Livro revela dura realidade de trabalhadoras da Chapada Diamantina
'Mulheres de pedra e seu universo', do fotógrafo, jornalista e publicitário baiano Alexandre Augusto expõe a rotina de trabalhadoras nas pedreiras
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Fotógrafo diletante, o jornalista e publicitário baiano Alexandre Augusto, 54 anos, saiu de carro pelo interior de seu estado decidido a registrar imagens. Foi a esmo pela BR-116, estrada de grandes montanhas tornadas pedreiras. Fotografou os personagens que estavam ali e só no retorno para Salvador percebeu que as imagens contavam uma história. Eram mulheres quebrando pedras que seriam transformadas em paralelepípedos.
Esse primeiro encontro, que ocorreu em 2015, gerou duas exposições e um livro, “Stone women”. Uma década mais tarde, Alexandre retornou ao mesmo lugar para se reencontrar com as personagens. Deste novo registro saiu o segundo livro, o recém-lançado “Mulheres de pedra e seu universo” (Editora Noir), que reúne 58 fotos.
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Uma referência para Alexandre desde o início do projeto foi “Stone worker (Picapedero)”, pintura do mexicano Diego Rivera, da década de 1940. “Hoje, com inteligência artificial, internet, com tudo que existe, ainda tem gente fazendo a mesma atividade rústica de 80 anos atrás. O mundo mudou em muitas coisas; em outras, não.”
Só que nesta volta ao universo das pedreiras da Chapada Diamantina o autor teve uma grata surpresa. Ainda que mantendo a mesma atividade, esse grupo de pessoas prosperou. “É o mesmo modelo de trabalho, só que elas, mesmo sabendo que é uma atividade duríssima, não são vitimistas. Começam a trabalhar às cinco da manhã, mas mantêm a casa arrumada, têm seus aparelhos eletrônicos, sua motinha e os filhos educados. São orgulhosas do que fazem”.
O cuidado é visto em detalhes. Todas elas, Alexandre comenta, mantêm as unhas impecáveis, por exemplo. Meninas que ele conheceu crianças, hoje estão casadas, têm filhos e trabalham na atividade com que suas mães e avós criaram as famílias.
O projeto original foi realizado com os membros de uma mesma família que trabalhavam no Morro da Pedra do Índio, em Itatim, distante 250 quilômetros de Salvador. Tal lugar foi fechado pelo Ibama. Desde então, cada núcleo familiar adquiriu sua própria área. Alexandre os reencontrou nas pedreiras Morro do Tigre, de Xita e de Nego.
TAREFAS DIVIDIDAS
As atividades são divididas. “As pedreiras estão nos fundos das casas. Os homens escolhem um pedaço da montanha, furam, colocam dinamite e explodem. São rochas do tamanho de um carro. O homem vem com uma marreta e transforma essa rocha em pedaços menores. As mulheres esculpem para fazer os paralelepípedos.”
De acordo com ele, o milheiro é vendido por R$ 600. “Como são quatro pessoas que trabalham em cada um, dois homens e duas mulheres, são R$ 150 para cada mil pedras. Ou seja, R$ 0,15 por paralelepípedo”, diz Alexandre. Como esta região do interior da Bahia é uma área muito seca, com pouca pecuária e sem agricultura de subsistência, quebrar pedras se tornou uma atividade passada de geração para geração.
Até quando, o autor não sabe. “Antigamente, havia atravessadores. Hoje, geralmente, os milheiros são vendidos para prefeituras do interior e para postos de gasolina, lugares que ainda têm revestimento de paralelepípedos. Mas já vai cair em desuso. As meninas não querem mais (seguir a atividade dos pais). Todas estudaram, então está tudo num processo de transição.”
“Mulheres de pedra e seu universo” tem prefácio de Roberto Pompeu de Toledo, que também prefaciou “Stone women”. “Eloquente é o detalhe do esmalte nas unhas das trabalhadoras. O esmalte trabalha contra a lógica da pedra, da dureza e da pobreza, e berra aos céus”, escreveu o jornalista.
Já Alexandre, com passado de repórter – é autor de “Moreira da Silva: O último dos malandros” (Record, 1996, indicado ao Jabuti) e cobriu a Guerra de Angola, onde viveu por cinco anos – hoje tem uma agência de comunicação digital em Salvador. “E continuo sem ser fotógrafo”, diz. Na década passada, passou alguns anos em Londres, onde fez uma série de cursos de fotografia.
“Nada foi programado”, comenta ele a respeito de todo o projeto. “Minha avó (Horádia, a quem “Mulheres de pedra” é dedicado) é da região da Chapada Diamantina. Foi uma mulher sofrida, viúva com cinco filhos. Botei o pé na região onde ela nasceu e vi que essas mulheres também se referem muito às da minha família”, finaliza.
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“MULHERES DE PEDRA E SEU UNIVERSO”
Livro de Alexandre Augusto. Editora Noir, 140 páginas. R$ 119,90