Livro de Cidinha da Silva aponta armadilhas para autoras negras no Brasil
Escritora vai autografar 'Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras' nesta quinta-feira (16/4), na Livraria Quixote, na Savassi
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Cidinha da Silva lança, nesta quinta-feira (16/4), às 19h, na Livraria Quixote, seu novo trabalho, que estampa na capa um título instigante: “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”. Em 16 ensaios, a autora investiga tensões, armadilhas e confrontações que envolvem a relação de escritoras negras com o mercado editorial no Brasil.
O título “expressa movimento, transformação e direito à insurgência e ao revide”, explica a autora. Os ensaios são estruturados em torno de três eixos simbólicos: “casulo”, “lagarta” e “borboleta”, que tratam de mecanismos de controle e de possibilidades de sublevação.
O "casulo" se refere ao cerceamento da liberdade criativa; a “lagarta” remete à exigência constante de justificativa sobre o conteúdo das obras, em detrimento da discussão sobre forma e linguagem; e a “borboleta” concentra a ideia de ira transformada em enfrentamento político e estético.
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Mineira radicada em São Paulo, Cidinha diz que o desejo e a necessidade de falar sobre o lugar das escritoras negras no panorama literário brasileiro sempre a acompanharam, mas foi durante a pandemia que conseguiu sistematizar o tema, por meio do curso Vozes independentes no mercado editorial, que já teve mais de 20 edições nas modalidades remota e presencial.
"Lugar estreito"
De acordo com ela, “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras” confronta a sociedade literária e o mercado editorial brasileiros, recusa o lugar estreito que historicamente é destinado às mulheres negras e aponta armadilhas a que elas estão sujeitas.
“A principal armadilha, e dela decorrem todas as outras, é acreditar que, porque subimos alguns degraus e chegamos a determinado patamar, o jogo está ganho e nossa vida será tranquila. O racismo e seus ardis nos espreitam em cada esquina”, destaca Cidinha.
Um desses ardis é acreditar numa igualdade ilusória, aponta. “Somos pessoas racializadas e isso muda tudo, porque existe o imaginário lamacento nas bordas e cheio de areia movediça no centro que nos puxa para o buraco sem fundo do fracasso e da falta de alternativas, de perspectivas e de caminho. Achar que um bom trabalho literário por si só nos garantirá boas colocações no mercado é outra armadilha.”
Cidinha afirma que seu livro procura desnudar mecanismos sutis e explícitos de controle e silenciamento. Isso passa por convites indignos para eventos literários, expectativas que confinam escritoras negras ao papel de “educadoras da branquitude” e políticas de representatividade limitadoras.
Sobre esse último ponto, a escritora observa que, nos ensaios, toma muito cuidado para “não jogar a criança fora com a água do banho”. Dá o exemplo de atrizes negras estrelando novelas. Segundo ela, tal protagonismo não escamoteia a disputa de poder capaz de subalternizar essa representação.
“A reivindicação por representatividade é uma das mais potentes demandas políticas do século 21. Grupos subalternizados se organizam e lutam por mais e maiores espaços na cena pública, na política institucional, na economia, na TV, na imprensa. Eles partem do entendimento de que a representatividade combate a invisibilidade e transforma relações de poder, a médio e longo prazo. Essa é uma verdade sincera que, contudo, não pode baratear o entendimento de representatividade como algo estático que anula as disputas de poder”, observa.
A autora mineira reconhece mudanças no mercado editorial brasileiro ao longo dos últimos 20 anos, em relação à publicação de escritoras negras, mas pondera que é necessário analisar esse novo cenário sem ilusões.
“Nós, autoras negras, escrevemos e publicamos, mas o racismo institucionalizado quer definir o que devemos escrever. Muitas vezes, nós mesmas caímos nas armadilhas que definem funções para a nossa literatura, em vez de nos dedicarmos à fruição, ao encantamento e à crítica capazes de construir e alimentar novos imaginários”, salienta.
Turnê literária
O lançamento do livro ocorre no formato de turnê, que estreia em Belo Horizonte e segue para São Paulo e Porto Alegre, sempre contando com a presença de interlocutoras convidadas. Nesta quinta-feira (16/4), na Livraria Quixote, na Savassi, a pesquisadora e jornalista Etiene Martins e a ativista Áurea Carolina ocuparão esse lugar.
“São pessoas que conhecem meu trabalho em profundidade e se dispõem a dedicar parte de seu tempo ao impulsionamento do voo do meu livro”, diz Cidinha da Silva.
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“QUANDO BORBOLETAS FURIOSAS SE TORNAM MULHERES NEGRAS: NÓS E OS LIVROS”
• Livro de Cidinha da Silva
• Editora Relicário
• 144 págs.
• R$ 59,90
• Lançamento nesta quinta-feira (16/4), às 19h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 174, Savassi). Entrada franca