Semana Santa em Minas: cada cidade uma tradição
O interior mineiro oferece ampla programação até domingo, com procissões, missas, ritos em latim e encenação da Paixão de Cristo
compartilhe
SIGA
Sempre considerei a semana santa a época do ano em que nosso estado tem mais a cara de Minas Gerais – talvez pela luz do outono, a floração de orquídeas e quaresmeiras, um certo clima de introspecção, as vias-sacras nas cidades históricas. Ontem, conforme o calendário religioso, os fiéis participaram da procissão de ramos, lembrando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Já a partir de hoje, cada cidade tem sua programação, com uma diversidade cultural perpetuada pela atuação das comunidades locais e pronta para encantar os visitantes.
Antes de começarmos nosso “cortejo”, vale esta informação. Quem chega às igrejas e capelas vê os altares cobertos de roxo, indicando que todos os olhos devem se dirigir a Jesus Cristo. A origem desse costume, chamado “Velatio”, existe desde o Concílio de Trento (de 1545 a 1563) e tem o objetivo de fazer com que as pessoas “não se distraiam” com os santos de sua devoção, concentrando a atenção no altar, no qual se atualiza o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo.
Leia Mais
Na segunda-feira, ocorre geralmente a Procissão do Depósito. Trata-se da prisão de Jesus, daí ele ficar dentro do baldaquino, um cortinado fechado. É também chamada de Procissão de Nosso Senhor dos Passos – o cortejo vai parando nos “passos” ou pequenos oratórios representando a via-sacra de Jesus. Depósito significa que Cristo vai ser “depositado” ou “deixado”, para depois haver o encontro.
No dia seguinte, os fiéis seguem a Procissão de Nossa Senhora das Dores ou Soledade, com a imagem de Nossa Senhora, vestida de roxo e com a espada cravada no peito, simbolizando a dor extrema, à procura do filho martirizado. Percorre as ruas das cidades ao som dos motetos (cânticos em latim). O cuidado com as vestes de Nossa Senhora, como acontece em Santa Luzia, passa de geração a geração, sempre entregue às mulheres das famílias.
Já na quarta-feira, após duas procissões, há o encontro entre Nossa Senhora das Dores e o filho, Jesus. A imagem de Jesus sai do templo para onde foi na segunda-feira, enquanto a de Nossa Senhora das Dores parte da capela ou igreja aonde chegou na noite anterior. Depois do encontro, num ponto central da cidade, os dois grupos seguem em direção à igreja matriz ou santuário. Mas em Ouro Preto, curiosamente, ocorreu no domingo – procissão de ramos de manhã, encontro à tarde.
As cerimônias da quinta-feira relembram a última ceia de Jesus com os 12 apóstolos. Num gesto de humildade, o Messias lavou os pés dos discípulos. Neste dia, começa o tríduo pascal, que vai até o domingo. No dia seguinte, há a procissão do enterro de Jesus. Nesse dia, não há missas nem toque de sino, apenas o som das matracas rompendo o silêncio. Em Sabará, a tarde está reservada à abertura do santo sepulcro, cerimônia única em Minas.
E vamos chegando ao fim, com o sábado santo, quando as igrejas promovem a bênção do fogo novo (a chama que vai acender o Círio Pascal), e a Vigília Pascal (depois das 17h de sábado). E o Domingo da Páscoa, considerado o dia mais importante do calendário católico, a procissão festiva da ressurreição.
VANDALISMO AGRIDE O PATRIMÔNIO...
Já falamos inúmeras vezes aqui sobre os atos de agressão aos bens culturais mineiros. Mas eles continuam, principalmente a praga das pichações, a degradar prédios públicos, igrejas, capelas e outros monumentos. O caso mais recente ocorreu em Santa Luzia. Na calada da noite, após as comemorações de 18 de março, quando a cidade celebrou 334 anos de história, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, joia do século 18, foi rabiscada na fachada lateral. Construído pelos escravizados em louvor à Senhora do Rosário, o templo fica na Rua Direita, a principal via pública da cidade banhada pelo Rio das Velhas. Apenas duas semanas à frente da Paróquia Santa Luzia, o padre Fernando Fagundes, reitor do santuário e pároco, chamou a polícia e pediu que as autoridades municipais instalem câmeras no local para impedir novos atentados ao patrimônio.
...E TAMBÉM A HISTÓRIA DE MINAS
O caso revoltou moradores de Santa Luzia, que participam na Igreja do Rosário de missas e celebrações, a exemplo da festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro. Em sua rede social, o prefeito Paulo Bigodinho prometeu recompensa de R$ 500 a quem der informação. Destaque no Centro Histórico, em área tombada pelo município e Iepha-MG, o templo teve seu interior restaurado, no ano passado, com intervenções para valorizar seu traçado original. Neste momento, experiências do passado ressurgem como bom corretivo caso os infratores sejam identificados. Há mais de 20 anos, a polícia encontrou os responsáveis pela pichação do Santuário Arquidiocesano Santa Luzia, na Praça da Matriz. E eles foram obrigados a limpar a lambança, ao som dos sinos que badalaram em sinal de justiça.
PAREDE DA MEMÓRIA
A comunidade católica do distrito de Itatiaia, em Ouro Branco, mantém viva a campanha para encontrar as peças sacras desaparecidas, em 1994, da Matriz Santo Antônio, joia barroca mineira. Entre os objetos de fé procurados, está um crucifixo do século 18, originalmente entalhado em madeira. As ações locais, com ampla divulgação, são comandadas pela Associação Sociocultural Os Bem-te-vis, dirigida por Wilton Fernandes. Segundo ele, há 18 peças desaparecidas. “Foram furtadas 21 e recuperadas 3. Estamos sempre confiantes na volta de nossos tesouros espirituais, culturais, artísticos e coletivos”, diz Fernandes. Nas plataformas bcp.iphan.gov.br e sondar.mpmg.mp.br, há mais dados sobre o crucifixo e a forma de como fazer denúncia sobre esse e demais bens subtraídos.
SANTOS CATÓLICOS
Pesquisador e professor de arte colonial, Alex Bohrer lança o livro “A história dos santos católicos para quem tem pressa”. Mineiro de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, Bohrer aborda a história do cristianismo sob o prisma das inúmeras hagiografias (estudo da vida dos santos) e lendas contadas ao longo do tempo. “Com certeza, o livro vai agradar a todas as pessoas, por não se tratar de obra religiosa, mas, sim, de um exercício de condensação histórica”, diz o autor. O período focado na pesquisa, que reúne cerca de 400 personagens, se inicia na época dos apóstolos e chega aos dias atuais, com a canonização de Irmã Dulce e Carlo Acutis. Com prefácio de Leandro Karnal, “A história dos santos católicos...” está em pré-venda no site da Amazon.
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
Cidade reconhecida como Patrimônio Mundial, Diamantina tem de volta restaurado, com recursos do Iphan, mais um bem importante do seu conjunto arquitetônico. Trata-se do antigo Hotel Roberto, sobrado que deverá sediar um centro de educação patrimonial. Conforme a prefeitura, o novo equipamento municipal deverá ser aberto à comunidade dentro de 60 dias. Localizado perto da Casa da Chica da Silva (sede do Iphan), a edificação mereceu festa na conclusão e entrega das obras, com cortejo pelo Centro Histórico do Grupo Seresteiro de Diamantina.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
BARROCO
Até 24 de maio, está em cartaz na Casa Fiat de Cultura, em BH, a exposição “O sorriso do barroco”, com 64 obras, entre pinturas e porcelanas, de Iuri Sarmento. Curadoria de Marcus Lontra. Artista mineiro, Iuri Sarmento convida o público “a encontrar suas raízes e perceber como a arte permanece viva ao atravessar o tempo e se transformar”. Aberta de terça a sexta-feira, das 10h às 21h, e sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h.