o João Paulo, a Sofia, da Cozinha de Sofia, muita gente que passou por mim. Morro de orgulho dessa turma toda. Tem o Ronaldo, que abriu recentemente um restaurante. Eles têm um carinho grande por mim até hoje; se vão tomar uma decisão, me ligam. A Andreza, que foi nossa chef também, abriu um restaurante em São Paulo.


Quando não está na cozinha, você sai para jantar em Belo Horizonte? Vai a outros restaurantes que não sejam os seus?
Claro, de muitos amigos que adoro.


E quando está em casa, você cozinha ou gosta que cozinhem pra você?
As duas coisas. A gente cozinha o dia inteiro trabalhando e, quando chega o fim de semana, a gente cozinha para se divertir. Agora mesmo, véspera de feriado, muitos restaurantes não vão abrir, então vai ter um monte de chefs de cozinha aqui em Belo Horizonte, na minha casa, para cozinhar comigo e fazer churrasco. Costumamos viajar juntos, muitos chefs, amigos também. Ficamos o dia inteiro cozinhando, é uma delícia.

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O que você, particularmente, gosta de comer?
O que eu mais gosto é de comida japonesa e, obviamente, da cozinha mineira do dia a dia. Amo esses ensopados, frango com quiabo, lombo de panela, sou alucinado, angu é uma coisa que adoro. Como o chef cozinha muito, ele gosta que cozinhem para ele também. Costumo dizer que minhas comidas preferidas são aquelas que eu não fiz.

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