Nas primeiras páginas de “Dias de glória, noites de cárcere – A história de Julinho Barroso”, Marcus Galiña avisa: “Nesta biografia de botequim, as páginas são ponteiros loucos, que marcam segundos intermináveis ou anos corridos. Além de fatos, também tem, confesso, mentirinhas de ficcionista, adereços cômicos, alguma purpurina e perdoáveis caôs”.


O primeiro desses “caôs perdoáveis” está no foco narrativo. Galiña conta a história do agitador cultural carioca Julinho Barroso em primeira pessoa, como se fosse o próprio biografado.

“É um livro escrito em primeira pessoa terceirizada”, brinca o autor, em entrevista por telefone. “Uma vez, li ‘Memórias de Adriano’, da Marguerite Yourcenar, sobre o imperador romano. Era escrito em primeira pessoa, e aquilo me soou tão verdadeiro e tão potente que me veio a ideia de escrever assim também”, conta. 

Antes de falar sobre a biografia, é preciso apresentar o biografado. Nascido em uma família de classe média no bairro da Glória, na divisa entre o Centro e a Zona Sul do Rio de Janeiro, Julinho Barroso tinha tudo para entrar no crime ainda muito jovem.

Na infância, foi aviãozinho do tráfico e, ao longo da vida, conviveu com ladrões e traficantes. Julinho, no entanto, nunca roubou nem traficou. Chegou a usar drogas, é verdade, e foi justamente por isso que acabou preso, em outubro de 1994.

James Brown

Na época, já trabalhava com produção cultural, ajudando a montar e desmontar equipamentos de som em shows dos mais variados artistas. Em um dia de folga, quando James Brown se apresentaria no Rio, decidiu passar na boca antes do show para comprar maconha. No caminho, comentou com amigos: “Nem Deus me impede de ir nesse show”. 

“É uma frase que vai ficar marcada durante minha vida toda”, diz Julinho ao repórter. “Nunca mais falei nada parecido.”

O respeito ao divino vem, sobretudo, do que aconteceu em seguida. Policiais militares fizeram uma batida no local, atiraram em Julinho e o levaram preso ao lado de outros traficantes. O agitador cultural alegou inocência. Chegou a ameaçar um dos PMs, dizendo que uma prisão injusta seria algo péssimo para o currículo do militar, mas o efeito foi o oposto.

O policial registrou no boletim de ocorrência no qual consta que Julinho portava uma metralhadora e havia trocado tiros com a polícia, disparando com a mão direita. Detalhe: Julinho é canhoto.

Começava ali o seu calvário. O primeiro lugar onde ficou preso foi a Polinter do Rio de Janeiro. Lá, dividiu cela com Guilherme de Pádua, ex-ator da Globo que assassinou a colega Daniela Perez em um dos crimes passionais mais chocantes do país. 

“Olhei para o cara. Estava de pé, perto de mim, e me observava com o rosto contraído. Usava óculos de aro fininho e mantinha, debaixo do braço, uma revista ‘Manchete’. Parecia um playboy suburbano deslocado, fingindo estar à vontade”, lembra Julinho.

“Toda semana, chegava um bolo de cartas para ele. Pedidos de casamento, fotos, ofertas de visitas íntimas, presentes, mantimentos e agrados de desconhecidas de diversos cantos”, comenta.

Julinho descreve a rotina da cadeia em um momento em que as facções criminosas ainda começavam a estender seus tentáculos pelo sistema prisional, antes de dominá-lo por completo. Superlotação, violência, racismo estrutural e disputas de poder compunham o cotidiano.

Ainda assim, ele diz nunca ter se integrado ao ecossistema prisional. Mesmo reencontrando amigos de infância no presídio, manteve-se à margem dos principais acontecimentos, evitando qualquer envolvimento que pudesse agravar sua pena. 

Aproximou-se das atividades coordenadas pelo Padre Bruno, que promovia peças teatrais e informes sobre a realidade dos detentos, e se matriculou na escola do presídio, onde estudou, entre outras disciplinas, história.

Virtudes e contradições

Foram nove anos de encarceramento, entre a Polinter e o presídio Bangu 3. “Dias de glória, noites de cárcere”, porém, não se limita ao período de prisão. Por meio da narrativa psicológica, Galiña intercala capítulos da vida de Julinho na cadeia com episódios de sua juventude.

O biografado surge exposto com virtudes e contradições aparecendo sem filtro, em uma trajetória marcada por reviravoltas e episódios por vezes inimagináveis.

“Julinho é um griot. Ele conta a própria história para todo mundo. Foi isso que ele fez comigo”, afirma Galiña. “Se há fantasia ali, para mim não importa. Não sou repórter investigativo, não fui atrás da realidade factual. Meu compromisso foi contar a história que ele conta.”

Hoje, Julinho Barroso é um agitador cultural do Rio de Janeiro. Já trabalhou com artistas que vão de Ney Matogrosso ao maestro Isaac Karabtchevsky e é figura central do tradicional bloco Cordão do Boitatá. A publicação de sua biografia, no entanto, está longe de ser uma simples celebração. Ela funciona como alerta para que jovens não sigam o caminho do crime e, sobretudo, como denúncia da corrupção e do racismo.

“O sistema estraçalha a vida negra por meio de uma guerra às drogas enviesada. Homens negros são presos por quantidades de droga que não levariam outros perfis à prisão. O caso do Julinho só reforça isso”, afirma Galiña. 

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“DIAS DE GLÓRIA, NOITES DE CÁRCERE – A HISTÓRIA DE JULINHO BARROSO”
• De Marcus Galiña
• Pallas Editora
• 336 páginas
• R$ 72, nas livrarias ou pelo site pallaseditora.com.br.

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