A presença de Angelina Jolie é o chamariz de “Vidas entrelaçadas”, drama em cartaz no UNA Cine Belas Artes. Em seu primeiro filme desde “Maria Callas” (2024), ela interpreta um dos papéis mais pessoais de sua carreira. Em 2013, a atriz se submeteu a uma dupla mastectomia preventiva. O filme aborda o câncer de mama, ainda que a doença não seja o cerne da história.


O título original do longa da diretora e roteirista francesa Alice Winocour é “Couture”, remetendo ao mundo da alta-costura, onde a trama é ambientada. Mas não se engane, a moda é apenas o pano de fundo.


A trama gira em torno de três mulheres cujas vidas se cruzam em determinado momento. No caso, a Semana de Moda de Paris. Maxine Walker, a personagem de Jolie (também uma das produtoras do filme) acaba de chegar à capital francesa.


Ainda no aeroporto, recebe um telefonema de seu médico. Seus exames não estão bons, ela tem que voltar ao consultório. Maxine diz que não há como. Acabou de chegar a Paris, onde vai passar uma curta temporada.


Cineasta independente cujo filme mais recente, de terror gótico, chamou a atenção do estilista de uma marca da alta-costura (não sabemos qual é, talvez, Chanel), ela recebeu um convite.


Alta temporada

Maxine deverá dirigir o curta-metragem que vai abrir o desfile da alta temporada. Não há muito tempo a perder, ela chegou atrasada. Sem se preocupar muito com as palavras do médico, segue em frente.


Sem ter relação alguma com moda, vai dar início, no mês seguinte, às filmagens de seu próximo longa, projeto com orçamento mais robusto. Aceitou o convite francês porque precisa de dinheiro: divorciou-se recentemente e tem uma filha de 15 anos para cuidar.


Da apresentação de Maxine, o filme segue para as trajetórias de duas outras personagens. Ada (Anyier Anei) também acabou de chegar a Paris, mas numa situação bem diferente.


Nascida no Sudão do Sul, fugiu da guerra e vive com sua família em Nairóbi, no Quênia. Estudante de farmácia, a jovem de 18 anos foi descoberta como o novo “rosto exótico” da marca. Vai abrir o desfile e também estrelar o curta.


Ela nunca esteve em Paris antes, viajou às escondidas do pai, que não aprova a profissão de modelo. Ada tampouco tem certeza de que quer aquilo. Na verdade, ela gosta muito do curso universitário.


É esta a história que conta para um grupo de jovens modelos que ocupa o mesmo apartamento. Ada não tem experiência com moda, está insegura quanto ao desfile.


Embora ela não conheça o mundo de festas e viagens de que as modelos falam, tem algo em comum com algumas delas. O dinheiro vai ajudar sua família, é o que lhe diz uma jovem ucraniana que já desfila há alguns anos.

Fonte de inspiração

A terceira personagem já trafega no mundo da moda. Angèle (Ella Rumpf) é uma maquiadora aspirante a escritora. Ela usa sua experiência nos bastidores dos desfiles como inspiração. Até o momento, não chegou efetivamente a algum lugar, é o que lhe diz um escritor experiente. Ela tem talento, mas falta-lhe experiência.


Alice Winocour pode ter levado sua história para o mundo da moda para tentar trazer algum realismo em torno do glamour onde habitam tais personagens. Na verdade, ainda que seja interessante assistir aos bastidores, o contexto não é realmente o que importa.


A história de Maxine, Ada e Angèle poderia ter sido contada em outro cenário. A intenção real da cineasta parece ser a de mostrar como o inesperado pode nos levar para outros lugares.


Isto fica particularmente claro na personagem de Jolie, a mais bem explorada na história. Vincent Lindon vive Dr. Hansen, o oncologista francês indicado pelo colega americano. Cabe a ele avisá-la que os planos atuais têm que ser suspensos imediatamente: Maxine tem câncer de mama. Atônita, ela vê indo por água abaixo a vida que tinha planejado.


Neste ponto, Anton, o assistente de direção interpretado por Louis Garrel, no início não mais do que um mero coadjuvante, ganha alguma importância. Neste momento de inflexão, Maxine encontrará apoio nele. O encontro entre os dois traz os momentos mais íntimos da história. E Angelina Jolie consegue demonstrar a vulnerabilidade em que a personagem se encontra.


Mesmo assim, “Vidas entrelaçadas” carece de alguma profundidade – ao evitar o drama o tempo inteiro, o filme resvala na superficialidade. É bem-sucedido, no entanto, como estudo de personagem.

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“VIDAS ENTRELAÇADAS”
(França/EUA, 2025, 110min.) – Direção: Alice Winocour. Com Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei e Louis Garrel. O filme está em cartaz no UNA Cine Belas Artes (Sala 1, 20h20).

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