O SAGRADO NAS ALTURAS

Série do EM revela outro olhar sobre a história, a arte e a religiosidade

Cenas bíblicas pintadas nos tetos dos templos barrocos de Minas Gerais são um convite a uma nova forma de contemplação

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Ao olhar para cima, além dos altares e imagens, quem está no interior de um templo barroco parece entrar em outra dimensão, como se pudesse, mesmo à distância, encostar os dedos em um “céu” colorido pela arte, tecido em religiosidade, eternizado por séculos de história. Nas igrejas e capelas de Minas, o teto compõe o espaço da fé, com cenas bíblicas e vida de santos pintadas no forro da nave, sob o coro, nos corredores, na sacristia. Assim, a partir do ambiente cultural e espiritual e no início da semana santa, o Estado de Minas revela um pouco desse universo de beleza e devoção na série “O sagrado nas alturas”.

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Corpo, alma, arte e conhecimento se unem para mostrar que, independentemente do credo, há lugar para todos na comunhão do humano e no divino. Tal constatação fica bem evidente nesta viagem com escalas em pinturas que remetem à Paixão de Cristo. Para começar, a equipe do EM visitou a Capela Nossa Senhora do Pilar, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Datada de meados do século 18 e localizada ao lado do cemitério municipal, a singela construção impressiona pela harmonia entre decoração e aconchego, como se o conjunto da obra abraçasse o visitante e o conduzisse a momentos de devoção tranquila. No forro da nave, sobressai a Santíssima Trindade, com Deus Pai, Divino Espírito Santo e Cristo crucificado.

No forro da capela Nossa Senhora do Pilar, em Sabará, a Santíssima Trindade, com Deus Pai, Divino Espírito Santo e Cristo crucificado, e a assunção de Nossa senhora
No forro da capela Nossa Senhora do Pilar, em Sabará, a Santíssima Trindade, com Deus Pai, Divino Espírito Santo e Cristo crucificado, e a assunção de Nossa senhora jair amaral/em/d.a press


TEMPO DE FÉ


A partir deste domingo (29), os fiéis participam das cerimônias da semana santa, que se inicia com a bênção e a procissão de ramos, lembrando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Estão na programação, com alterações de uma cidade para outra, conforme antigas tradições, as procissões de depósito de Jesus e Maria, o Encontro, a Santa Ceia, com a cerimônia do lava-pés, o descendimento da cruz e o Enterro do Senhor Morto. Há também a bênção do fogo novo, no sábado santo e, no Domingo de Páscoa (5), a Procissão da Ressurreição.

Minas respira e transpira religiosidade, e, se há tantos mistérios entre o céu e a terra, é tempo de preencher os espaços com a cultura, a história, relatos de quem vive intensamente a fé cristã. Participar das celebrações revigora e fortalece o coração das Gerais – e a semana santa é pródiga em cerimônias que elevam o espírito.


“VIAGEM” NO TEMPO E ESPÍRITO ELEVADO


Toda terça-feira, às 7h30 da manhã, é sagrado: um grupo de mulheres se reúne, para orações e recitação do terço, na Capela Nossa Senhora do Pilar, no Bairro Terra Santa, em Sabará. Vestem camisas brancas com a imagem da padroeira do templo erguido no século 18. Na noite anterior, como ocorre tradicionalmente às segundas-feiras, foi a vez do terço dos homens. “Esta capela é um tesouro para nosso patrimônio e a fé católica”, revela Devair Oliveira Mendes, zeladora do local há uma década.

Moradora a poucos metros da edificação, Devair se sente “em casa” ao falar sobre o templo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1950, e restaurado em 1995. “Cuidar desta capela é missão. Conheço cada palmo, cada parte tem sua história. É importante valorizar tudo o que vem de Deus.”

Sempre de olho nos altares, no forro e nos demais elementos artísticos, Devair tem como ajudante, no trabalho de zelar, a amiga Vanilde Isabel da Cruz Silva, para quem a simples contemplação do teto eleva o espírito, causa admiração, aumenta o respeito pela Igreja e leva a uma “viagem” no tempo. “Fico imaginando como foi pintar a Santíssima Trindade e também a Assunção de Nossa Senhora, que está no forro da capela-mor. São cenas de grande beleza”, afirma.

Sempre presente às orações, Maria Terezinha de Jesus Rocha, se mantém atenta aos detalhes, e chama a atenção para o canto esquerdo, no alto, onde há marcas de uma antiga infiltração. “Preservar é fundamental para evitar danos e futura restauração”, afirma. Ouvindo as explicações das moradoras, fica ainda mais interessante e produtivo observar os detalhes do forro, dos altares cobertos de roxo, devido à quaresma, e as imagens.

Na pintura do teto, aos pés do Cristo crucificado, dois anjos carregam um livro, no qual se lê uma frase em latim – “Se Moriens in Pretum”, que se traduz por “Morrendo, deu-se como preço”. Nas laterais da nave, está São Francisco diante da sagrada família, enquanto, no fundo, se vê o Sagrado Coração de Jesus. Até hoje, conforme estudos, não se sabe a autoria das pinturas. Mas é importante informar que a imagem de Santana Mestra (1770), atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1739-1814), se encontra hoje no município, em poder do Museu do Ouro, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)/Ministério da Cultura.

jair amaral/em/d.a press

“Esta capela é um tesouro para nosso patrimônio e a fé católica. Cuidar dela é missão”
Devair Oliveira Mendes, Diretora-geral do Yconcorrência Zeladora da capela há uma década


“Fico imaginando como foi pintar essas cenas de grande beleza no forro da capela- mor”
Vanilde Isabel da Cruz Silva, Integrante do grupo de orações


MAIS DE 250 ANOS DE HISTÓRIA

Estar diante dos monumentos de Minas significa conhecer mais sobre a história tricentenária do estado. A Capela Nossa Senhora do Pilar faz parte do chamado Hospício da Terra Santa, edifício do século 18 (hoje propriedade particular) construído por frades franciscanos que arrecadavam fundos para lugares sagrados na Palestina. Pesquisador da história local, o sabarense José Bouzas explica que a palavra hospício, neste caso, quer dizer hospedaria, e não manicômio.

Vinculada à Paróquia Nossa Senhora do Rosário, de Sabará, a capela tem sua história iniciada no século 18. Pesquisa do Iphan revela que a construção ocorreu em época posterior à instalação do Hospício da Terra Santa (1740), cabendo a iniciativa a frei Manuel de Sant’Ana, vice-comissário da Terra Santa de 1761 a 1799.

O fato de os irmãos terceiros de São Francisco de Assis terem colaborado na edificação da capela, e de usarem habitualmente o espaço para suas reuniões, os levou a reivindicar a posse do pequeno templo. No entanto, por decisão do vigário-geral da Comarca de Sabará, o Hospício de Jerusalém, como também era chamado, foi declarado dono legítimo da capela. Entre 1759 e 1762, sua construção devia estar parcialmente concluída, pois consta no livro próprio da Paróquia de Sabará a realização de casamentos na capela naquele período. 

O estilo ornamental rococó adotado tanto para as linhas do frontispício (fachada principal) quanto para a decoração interna indica demanda de vários anos na complementação das obras. Embora se desconheça a autoria do risco, o alto nível de acabamento das obras, especialmente da ornamentação, revela a participação dos melhores oficiais de Sabará. A ornamentação pode ser, inclusive, contemporânea da igreja local da Ordem Terceira do Carmo, também marcada pelo rococó, então vigente nas últimas décadas do século 18.

Na parte interna, há o forro de madeira com pintura decorativa, alusiva à Santíssima Trindade, e paredes laterais com painéis pintados. O coro apresenta balaustrada em madeira torneada e painéis no teto e paredes. O arco-cruzeiro apresenta pintura decorativa, e dois altares colaterais de estrutura simplificada, sem colunas, contendo desenho de talha elaborado, em leve policromia. A capela-mor, separada da nave por grade de madeira, tem piso em tabuado, forro de madeira com pintura decorativa e painéis nas paredes.

Entre 1901 e 1902, a capela recebeu consertos no forro, coro, porta, pintura de cimalha e janela, por iniciativa da administração do Hospício da Terra Santa. Quatro anos depois, houve reparos no muro e no portão de entrada.

Arte herdada dos portugueses

A arte de decorar os templos católicos existe desde a Idade Média, e chegou a Minas pelas mãos dos portugueses, estando presente nos forros e laterais de igrejas e capelas erguidas a partir do início do século 18, diz o especialista em história da arte, professor Alex Bohrer, autor do livro “Discurso da Imagem” (2019). Com o Concílio de Trento (1545-1563), assembleia católica realizada na Itália, “a Igreja reforçou o caráter didático e catequético” dos elementos artísticos, incluindo as imagens, unindo, assim, decoração dos templos e evangelização.

Uma das mais antigas pinturas de forro que se tem notícia, no território mineiro, se encontra na Capela Bom Jesus das Flores do Taquaral, em Ouro Preto, de autoria do português Antônio Rodrigo Bello, nascido em 1702. Pioneiro também foi o conterrâneo Gonçalo Francisco Xavier, que trabalhou em cidades como Carandaí, na Região Central, no distrito de São Bartolomeu, em Ouro Preto, e outras localidades.

Ao longo do século 18, outros nomes se destacaram em Minas, entre eles Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), nascido em Mariana, e responsável pela pintura do forro da Igreja São Francisco Assis, em Ouro Preto, templo reconhecido como uma das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo. E também João Nepomuceno, que trabalhou em Congonhas, João Batista Figueiredo, Bernardo Pires, Manuel Rebelo, Joaquim José da Rocha (em Sabará), Caetano Luiz de Miranda, Guarda-mor José Soares de Araújo (em Diamantina), Manuel Vitor de Araújo (na Região do Campo das Vertentes e Sul do estado) e dois artistas negros importantes – José Gervásio de Souza e Manuel Ribeiro Rosa –, entre outros afrodescendentes.

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Alex Bohrer conta que os artistas que trabalharam em Minas, muitos deles contratados por irmandades religiosas, se inspiravam, principalmente para pintar figuras humanas, em gravuras de livros europeus. No distrito de Cachoeira do Campo, está outro belo exemplo de forro com cenas da Paixão de Cristo, retratada em 16 painéis (15 deles em forma de caixotões), de inspiração medieval. As pinturas são de autoria desconhecida. O templo foi erguido em 1761 e considerado de devoção pioneira, no país, a Nossa Senhora das Dores.

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