No século 12, religiosos do mosteiro católico de Benediktbeuern, na Baviera, escreveram uma série de poemas satíricos e eróticos. Desafiando a Inquisição, falavam abertamente sobre jogos de azar, bebida e sexo.
Os textos só foram encontrados em 1847 pelo estudioso de dialetos Johann Andreas Schmeller, que os publicou sob o título de “Carmina Burana” (“Canções de Benediktbeuern”, em português). Quase um século depois, em 1936, o compositor alemão Carl Orff musicou parte daqueles poemas.
A peça de Orff é a trilha do espetáculo “Carmina Burana Ballet”, da Vortice Dance Company, que será apresentado nesta sexta-feira (10/4) e sábado (11/4), às 20h30, no BeFly Minascentro.
Leia Mais
Não se trata de dramatização dos poemas satíricos, explica Rafael Carriço, codiretor artístico da montagem ao lado de Cláudia Martins. O público verá uma releitura coreográfica que transforma a monumental peça de Orff em experiência cênica híbrida.
Combinando balé clássico e dança contemporânea, o espetáculo recorre à tecnologia, com videomapping, projeções em alta definição e efeitos visuais, para criar performance imersiva. Em vez de se limitar ao palco, a encenação expande o campo visual e sensorial para todo o espaço do teatro.
Roda da Fortuna
Partindo da Roda da Fortuna, eixo simbólico de “Carmina Burana”, a montagem apresenta diferentes ciclos da vida, como o florescimento da juventude, o hedonismo, a idealização amorosa e a vulnerabilidade emocional, para depois retornar ao ponto de origem.
Espetáculo 'Carmina Burana Ballet' marca os 25 anos da Vortice Dance Company com releitura coreográfica da obra-prima do compositor alemão Carl Orff
A releitura da Vortice se constrói na tensão entre tradição e contemporaneidade. “Temos monges futuristas com luzes de LED no rosto, ao mesmo tempo em que vestem roupas muito semelhantes aos hábitos da Idade Média”, comenta Rafael Carriço. No entanto, se a essência da cantata de Carl Orff tem caráter quase litúrgico, o balé do grupo português aposta no erotismo, com corpos masculinos e femininos seminus.
O erótico, aqui, não se confunde com o vulgar e a pornografia. Trata-se de sugestão, da tensão e do desejo como força vital. Enquanto a pornografia tende à explicitação e o vulgar se ancora no excesso ou na caricatura, o erótico é sugestão, insinuação. “Procuramos a sensualidade provocada pelos corpos”, resume Rafael Carriço.
O espetáculo nasceu durante a pandemia como videoperformance. Com o retorno das apresentações presenciais, a Vortice o adaptou para ser montado no Real Mosteiro de Santa Maria, em Alcobaça, Portugal. A ideia era aproveitar a arquitetura monumental do mosteiro como parte da experiência cênica, dialogando diretamente com a essência e a história de “Carmina Burana”.
“Quando levamos o espetáculo para o teatro, estávamos fazendo a versão da versão”, brinca Rafael. “Foi positivo, porque conseguimos abordagem diferente, bem particular, que conversa com a identidade que a companhia construiu ao longo de seus 25 anos, que serão completados em 29 de abril”, conclui.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“CARMINA BURANA BALLET”
Com o grupo português Vortice Dance Company. Direção artística: Rafael Carriço e Cláudia Martins. Nesta sexta e sábado (10 e 11/4), às 20h30, no BeFly Minascentro (Av. Augusto de Lima, 785, Centro). Inteira: R$ 280 (plateia 1) e R$ 220 (plateia 2), com meia-entrada na forma da lei, à venda na bilheteria e na plataforma Sympla. Informações: (31) 3995-5775.
