O que aconteceu com Lázaro depois de voltar do mundo dos mortos? A Bíblia silencia sobre esse “depois”. É nesse espaço de imaginação e símbolo que o espetáculo “Cante comigo: Lázaros” se constrói, transformando a narrativa bíblica em experiência cênica que une música, teatro e projeções. Em cartaz neste sábado (4/4), às 19h, nos jardins do Palácio da Liberdade, o musical toma Lázaro como narrador para revisitar a ressurreição de Cristo.

Por meio de canções, Lázaro reconstitui, diante de suas irmãs Maria e Marta, os acontecimentos que levaram à crucificação de Jesus. Testemunha à distância os passos finais do amigo.

“Ele conta tudo o que viu: os milagres, a própria ressurreição, os ensinamentos, a paixão, morte e ressurreição de Cristo. É claro que se trata de licença poética, pois estamos imaginando como teria sido o ponto de vista dele a partir das escrituras”, diz Ana Gabriela Baêta, produtora do musical.

Narrada no Evangelho de João, a história de Lázaro ocupa poucos versículos, mas concentra um dos episódios mais emblemáticos da tradição cristã. Nela, Jesus afirma ser “a ressurreição e a vida”, associando o milagre à promessa de renovação espiritual.

De acordo com o relato, Lázaro adoece e suas irmãs avisam Jesus, que demora a chegar a Betânia. Quando finalmente aparece, o amigo está morto há quatro dias. Diante do túmulo, Jesus o chama de volta à vida.

A passagem antecipa a própria ressurreição de Jesus e o reafirma como filho de Deus, com poder sobre a morte. Simboliza renovação, esperança e recomeço. “Por isso a escolha de contar a história pela perspectiva de Lázaro, e não por meio de um apóstolo ou de outros personagens. Lázaro passou pela morte”, explica Ana Gabriela.

Luzes de LED compõem a cenografia do espetáculo inspirado na jornada de Lázaro

Diego Ruhan/divulgação

Com 11 canções, o repertório será executado ao vivo por músicos e solistas reunidos especialmente para a montagem. Diálogos entre os personagens são intercalados com música e performances de dança.

Lázaro não se limita ao papel de narrador. Ele representa a humanidade que, mesmo diante da morte, encontra a possibilidade de redenção. A ideia é mostrar que se alguém já dado como perdido pôde voltar à vida, também é possível escapar da morte simbólica por meio da fé.

Ressurreição

É disso, aliás, que trata a Páscoa. “Quando falamos de ressurreição, estamos tentando fazer uma analogia na qual a pessoa passou pela experiência do pecado, mas depois tem uma transformação pessoal”, diz Ana Gabriela.

“Estamos falando da história da transformação pessoal de Lázaro, mas poderia ser a de qualquer outra pessoa. Muita gente se vê triste e acredita que a vida não tem mais jeito, mas tem sim. Tem jeito para tudo. Cristo mostra que tem jeito”, acrescenta.

Apesar do cunho religioso, não se trata de celebração litúrgica, pondera a produtora. “É um espetáculo cultural, que tem a inspiração na cultura cristã”, afirma.

A proposta dialoga com o movimento que se apropria de narrativas cristãs em linguagem artística, como a série “The chosen”, o musical “Jesus Cristo Superstar” e os filmes “A paixão de Cristo” (2004) e "Ressurreição” (2016).

Projeções em LED recriam cenários por onde Jesus teria passado, com imagens que remetem a Betânia, Galileia e Judeia.

Campos simbólicos

As três regiões carregam significados distintos. Betânia, onde vivem Lázaro, Marta e Maria, evoca intimidade e acolhimento. A Judeia abriga Jerusalém, centro religioso e político sob domínio romano, marcado por tensões e vigilância. Já a Galileia, território da origem de Jesus, remete ao cotidiano popular e à circulação.

Os espaços funcionam como campos simbólicos que ajudam a compreender o percurso que conduz à crucificação e à promessa de ressurreição. Ou, em sentido laico, à ideia de recomeço.

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“CANTE COMIGO: LÁZAROS”

Espetáculo cênico-musical de Páscoa. Neste sábado (4/4), às 19h, nos jardins do Palácio da Liberdade (Praça da Liberdade, s/nº, Funcionários). Entrada franca.

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